PUBLICIDADE
Topo

Histórico

Categorias

Blog do Juca Kfouri

O sonho dourado de Willy Meisl

Conteúdo exclusivo para assinantes

Juca Kfouri

22/09/2021 09h49

POR PÉRIS RIBEIRO*

   Tomado de uma avassaladora paixão pelo futebol brasileiro, desde a Copa do Mundo de 1950, o consagrado jornalista  Willy Meisl escreveu textos e mais textos por toda a Europa, exaltando o talento incomum do nosso jogador.

   E esse entusiasmo conheceria o seu auge, quando Meisl procurou descrever em detalhes a sutileza dos movimentos de Zizinho, o Mestre Ziza, dentro de campo. Um Zizinho que, para ele, "era um misto de mágico e artista da bola. Capaz de esculpir genialidades dignas de um Leonardo Da Vinci. Ou de desenhar, na imaginária tela do gramado do Maracanã, verdadeiras obras – primas. À altura dos rigorosos traços de um Matisse."

Por isso mesmo, talvez esteja na enlevação de todo esse encantamento, o tamanho de sua frustração, ante um fato pra lá de consumado. Qual seja, a inesperada derrota daquele timaço do Brasil – sim, o tão incensado Brasil do implacável artilheiro Ademir Menezes, do clássico Bauer, de Jair Rosa Pinto e do irretocável Zizinho -, por uns escassos e quase irreais 2 a 1. E mais: para o quase nunca falado, e em nenhum momento temido, Uruguai de Obdúlio Varela. O heroico Uruguai de Schiaffino, Gighia, Rodrigues Andrade, Julio Perez e Máspoli. E logo no jogo decisivo daquela Copa!

Uruguai 2 a 1

   Mesmo assim, eis que mal se passaram dois anos, e lá estava o infatigável e sonhador Willy Meisl, arrebatado por um novo estilo que dizia andar a revolucionar o jogo. E o que Meisl via, na verdade, era um futebol com ares de requinte. Onde havia lugar, certamente, para a fantasia. Mas onde predominava, quase sempre, a busca pela objetividade. E onde a incessante busca pelo gol, soava como uma espécie de obsessão. Era a Hungria de Gustav Sepes, o todo – poderoso Ministro dos Esportes magiar. Uma Hungria já pronta e acabada. E que começava, a partir dali, a sua vigorosa caminhada para ganhar o mundo.

   Impressionando, logo de saída, pela marcante sequência de vitórias – a maioria, por goleadas -, aquela Hungria demolidora deu uma amostra definitiva do seu poderio já no ano de 1952, ao conquistar, invicta, o título de campeã dos Jogos Olímpicos de Helsinki, na Finlândia – quase sempre, à base de goleadas. E o fundamental é que prosseguia vencendo sem cessar, a ponto de humilhar até a orgulhosa Itália, impondo-lhe uns sonoros 3 a 0, lá dentro de Roma mesmo. O que ainda veio a conferir-lhe, por sinal, um novo e inesperado título, o de campeã da estranha Copa Dr. Gero – competição que se tornaria o embrião, dessa atual Eurocopa. Ou Copa da Europa de Seleções Nacionais.

   Nesse meio – tempo, entretanto, eis que acaba ocorrendo um fato realmente extraordinário – e que viria, rapidamente, a tomar conta dos noticiários em toda a Europa. Tudo isso, ali por volta de meados de 1953 – até então, um ano marcado pela coroação da jovem rainha Elizabeth II no trono britânico e, no futebol, por aquela Hungria novamente campeã. Só que, desta feita, de uma competição bem pouco valorizada, praticamente desconhecida. A exótica Copa Dr. Gero. E o que ocupava as manchetes dos maiores jornais de Londres, naquele instante, senão o desafio lançado pela Inglaterra a " esse atrevido time húngaro" – como bem gostavam os britânicos, de denominar a grande sensação dos gramados europeus naqueles tempos?

   Na verdade, a grande questão que se absorvia no ar, e se percebia nas mais variadas conversas, era que, respeitada como a real " inventora do futebol ", a velha Inglaterra jamais admitira que, a sua suposta superioridade, nem de longe  fosse posta em dúvida – quanto mais, contestada abertamente.

