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Blog do Juca Kfouri

Aquele Rogério nunca voltou pro São Paulo

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Juca Kfouri

08/12/2021 15h44

POR LUCCA BOPP*

Não há um são-paulino ou são-paulina que se esqueça da partida de Rogério contra o Liverpool, na final do Mundial em 2005. Nem da atuação de gala contra o Universidad Católica, em 2013. Ou dos pênaltis defendidos contra o Rosário Central, em 2004. E contra o Chivas, em 2006. Certamente lembram do centésimo gol no Corinthians, em 2011. Do milésimo jogo contra o Atlético Mineiro, também em 2011.

Eu também conservo – e protejo – memórias menos laureadas. Como uma defesa antológica contra o Fluminense, na semifinal do Rio-São Paulo de 2001. E contra o Deportivo Táchira, em 2004, buscando a bola na gaveta numa cabeçada. Ou seu recital contra a Portuguesa, no Paulistão de 99, emendando uma sequência de milagres no gramado lamacento. Rogério é, sem dúvida, o jogador que mais amei na vida. Comprava luva de goleiro mesmo jogando na linha, tive aquela sua camisa laranja que estampava uma locomotiva, entrei em campo com ele 3 vezes realizando meu sonho mais profundo e chorei como se criança fosse, na sua despedida. Foram 90 minutos de choro ininterrupto porque sabia que estava dando adeus ao protagonista do meu são-paulinismo e parte integral da maior paixão que tenho. Nunca critiquei Rogério enquanto jogou pelo São Paulo e sempre armei a mais intransponível das retrancas para defender Rogério no (descabido) debate sobre quem era melhor, ele ou Marcos. Ou Dida. Ou Buffon. Ou Neuer.

Para mim – e aqui deixo o clubismo ser a única autoridade possível – Rogério é o melhor goleiro de todos os tempos e o fato de ser artilheiro ofuscou o quanto era brilhante embaixo das traves. É subestimado na sua primeira função porque também foi extraordinário cobrando faltas e pênaltis. Mas era um goleiraço aço aço. Fora o fato de ter revolucionado a posição: uma antes de Ceni e outra depois de Ceni. Aliás, pra mim ele nunca precisou do sobrenome. Ele sempre foi o Rogério. Só Rogério. O uso do sobrenome confere certa seriedade e até um distanciamento na relação, e Rogério para mim sempre foi um… são-paulino. Um camarada. Outro torcedor como eu, que sofreu e chorou na derrota contra o Inter, em 2010, e chorou de alegria vendo o documentário do time tricampeão mundial. Também nunca fui chegado no apelido Mito – e isso antes do apelido colar no canalha que nos governa -, mas porque a mitologia conta a história de seres que não existem. E Rogério e os sentimentos que provocou foram reais pra cacete. 

Rogério ocupa o primeiro lugar do Olimpo afetivo de muitos são-paulinos justamente porque nenhum outro agiu tanto como um torcedor como ele. Nenhum outro peitou tantos adversários pelas nossas cores. Nenhum outro provocou e desossou rivais como ele. Rogério e São Paulo se mimetizaram, para o bem e para o mal. Ao mesmo tempo que os dois eram exemplo de profissionalismo e com nítida vocação para conquista, ambos também eram acusados de arrogância e antipatia. Normal. Fato é que, enquanto esteve em campo, nenhum outro jogador gostou tanto do São Paulo e fez questão de dizer isso ao mundo como ele. Basta resgatar algumas de suas declarações: logo depois da conquista no Japão, o grito batendo no peito falando "eu amo vocês!" segurando a medalha de capitão da América e a coletiva pós-jogo contra o Universitário, nas oitavas da Libertadores de 2010, quando perdeu um pênalti e defendeu dois, classificando o São Paulo.  

Na entrevista, ele diz "eu amo esses caras (torcedores), eu amo esse clube (….) eu ficaria muito triste se esses caras não gostassem mais de mim."

Ao que parece, esse dia chegou. E esses são-paulinos têm razão. 

Existem algumas coisas sagradas no futebol, certos aspectos que funcionam como baluartes do jogo. Um deles é a relação entre torcedores e seus ídolos. Estamos falando de um patrimônio emocional, incapaz de ser calculado. Menos ainda de ser entendido. Não há nada mais valioso do que uma relação construída com amor, constância e lealdade inegociáveis. O são-paulino sempre amou Rogério e manifestou isso de todas as maneiras possíveis, até depois que parou de jogar. Quando estreou como treinador em 2017 e foi eliminado 3 vezes em 3 semanas, a torcida nunca apontou seus canhões pra ele. Ao contrário: os gritos sempre foram de apoio e proteção. Mesmo mal no Brasileiro, deixando o São Paulo no Z4, nada mudou. Era o Rogério ali, um de nós – e se havia algo de errado, certamente não era ele nem por causa dele. Aí o Leco fez aquela barbeiragem institucional, demitindo Rogério com baixeza e deselegância impressionantes. 

