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Blog do Juca Kfouri

A surpreendente, triste e repugnante história do ídolo Gylmar dos Santos Neves

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Juca Kfouri

14/02/2022 13h58

"Gylmar era despachante do DOI-CODI", afirma Adriano Diogo.

"Andava pelos andares da delegacia onde se torturavam e matavam presos."

Gylmar foi o goleiro bicampeão mundial pela Seleção Brasileira, em 1958/62, pelo Santos, em 1962/63, e campeão do 4º Centenário pelo Corinthians.

Até hoje é considerado o melhor goleiro brasileiro e é ídolo tanto do Santos quanto do Corinthians. Morreu em 2013, aos 83 anos.

DOI-CODI foi o Destacamento de Operações de Informação – Centro de Operações de Defesa Interna, órgão do Exército, de inteligência e repressão nos tempos da ditadura. Nasceu em São Paulo, da chamada Operação Bandeirante, a OBAN, que prendia, torturava e muitas vezes matava os opositores do governo militar nas dependências de sua delegacia na rua Tutóia.

Adriano Diogo, 72 anos, passou 90 dias preso na OBAN, onde foi barbaramente torturado, em 1973.

Com a redemocratização elegeu-se vereador e deputado estadual pelo PT e presidiu a Comissão da Verdade de São Paulo.

"Ao ficar tanto tempo preso no mesmo lugar você cria proximidade com os carcereiros e eu vi o Gylmar nos corredores da delegacia muitas vezes. E perguntei: 'Mas aquele não é o ex-goleiro Gylmar?'. Foi assim que soube o que ele fazia".

Ao sair da prisão, Diogo investigou mais a fundo o que significava ser "despachante do DOI-CODI".

O que descobriu, além do que viu, é estarrecedor.

"Ele também esquentava a documentação de carros apreendidos em capturas de opositores pela OBAN e vendia carros da GM, Opalas e Chevettes, para militares e delegados sem cobrança de impostos, por meio de autorização especial obtida por ele no governo federal."

"Pelos bons serviços prestados à ditadura, e à General Motors, ganhou uma imponente concessionária da multinacional no Tatuapé, na zona leste paulistana, por meio da qual favorecia seus amigos da repressão em parceria com Ricardo Izar, seu cunhado e deputado que apoiava a ditadura".

Gylmar, de fato, sempre revelou perfil conservador, embora só agora passado tão infame tenha vindo à luz, fruto da condenação de seu filho, Marcelo Izar Neves, 55, por injúria racial.

Ao discutir com um vizinho, Marcelo Neves, que é dono de camarotes em estádios de futebol, disse: "Por isso que os judeus se foderam na vida, Hitler estava certo, a raça de vocês, judeus, não presta", e foi condenado a um ano de prisão, pena revertida para prestação de serviços à comunidade.

Gylmar também gostava de circular no andar de cima da cartolagem, tanto na FPF, que assessorou no começo da década de 1970, quanto na CBF.

Doutor Sócrates contava que, em excursão da Seleção Brasileira, certo dia recebeu uma "visita surpresa" em seu quarto comandada exatamente por Gylmar: "Acho que ele esperava me encontrar sentado tomando cerveja e me encontrou deitado lendo. Ficou todo sem jeito e foi embora".

Nada que se compare a ter servido ao regime que matou 473 opositores sob proteção do Estado.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

Juca Kfouri é formado em Ciências Sociais pela USP. Diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e da Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura, entre 1995 e 2000 e apresentou o Bola na Rede, na RedeTV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Apresentou o programa de entrevistas na rede CNT, Juca Kfouri ao vivo, entre 1996 e 1999 e foi colaborador da ESPN-Brasil entre 2005 e 2019. Colunista de futebol de “O Globo” entre 1989 e 1991 e apresentador, de 2000 até 2010, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio. Foi colunista da Folha de S.Paulo entre 1995 e 1999, quando foi para o diário Lance!, onde ficou até voltar, em 2005, para a Folha, onde permanece com sua coluna três vezes por semana. Apresenta, também, o programa Entre Vistas, na TVT, desde janeiro de 2018.

Colunas na Folha: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/jucakfouri/

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