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Juca Kfouri

05/12/2021 15h24

POR RONALDO GUIMARÃES*

Tenho um amigo que me sussurra no ouvido, longe de sua mulher: que ninguém nos ouça, mas amo é o Galo, pela minha mulher, torço.

Sou um senhor de 67 anos e do tempo da delicadeza. Delicadeza? Mentira. Convivi com a pior ditadura. No meio de carro rabo de peixe, rabo de arraia e rabo de saia, entrei num rabo de foguete. Preso aos 16 anos e, por ser menor de idade, só um dia no DOPS. Salvo pelo meu professor do antigo Ginasial, escritor nunca lido e advogado nas horas do aperto. Me safou.

Além de querer, ingenuamente, mudar aquele estado de coisas, gostava também de bola. E do Clube Atlético Mineiro.

Comecei a amar em 1964, ano ruim de se lembrar, no alto dos meus 10 anos de idade. Meu irmão mais velho, no alto dos seus 18 anos foi quem me levou. Mais tarde, ele virou treinador de futebol e mais tarde ainda, comentarista esportivo.

Campo do Sete, hoje Independência. Arquibancada romântica de cimento.

Quatro coisas me marcaram naquele dia: o gol do Noêmio, lógico. Um a zero pra nós em cima do Cruzeiro, que nem era nosso maior rival, temíamos mais o América de Jair Bala( no ano seguinte e muitos depois, perdemos o rumo de tanto perder para o Cruzeiro); a almofada preta e branca que levavam os torcedores para amenizar dores na bunda de arquibancada de cimento; os picolés de limão que meu irmão me contemplava, que, quando chupado com sofreguidão, perdiam o gosto do limão e viravam gelo. Para quem não tinha geladeira em casa, chupar gelo era um prazer e tanto. Me tragam um picolé de limão espetado num palito fajuto e uma alavanca que moverei o mundo.

Mas o que mais me impressionou naquele dia, acreditem se quiserem, foi a proibição do palavrão em estádios de futebol, decretado, não sei por quem, uma semana antes. Afinal estávamos entre homens. Mulheres, naquele tempo, passavam ao largo de campo de futebol. Falar palavrão perto de mulheres era pecado. Tudo bem, venial.

E as pessoas obedeciam. Lembro de um torcedor na minha frente que gritava: Ô juiz, filho da … três pontinhos. E se calava. Época dos três pontinhos para dissimular e enganar a ditadura.

Como era de se esperar e como não poderia deixar de acontecer, fui crescendo.

Office boy em 1971, dinheirinho contado, fugi de casa, num ônibus "Cometa", pra ver a final do Brasileiro contra o Botafogo. Escondido do meu pai, botafoguense de quatro costados.

Fomos. Bandeiras estampadas nas janelas e o grito de Atleticôôô, pam, pam, pam. Naquele tempo não havia ainda o grito estridente que sai do fundo da garganta e da alma, nossa maior digital: Galôôôô.

Areia de Copacabana virou hotel de 5 estrelas.

Fui campeão brasileiro aos 17 anos "sem conhecer Brigitte Bardot"- proibido de entrar em cinema para menores. Só fui conhecer a maior musa no ano seguinte.

Chegando em casa, encharcado de alegria, meu pai me perdoou, traduzido num sorriso de poucos dentes. Desconfio que ele gostou da minha estripulia.

Depois disso, neca.

Virei sofredor. Dezessete vezes entre os quatro primeiros. Várias finais. Vitimista? Não, injustiça.

A pior, em 1977, eu, aos 23 anos, atrás do gol, no lado esquerdo das cabines de rádio e TV. Tiraram o Reinaldo da final, por uma expulsão há duzentas rodadas. Ficou o dito pelo não dito. E não se falou mais nisso. Talvez pelo punho cerrado. Vice-campeão invicto com dez pontos à frente do campeão. De 1980, não gosto nem de lembrar.

Quando ganhamos o Bi, nesse santo ano de 2021, de repente lembrei do Drummond, o outro, meu amigo Roberto, que deve estar dando cambalhota no céu. Dessa vez o vento perdeu feio, Roberto, virou brisa e enxugou nossa camisa depois da tempestade.

Poderíamos ser "octa" campeões. Sem problema, sou feliz com as duas taças; me basta. Até faltaria poesia nessas horas. Não tem importância.

"O importante é que nossa emoção sobreviva".

*Ronaldo Guimarães é escritor.

Sobre o Autor

Juca Kfouri é formado em Ciências Sociais pela USP. Diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e da Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura, entre 1995 e 2000 e apresentou o Bola na Rede, na RedeTV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Apresentou o programa de entrevistas na rede CNT, Juca Kfouri ao vivo, entre 1996 e 1999 e foi colaborador da ESPN-Brasil entre 2005 e 2019. Colunista de futebol de “O Globo” entre 1989 e 1991 e apresentador, de 2000 até 2010, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio. Foi colunista da Folha de S.Paulo entre 1995 e 1999, quando foi para o diário Lance!, onde ficou até voltar, em 2005, para a Folha, onde permanece com sua coluna três vezes por semana. Apresenta, também, o programa Entre Vistas, na TVT, desde janeiro de 2018.

Colunas na Folha: https://blogdojuca.uol.com.br/lista-colunas-na-folha/

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