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Blog do Juca Kfouri

O herói e o assassino

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Juca Kfouri

27/05/2022 11h36

POR JOÃO BATISTA FREIRE*

​Quando eu tinha doze anos de idade a TV Tupi lançou um seriado chamado O Vigilante Rodoviário. Era um de nossos heróis. Já tínhamos uma boa imagem a respeito da Polícia Rodoviária e, com o seriado, ela melhorou. As crianças da época que viam o seriado faziam brincadeiras imitando o vigilante rodoviário, e quando víamos policiais rodoviários nas estradas sentíamos admiração por eles. 

​Cresci nutrindo respeito por esses policiais e, mesmo quando testemunhávamos alguma truculência por parte de outros policiais, deixávamos fora de nosso julgamento a polícia rodoviária. Com o passar do tempo, aqui e ali ouvíamos falar de alguns casos de truculência ou de corrupção da polícia rodoviária, mas eram poucos e isso não diminuía nossa admiração por ela. Mesmo durante os anos mais duros da ditadura a imagem da polícia rodoviária foi preservada pela população. 

​Nos últimos dias, sempre que abro o noticiário na TV ou na Internet, além da chacina praticada pela polícia no Rio de Janeiro, o que mais se destaca é o assassinato, por asfixia, praticado pela Polícia Rodoviária Federal, de Genivaldo de Jesus Santos, um homem de 38 anos, esquizofrênico, que tomava remédios controlados há 20 anos. Seu crime? Dirigia uma moto sem capacete, algo que o presidente da república faz constantemente em suas exibições públicas. A maneira bárbara como Genivaldo foi assassinado chocou os brasileiros e brasileiras que conservam um mínimo de humanidade. 

No final de minha infância um de meus heróis era um vigilante rodoviário. O herói de meu neto pode ser um assassino rodoviário? A Polícia Rodoviária Federal participou da chacina de pessoas pobres da Vila Cruzeiro no Rio de Janeiro. Dias depois assassinou com requintes de fazer inveja a Auschwitz, Genivaldo de Jesus Santos. Torna-se, aos poucos, o braço carniceiro do atual governo federal? É essa a imagem que pretende passar à população, principalmente às crianças, que já tiveram um vigilante rodoviário da polícia de São Paulo como herói?

*João Batista Freire é professor Livre Docente aposentado da Unicamp, além de ter trabalhado na USP e na Universidade Federal da Paraíba e na Universidade Estadual de Santa Catarina, e autor de diversos livros sobre Educação Física e Esporte.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

Juca Kfouri é formado em Ciências Sociais pela USP. Diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e da Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura, entre 1995 e 2000 e apresentou o Bola na Rede, na RedeTV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Apresentou o programa de entrevistas na rede CNT, Juca Kfouri ao vivo, entre 1996 e 1999 e foi colaborador da ESPN-Brasil entre 2005 e 2019. Colunista de futebol de “O Globo” entre 1989 e 1991 e apresentador, de 2000 até 2010, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio. Foi colunista da Folha de S.Paulo entre 1995 e 1999, quando foi para o diário Lance!, onde ficou até voltar, em 2005, para a Folha, onde permanece com sua coluna três vezes por semana. Apresenta, também, o programa Entre Vistas, na TVT, desde janeiro de 2018.

Colunas na Folha: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/jucakfouri/

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