E era por viver fechada nessa espécie de casulo, que sequer suspeitava sobre o que havia em termos de revolução tática e aprimoramento técnico, em vários países à sua volta. Daí, se esperar um abrupto choque de realidade, quando chegasse a hora. E a hora, enfim, parecia haver chegado, com o insensato desafio proposto ao jovem time húngaro. Para quem, no caso, pouco importava onde fosse realizado o jogo. Muito menos, na celebrada Londres – e tendo como palco o mítico Estádio de Wembley, considerado " a Catedral do Futebol ."

Hungria x Inglaterra

Com efeito, em poucos minutos a irresistível Hungria já mandava em campo e no placar, não tomando conhecimento em momento algum da proclamada empáfia do Império Britânico. E olha que, se Puskas, Kocsis, Bozsic, Czibor e Hidegkuti não colocassem de repente o pé no freio, o vexame seria ainda maior. Afinal, aqueles estrondosos e inesperados 6 a 3, não só vergaram definitivamente o orgulho britânico, como levaram o tradicional " The Times " – bíblia do jornalismo do Reino Unido – a estampar, durante um mês inteiro, ao lado do cabeçalho do jornal, uma tarja preta em sinal de luto fechado pelo futebol inglês.

Hungria 6 a 3

   Mesmo assim – e apesar da tremenda goleada, do inesquecível vexame dentro de casa, e tudo o mais – , bem pior foi o "jogo revanche", marcado para Budapeste, um mês e meio antes do início da Copa do Mundo de 1954. Desta vez, o placar conseguiu ser ainda mais elástico: 7 a 1. E isso consolidou ainda mais, a condição da Hungria de favorita absoluta ao título da Copa, prestes a ser iniciada em gramados suíços.

    A rigor, pelo o que haviam feito, desde o segundo semestre de 1950, o retrospecto dos húngaros era de espantar. Apresentando sempre atuações convincentes, e marcando gols em profusão – as goleadas, eram como que uma espécie de marca registrada do time magiar -, não faziam questão de escolher adversários.  E os títulos de campeão olímpico e da exótica Copa Dr. Gero, passaram a funcionar como um respeitável cartão de visitas daquela Hungria recheada de craques. Além do mais, o recorde de invencibilidade de quase 30 jogos, deixava no ar uma aura de time imbatível para Puskas, Kocsis, Bozsic, Czibor e Cia.

O diabo é que, mesmo depois de estrear na Copa da Suíça impondo o seu tradicional estilo avassalador – chegara a golear, inclusive, a Alemanha Ocidental por 8 a 3, na fase classificatória -, essa mesma Hungria, que encantara de vez a Europa nos últimos quatro anos, tenha conhecido finalmente a sua tarde de pesadelo. E então, depois de abrir 2 a 0 logo nos primeiros 20 minutos, tenha deixado a Alemanha Ocidental – aquela mesma Alemanha, goleada por 8 a 3 na fase classificatória, lembram? – virar um jogo praticamente perdido e vencer por 3 a 2. Uma vitória, afinal, tão heroica quanto imprevisível. E capaz de fazer daquela mais que desacreditada Alemanha, a campeã mais improvável da história das Copas.

Hungria 8 a 3

Desencanto… Esperança?

  Terrivelmente desiludido, como não podia deixar de ser, ao ver duas de suas maiores admirações ficarem pelo caminho em decisões de Mundiais, era mais do que natural que um sofrido Willy Meisl passasse a encarar a Copa de 1958, na Suécia, com grande desconfiança. Temia, por exemplo, que um futebol de puro vigor físico viesse a se impor nos campos escandinavos. E o pior,  é que tinha lá razões de sobra para tal, pois vira a União Soviética – principal apologista do novo estilo – se impor sem contestação em 1956, saindo campeã  invicta das Olimpíadas daquele ano, realizadas em Melbourne, na Austrália.

   É bem verdade que, no time dirigido pelo sisudo e metódico Gravil Katchalin, havia um senhor goleiro, Lev Yashin,  e talentos que certamente se destacariam em grandes times europeus, como o médio- volante e capitão Igor Netto, o meia-armador Voinov e o ponta-esquerda Illyne – além do corpulento centroavante  Simonian, de estilo rompedor, como tantos atacantes ingleses, mas que tinha grande afinidade com as redes adversárias. Acontece, no entanto, que os demais jogadores eram, mais do que tudo, excepcionais atletas. Capazes de correr 180 minutos sem o menor cansaço. E era aí que morava o perigo – ou o maior dos temores de Meisl.

