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Blog do Juca Kfouri

Breves reflexões sobre a liga de clubes e uma sugestão a respeito da transparência na alocação de receitas

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Juca Kfouri

18/05/2022 10h39

POR RODRIGO R. MONTEIRO DE CASTRO

 

A receita da CBF, oriunda dos times que compõem as divisões dos campeonatos que ela organiza, é marginal em relação aos recursos provenientes da seleção brasileira, que atingiram, no ano de 2021, 84% de toda a arrecadação, conforme aponta o jornalista Rodrigo Capelo. Os 16% restantes distribuem-se em outras linhas de produtos ou serviços e não advêm apenas da exploração daquelas iniciativas. Ou seja, o seu core business tem duas cores: verde e amarela.  

Importa anotar, ademais, que, para manutenção em alto nível de sua empresa futebolística, a entidade se aproveita, em convocações, de modo majoritário, de jogadores exportados pelos clubes nacionais, que se aperfeiçoam e concluem suas formações no exterior(sobretudo na Europa). A seleção pouco depende, portanto, conforme o sistema atual, dos jogadores em atividade no país.

Os campeonatos que a CBF organiza, sob essa ótica, servem de vitrines para promoção de jovens; são espécies de shopping centers de commodities – veja-se, a propósito, a atualíssima negociação de Marquinhos, mais um talento formado nas bases do São Paulo, em Cotia, que está a caminho do Arsenal. 

Por outro lado, tais campeonatos não cumprem o papel de fortalecer as estruturas dos clubes e, a partir deles, de criar centros de formação, de inserção e de desenvolvimento esportivo, econômico e social. 

Esse estado de coisas contribuiu, com efeito, para transformação (i) do Brasil em exportador de jogadores ainda em estágio de formação – o que poderia não ser um problema se a prática, disseminada entre praticamente todos os clubes, não ocorresse pela necessidade de levantamento de recursos emergenciais para pagamento de dívidas insolúveis, mas, sim, como reflexo de política de geração e formação, capaz de aumentar o fluxo externo sem afetar a estrutura interna – e (ii) dos times locais em meros instrumentos de passagem ao exterior. 

Daí a revelação que aproximadamente 11% dos negócios mundiais envolvem brasileiros – incluídos, na estatística, contratos de repatriação e negociações de atletas nacionais entre times estrangeiros. Também, a constatação que a falta de identificação com a torcida transforma candidatos a heróis emanti-heróis. 

Um dos remédios para reversão desse estado de coisas seria a instituição da liga de times, que teria como propósitos zelar pelo resgate, pelo fortalecimento e pelo desenvolvimento da atividade no país e, consequentemente, pela formação de um ambiente pujante e sustentável. Com ela, talvez se passe a adotar o lema reinante no ambiente esportivo norte-americano, no sentido de que times são rivais dentro de campo (ou de quadra), mas sócios fora dele. 

A liga, ao mesmo tempo, viabilizaria o ingresso de recursos imediatos nos caixas dos cambaleantes clubes brasileiros. É aí que reside um ponto de atenção, sobre o qual pouco – ou nada – se fala.

Veja-se: os clubes sociais, proprietários de empresas futebolísticas, eventualmente representativas de faturamentos que atingem centenas de milhões de reais, beneficiam-se de uma relação inquebrantável com seu público "consumidor", que lhes proporciona – ou deveria proporcionar – renda perpétua. Mais do que isso: tais clubes, que em sua origem tinham finalidades sociais ou amadoras, continuam a gozar de isenções tributárias indisponíveis a outros agentes ou setores da economia. 

Apesar dessas características únicas, o que produziram à sociedade? Bilhões em dívidas, sucateamento da estrutura patrimonial (com raras exceções) e uma indústria exportadora pautada nas necessidades imediatistas de sobrevivência e nos interesses de intermediários (que faturam, não raro, mais do que os próprios clubes) e dos destinatários europeus. Além, é sempre bom frisar, do aparelhamento da estrutura clubística pela casta cartolarial e seus interesses próprios. 

Por esses motivos, a imprensa e a sociedade em geral não deveriam perder a oportunidade de lançar e promover o seguinte debate sobre elemento fundamental, justificado pela natureza suis generisdo futebol: como se controlará ou fiscalizará a destinação dos rios de recursos que fluirão, em decorrência da liga, para os caixas dos clubes, que, historicamente, evaporam à luz do dia (e na ausência dela, também)? 

Imagine-se, por exemplo, o caso do Cruzeiro. A cartolagem local, até a chegada de Ronaldo e sua equipe, cometeu a façanha de reduzir um dos mais vencedores times do País em uma massa-falida, sem recursos internos para se soerguer. 

Corrigindo-me. Não foi capaz de aniquilar um recurso, porque não se apresentou viável durante o reinado: justamente o ingresso do clube em eventual liga. Tivesse ela sido implementada sob o (des)comando da gente que o quebrou, é possível (para não se afirmar inevitável) que as receitas tivessem o mesmo destino que levou o clube a uma dívida bilionária. 

Sei que cada torcedor ou dirigente dirá: cada um com os seus problemas. Ocorre que o problema, no caso, é coletivo e abrangente, pois toca toda sociedade – e a própria sobrevivência sistêmica do esporte no país. 

Assim, como muitos cartolas se apresentam como representantes de nações torcedoras e ousam afirmar que seus times pertencem ao torcedor – figura de linguagem que, na prática, pretende preservar o cartolismo -, talvez fosse o momento de se exigir transparência absoluta, permanente e em tempo real a respeito das receitas a alocação de ingressos provenientes, ao menos, da entidade comercializadora dos direitos da liga – que adquirirá, em contrapartida, a prerrogativa de representação e exploração econômica por décadas. 

Fica aí a ideia, que poderá ser facilmente implementada por cada clube, mediante inserção de campo próprio em seu sítio eletrônico, e acompanhada (e fiscalizada) pelos, como dizem os dirigentes esportivos, "verdadeiros donos" dos times, a coletividade torcedora. 

 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

Juca Kfouri é formado em Ciências Sociais pela USP. Diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e da Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura, entre 1995 e 2000 e apresentou o Bola na Rede, na RedeTV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Apresentou o programa de entrevistas na rede CNT, Juca Kfouri ao vivo, entre 1996 e 1999 e foi colaborador da ESPN-Brasil entre 2005 e 2019. Colunista de futebol de “O Globo” entre 1989 e 1991 e apresentador, de 2000 até 2010, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio. Foi colunista da Folha de S.Paulo entre 1995 e 1999, quando foi para o diário Lance!, onde ficou até voltar, em 2005, para a Folha, onde permanece com sua coluna três vezes por semana. Apresenta, também, o programa Entre Vistas, na TVT, desde janeiro de 2018.

Colunas na Folha: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/jucakfouri/

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