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Blog do Juca Kfouri

Quem sai aos seus segue degenerado

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Juca Kfouri

02/07/2022 15h58

POR LEONARDO SACRAMENTO*

Pedro Guimarães saiu da Caixa Econômica Federal sob acusações de assédios sexuais. Mais um com o selo bolsonarista. Mas, confesso, o que me chamou a atenção foi o sobrenome, em função dos estudos que realizo sobre o conservadorismo brasileiro.

Pedro Guimarães é casado com Manuella Pinheiro Guimarães, filha de José Adelmário Pinheiro Filho, o Léo Pinheiro da OAS. Pertencem à família Pinheiro Machado, dona de um escritório com sede no Rio de Janeiro e em São Paulo para emissão de títulos e valores mobiliários (ações).

No Rio de Janeiro, possui nomes em colégio, casarão, ruas, avenidas e afins. Possui em sua família diplomatas, empresários e afins. Mas de onde vem tanto status?

Segundo Manolo Florentino, historiador que escreveu Costas Negras, a Família Pinheiro Guimarães foi a quinta maior família traficante de africanos escravizados do Brasil, sobretudo entre 1811 e 1830, com fortíssima atuação em Luanda. Apenas da data especificada, a família realizou 45 viagens, com contabilidade oficial de mortalidade de 7.084 africanos e 101 mortos a cada 1000 africanos traficados da África Central Atlântica. Lembrando que o Brasil foi o país que traficou metade dos africanos que vieram ao continente americano, e os brasileiros foram responsáveis por 80% do tráfico, enquanto os portugueses foram responsáveis por apenas 20%. Portanto, os traficantes brasileiros foram responsáveis por 4 milhões dos 5 milhões de africanos trazidos ao Brasil, ou 4 milhões dos 10 milhões que desembarcaram no continente africano, dos EUA à Argentina.

Por uma ironia do destino, um parente distante de Pedro Guimarães e Manuella Pinheiro Guimarães foi Francisco Pinheiro Guimarães, que escreveu em 1861 uma peça chamada Histórias de uma moça rica, que trata de uma "mulata má" que seduzia o proprietário (sic!). A história reproduzia um movimento conservador da época que tratava o negro como algo maledicente e prevaricador, como fez José de Alencar em outra peça teatral, O Demônio Familiar. Essas peças e outros textos fizeram o meio de campo para a política de embranquecimento, pois defendiam que negros não poderiam existir em um país desenvolvido, ou melhor, não havia possibilidade de construir um país desenvolvido com negros, ainda mais livres (ambos eram escravocratas).

É uma grande ironia um parente longínquo ter escrito uma obra defendendo que o assédio sexual vem necessariamente da mulher e que o homem não passa de vítima, mesmo que um seja proprietário de africanas. As coisas não mudam na classe dominante brasileira.

*Leonardo Sacramento é professor de educação básica e pedagogo do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo. Autor do livro A universidade mercantil: um estudo sobre a universidade pública e o capital privado (Appris).

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

Juca Kfouri é formado em Ciências Sociais pela USP. Diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e da Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura, entre 1995 e 2000 e apresentou o Bola na Rede, na RedeTV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Apresentou o programa de entrevistas na rede CNT, Juca Kfouri ao vivo, entre 1996 e 1999 e foi colaborador da ESPN-Brasil entre 2005 e 2019. Colunista de futebol de “O Globo” entre 1989 e 1991 e apresentador, de 2000 até 2010, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio. Foi colunista da Folha de S.Paulo entre 1995 e 1999, quando foi para o diário Lance!, onde ficou até voltar, em 2005, para a Folha, onde permanece com sua coluna três vezes por semana. Apresenta, também, o programa Entre Vistas, na TVT, desde janeiro de 2018.

Colunas na Folha: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/jucakfouri/

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