   Tendo chegado a Estocolmo cercado por intensa expectativa, eis que o elenco soviético se mostrava sempre receptivo, ao contrário do que se supunha. Sendo que, até isso, era tido como uma espécie de disfarce, uma política de "boa vizinhança" – já que, o que se comentava à boca pequena, era que eles eram autênticos " super-homens" disfarçados. Todos eles, fabricados nos sofisticados laboratórios de Moscou. E que, a partir daquela Copa, o que predominaria impreterivelmente seria o chamado  "Futebol – Ciência".

   Então, foi por isso, certamente, que o jogo decisivo do Grupo 4, entre Brasil e União Soviética – valendo ainda pela fase das oitavas- de- final  -, se revestiu, de uma hora para outra, de uma importância inesperada. Fundamental! É que, se os soviéticos entrariam em campo para exibir a tão decantada superioridade do seu futebol de laboratório, do outro lado estaria um desconcertante time brasileiro. Naquela Copa, o mais autêntico representante do futebol artístico, repleto de picardia e malabarismo, da respeitada América do Sul.

   Assim, foram todos esses ingredientes que fizeram com que se visse, naquele precisoinstante, o confronto entre soviéticos e brasileiros como um verdadeiro " tira-teima". Ou um autêntico vale- tudo entre as duas escolas. Tendo a Imprensa europeia em peso, para não perder a viagem, passado a classificar o aguardado duelo como uma espécie de "Jogo do Século".

Felizmente, para um Willy Meisl, um Gabriel Hanot, um Ottorino Barassi e outros tantos puristas – todos eles, apaixonados pelo que chamavam de " Futebol-Arte"- ,bastaram apenas alguns poucos minutos, para que as coisas fossem efetivamente colocadas em seus devidos lugares. Melhor dizendo, bastaram três minutos do diabólico futebol de Mané Garrincha, para que o sofisticado e hiper badalado sistema soviético virasse de pernas para o ar. Impiedosamente!

   Com a vitória acontecendo, tão somente, por uns clássicos 2 a 0 – gols de Vavá -, quando podia ter sido marcada por uma goleada impiedosa, e por um placar bem mais dilatado, o fato mais importante, no entanto, foi a aula de futebol dada pelo Brasil. Um show inesquecível! De cair o queixo! A ponto de levar um incrédulo Willy Meisl, em pleno êxtase, a proclamá-lo como " o mais fantástico espetáculo da Terra!"

   E foi ainda sob intensa emoção, e com aquele desconcertante Brasil já consagrado campeão, que um maravilhado Meisl voltou a agradecer pelo presente recebido :

    – O que um Didi exibiu por aqui, nem o Zizinho foi capaz em 1950. Ele não foi só o maior jogador da Copa. É o maior jogador do Mundo, hoje em dia. E esse menino Pelé? Que destreza! Quanta habilidade! E o que dizer do imarcável Garrincha ? Jamais conheci um jogador tão espetacular! Ele consegue ser melhor que o Stanley Mattheus. O presente que esse time me deu, é algo inesquecível! Serei grato para sempre! Acreditem:  esse Brasil de puro encantamento, salvou o futuro do futebol mundial. Felizmente, a arte venceu a ciência!

* Péris Ribeiro é jornalista e escritor. E autor de "Didi, o Gênio da Folha-Seca", ganhador do I Prêmio João Saldanha de Jornalismo Esportivo (2011), como o Melhor Livro do Ano.

NOTA DO BLOG: acaba de ser lançado no Brasil, em português, a obra permanente de Willy Meisl, "Soccer Revolution", uma aula para quem gosta de táticas e boas histórias do futebol.

Sobre o Autor

Juca Kfouri é formado em Ciências Sociais pela USP. Diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e da Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura, entre 1995 e 2000 e apresentou o Bola na Rede, na RedeTV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Apresentou o programa de entrevistas na rede CNT, Juca Kfouri ao vivo, entre 1996 e 1999 e foi colaborador da ESPN-Brasil entre 2005 e 2019. Colunista de futebol de “O Globo” entre 1989 e 1991 e apresentador, de 2000 até 2010, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio. Foi colunista da Folha de S.Paulo entre 1995 e 1999, quando foi para o diário Lance!, onde ficou até voltar, em 2005, para a Folha, onde permanece com sua coluna três vezes por semana. Apresenta, também, o programa Entre Vistas, na TVT, desde janeiro de 2018.

Colunas na Folha: https://blogdojuca.uol.com.br/lista-colunas-na-folha/

Blog do Juca Kfouri