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Blog do Juca Kfouri

Assim nasceu o drible

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Juca Kfouri

30/06/2022 20h32

POR ODÔNIO DOS ANJOS FILHO*

Sérgio Henrique Ferreira, pesquisador da USP de Ribeirão Preto, sempre foi uma criança problemática, difícil para o estudo formal e sua mãe tinha sempre que ser enérgica no intuito de fazê-lo dedicar-se aos livros na escola. Todavia muito curioso, era devoto do conflito e do questionamento, que era a sua metodologia para aprender. Ia além do "porquê?". Ao enfrentar uma afirmação, vinha sempre seu questionamento e ao se opor ao interlocutor, ouvia reforços de argumentação e com isso aprendia. Numa discussão, não satisfeito, ia em busca de novas informações sobre o tema para voltar com mais questionamentos, conflito e enfrentamento. Com essa motivação, não havia tempo ruim e se embrenhava no tema de sua discussão e curiosidade.

Aos trancos e barrancos conseguiu passar na escola formal e mesmo com essa dificuldade toda, pasmem: se formou em medicina!

Foi um apreciador da boa comida e da boa bebida. Se não tinha da boa bebida, podia ser da ruim mesmo. O que importava era o bom papo, a boa conversa e para ele, um bom enfrentamento.

Seguiu para academia e enveredou pelo ensino e pesquisa. Se consagrou mundialmente. Descobriu, a partir do veneno da jararaca, o remédio para hipertensão mais usado no mundo.

Sua curiosidade não se restringiu ao campo da medicina. Adorava debater temas diferentes e ao se deparar com um bom interlocutor ia a fundo na sua pesquisa. Comprava livros a respeito e ficava ainda mais estimulado quando o "opositor" dizia: "Você não entende disso". Pronto, esse era o gatilho que faria o interlocutor se arrepender do que tinha dito. A cada encontro vinha com argumentos novos e a discussão ficava cada vez mais interessante. Não havia vencedor. Vencia o debate em si.

Já Sócrates Brasileiro, grande jogador de futebol, foi seu aluno na Faculdade de Medicina da USP, em Ribeirão Preto, se formando médico, conciliando com sua trajetória no futebol. Nutria um prazer enorme pelo futebol e com isso levou boa parte da sua vida dividindo entre os ossos do ofício, já que virou ortopedista, e o prazer da bola.

Jogou no clube da sua cidade, o Botafogo de Ribeirão Preto e lá fez nome. Os opositores diziam que não treinava e abusava do talento. Imagine se treinasse! Dava passes incríveis usando o calcanhar e deixava desnorteados os seus marcadores. Como era muito tímido, encontrava na bebida a suavização dessa característica. Os invejosos diziam que bebeu muito. Mentira. Em dez anos de amizade, vi uma ou duas vezes ele fora do controle por conta da bebida. A bebida era só para destravar sua timidez e enveredar em papos e boas conversas.

Algumas vezes, após uma noite de boas prosas e cervejas, no começo da carreira, ao entrar num jogo, sua situação ficava difícil. No campo do clube da cidade, seu pai que era seu fã, gritava "Sai da sombra 8". A camisa oito pesava nessa hora e a torcida não perdoava nesses poucos dias em que isso acontecia. Como forma de criticá-lo, sabendo que era médico, gritavam: "Vai jogar, enfermeiro". Com a profissionalização isso acabou e tornou-se um bom profissional. Ainda que sem gostar de treinar.

Jogou nos times mais populares do Brasil (Corinthians, Flamengo e Santos) e chegou até a ser capitão da seleção brasileira. Se consagrou mundialmente.

Além do futebol e da medicina sempre teve uma participação política importante, sabendo do seu papel de líder e influenciador, principalmente das classes mais populares.

O caminho de ambos se cruzou quando após anos de profissão, ambos consagrados, passaram a ajudar uma entidade sem fins lucrativos, o Cineclube Cauim, liderada pelo cineasta Fernando Kaxassa. A entidade publicava uma Revista, o III Berro, e os dois participavam do conselho editorial. Um palco perfeito para dois cidadãos do mundo discutirem, explorarem temas variados, confrontarem ideias, questionarem e fundamentalmente, molharem as palavras com uma boa bebida regada rigorosamente a um bom papo.

A publicação, assim como o Cineclube Cauim, defendia intransigentemente a cidadania e talvez esse tenha sido o traço característico que uniu essas duas figuras. Os dois sempre foram muito questionadores e participantes ativos das discussões políticas e da defesa dos direitos e da noção ampliada de cidadania.

Os encontros nesta entidade passaram a ser frequentes num espaço do Cauim chamado "Templo da Cidadania" e os temas fluíam passando da política para educação, ciência, esporte, cultura, sexualidade, enfim, tudo que surgisse como preocupação da sociedade e das pessoas que frequentavam a entidade. Aliás tinha de tudo. De banqueiro a religioso, educadores e artistas, empresários e

sindicalistas, proprietários rurais e membros dos trabalhadores sem-terra. Uma diversidade e pluralidade que fomentavam discussões acaloradas.