Rogério ganhou musculatura no Fortaleza, fez imenso trabalho e reencontrou são-paulinos no Pacaembu e no Castelão, em 2019. A recepção da torcida? Mais amorosa, impossível. Gritos, bandeiras, mosaicos: o são-paulino nunca economizou nos superlativos quando o assunto era ele. A relação seguiu assim: distante, mas preservada. Duelos duros contra o Tricolor do Pici, em mata-mata, elevaram a temperatura e os conflitos internos, mas tudo voltava ao normal depois do apito final.

Até que Rogério foi pro Flamengo, um casamento evidentemente insolúvel. Rogério Ceni e Flamengo combinam tanto quanto sorvete combina com ketchup. E dava pra ver desde o embarque no Galeão que era uma peça desencaixada no quebra-cabeça rubro negro. Identificação importa. Mas imaginem se um sujeito vaidoso e vencedor como ele vai aceitar ser objeto de desconfiança… jamais.

Na ânsia de ser aceito, acolhido, respeitado ou o que quer que seja, ele, Rogério Ceni cometeu um deslize tão estúpido quanto injusto e perfurou um vínculo antes impenetrável. Logo ele… tão experiente, tão malaco, tão inteligente, resolveu comparar o flamenguista com o são-paulino. A frase:

'Eu trabalhei no São Paulo por tantos anos e é um clube de massa, de presença do torcedor. Mas aqui, assim, é uma atmosfera diferente. Ser Flamengo".

Reparem: Rogério Ceni não comparou Flamengo e São Paulo, o que seria uma merda, mas mais compreensível dado o abismo que hoje separa os dois clubes. Rogério Ceni comparou as torcidas, a relação de cada um com seu clube. O elo mais primitivo do jogo. Ao estabelecer esse paralelo entre flamenguista e são-paulino, exaltando o primeiro e diminuindo o segundo, Rogério Ceni atacou sua própria história e traiu quem não merecia. Pior: foi desleal a uma torcida machucada nos últimos anos, que exerce o verso "suas glórias vêm do passado" revendo vídeos desbotados no Youtube das nossas conquistas. Conquistas, aliás, que têm ele como bastião, o que só deixa tudo ainda mais doloroso e inexplicável.

"Você pagou com traição a quem sempre lhe deu a mão." Beth Carvalho colocou em versos o que a torcida do São Paulo sentiu com a declaração do dia 21 de fevereiro de 2021. Naquele dia, algo se quebrou. E, agora, depois de ser chutado do Flamengo mesmo após ser campeão brasileiro – também porque Edenilson calça 43 e não 41, convenhamos -, Rogério Ceni foi contratado para substituir Crespo no São Paulo. 
A recepção da torcida? Mais fria, impossível. O novo técnico não teve seu nome gritado no estádio, foi excluído do encontro da organizada com elenco e não recebeu apoio de boa parte da torcida. Rogério Ceni percebeu a própria cagada que fez e pediu desculpas pela comparação absurda? Claro que não. Tentou de alguma forma se redimir com o torcedor, recorrendo às declarações de amor que distribuía tão bem enquanto jogava? Também não. Torcedor de futebol é um bicho complexo, mas não sofre o mal do rancor. Ainda mais uma torcida que amou o cara por 26 anos. Tá na cara: o são-paulino está louco para gritar o nome do Rogério de novo, amar ele sem nenhum tipo de racionalidade e disposto a perdoar a merda que falou. Só Rogério não percebeu.

Pior: não só não reconhece o erro como usa sua trajetória como jogador como chancela de são-paulinismo. E que voltou pra salvar o São Paulo porque era o São Paulo e outras frases pra boi dormir. Não é sobre isso. E não tá tudo bem. A história de Rogério como jogador acabou e continua preservada no lugar mais valioso das nossas memórias afetivas. Como treinador, pouco importa. Ninguém está com raiva dele porque o São Paulo tomou uma surra do Flamengo e do Grêmio, com suas impressões digitais. Nem está feliz porque ele ajudou a nos livrar do rebaixamento.

Estamos tristes porque aquele Rogério nunca voltou pro São Paulo.

Pode ser tarde, mas sonho profundamente – como sonham as crianças que entram em campo com seu maior ídolo – que ele perceba uma sutil diferença: o vínculo que precisa ser restaurado não é o amor de Rogério pelo São Paulo, é o amor de Rogério pelo são-paulino.

*Lucca Bopp é escritor e publicitário.

Sobre o Autor

Juca Kfouri é formado em Ciências Sociais pela USP. Diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e da Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura, entre 1995 e 2000 e apresentou o Bola na Rede, na RedeTV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Apresentou o programa de entrevistas na rede CNT, Juca Kfouri ao vivo, entre 1996 e 1999 e foi colaborador da ESPN-Brasil entre 2005 e 2019. Colunista de futebol de “O Globo” entre 1989 e 1991 e apresentador, de 2000 até 2010, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio. Foi colunista da Folha de S.Paulo entre 1995 e 1999, quando foi para o diário Lance!, onde ficou até voltar, em 2005, para a Folha, onde permanece com sua coluna três vezes por semana. Apresenta, também, o programa Entre Vistas, na TVT, desde janeiro de 2018.

Colunas na Folha: https://blogdojuca.uol.com.br/lista-colunas-na-folha/

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