Uma delas, que me lembro, foi quando o Papa dividiu a arquidiocese de uma cidade apenas para enfraquecer o poder de um bispo mais progressista. O jornal possuía uma premiação de a "besta" do mês e o prêmio de um determinado mês foi para o Papa. A propositura surgiu da direita e da esquerda do grupo, sendo célebre uma frase dita por Sérgio e Sócrates: "Se os extremos entraram em acordo, quem somos nós do centro para discordar?". Por unanimidade a "besta" do mês foi dada ao papa.

Porém, particularmente uma questão intrigava Sérgio e o Magrão. Como surgiu esta fama do brasileiro driblar bem?

Foram debates acalorados e o tema foi motivo de estudo, com forte participação dos dois. Lembraram que o futebol veio ao Brasil em 1894, na bagagem de Charles Miller, que trouxe duas bolas, uniformes e o livro de regras da Inglaterra, berço do novo esporte. Lembraram também que o esporte chegou elitizado e somente brancos europeus ou descendentes podiam jogar.

A aristocracia brasileira dominava as ligas de futebol, enquanto o esporte começava a ganhar as periferias e várzeas das grandes cidades. As camadas mais pobres da população e negros podiam somente assistir. Na década de 1920, os negros passaram a ser aceitos como jogadores ao mesmo tempo que o futebol se massificava, especialmente com a profissionalização em 1933.

Mas como surgiu o drible? Principalmente como surgiu a ginga brasileira que depois vimos muito bem representada por Garrincha, que desconcertava seus marcadores. Por Pelé, que deixava zonzos seus oponentes. Até pelo próprio Sócrates, usando seu calcanhar mágico.

Uma manifestação que ganhou corpo no Brasil e depois ganhou o mundo, especialmente com os nossos jogadores negros. Ficamos algum tempo matutando e todos não encontravam uma justificativa plausível.

Foi aí que um certo dia, numa das várias reuniões regadas a chopp, Sérgio trouxe a teoria que apresentou ao Sócrates, que prontamente abriu seu coração e ouvidos para ficar atento ao que o seu professor tinha chegado de conclusão das suas pesquisas. Ele concordou.

Segundo Sérgio, assim que os negros começaram a jogar, devido a sua superioridade, comprovada pelo tanto de negros ou mestiços bons de bola no futebol mundial, toda vez que um negro encostava num "branquelo" inglês ou descendente de europeu, imediatamente o juiz apitava falta. Não que a falta tivesse sido cometida, mas como a elite não admitia essa superioridade, forjava uma falta que na verdade escondia a inferioridade branca europeia.

Como conseguir jogar sem toda hora ser submetido a faltas, paralisando o jogo e impedindo que a jogada avançasse? Segundo Sérgio, daí surgiu o drible!

Os negros ao invés de se absterem de jogar, começaram a pensar em ultrapassar seus adversários antes mesmo do contato. A ginga, a habilidade, destreza de movimentos, eram usadas evitando que um juiz "amigo" desse a falta numa jogada que não havia falta, mas apenas superioridade no jogar.

Assim os negros, na década de 1920, começaram a ocupar as várzeas. Tendo passado de 1894 até 1919, ou seja, 25 anos impedidos de jogar o futebol. Nos clubes profissionais, só após uma briga imensa do Vasco, em 1924, os negros e pobres tiveram acesso ao futebol num time profissional. Não é à toa que o Vasco foi tantas vezes campeão. Daí os demais clubes começaram a admitir negros e mestiços pobres, desbancando do futebol a elite branca e europeia.

Imagina a discussão que isso causou. Será verdade? Invenção?

Uma coisa é certa, quando Sérgio e o Sócrates concordaram, para nós virou verdade. Pode até não ser, mas é bem bacana a história, não é?!

*Odônio dos Anjos Filho é economista e escritor em Ribeirão Preto.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

Juca Kfouri é formado em Ciências Sociais pela USP. Diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e da Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura, entre 1995 e 2000 e apresentou o Bola na Rede, na RedeTV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Apresentou o programa de entrevistas na rede CNT, Juca Kfouri ao vivo, entre 1996 e 1999 e foi colaborador da ESPN-Brasil entre 2005 e 2019. Colunista de futebol de “O Globo” entre 1989 e 1991 e apresentador, de 2000 até 2010, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio. Foi colunista da Folha de S.Paulo entre 1995 e 1999, quando foi para o diário Lance!, onde ficou até voltar, em 2005, para a Folha, onde permanece com sua coluna três vezes por semana. Apresenta, também, o programa Entre Vistas, na TVT, desde janeiro de 2018.

Colunas na Folha: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/jucakfouri/

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