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Blog do Juca Kfouri

Mulheres no futebol

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Juca Kfouri

17/09/2021 12h51

POR UGO GIORGETTI*

Precisamos de algo novo nesse esporte que está ficando cada vez mais chato, inclusive nos comentários, muitas vezes os mesmos, repetidos e previsíveis. Por isso, é possível que eu não esteja tão louco assim de esperar que a salvação esperada possa vir das mulheres. Por que outra razão estariam sendo contratadas? Cabe a elas pensar, refletir e, principalmente, não ter receio de se expor, de errar. É possível que estejamos todos saturados de tanta ciência, de tanta tática e tanta falta de improvisação e visão diferente. Que venham as mulheres então ajudar no combate à mediocridade

As mulheres veem a vida de modo diferente dos homens. É só seguir o que produzem quando se dedicam à poesia ou à prosa. Quanto mais veem o mundo a sua maneira, mais são originais, inovadoras e notáveis. Por isso, me alegrei quando comecei ver as mulheres entrando no futebol. Esperava alguma coisa diferente do que me chegava do universo masculino e eu conhecia havia longos anos. Espero ainda. Tenho a esperança de que vai chegar um dia em que veremos algo que nossa visão do futebol não enxerga, vamos ver aspectos, lados, frestas do futebol que, nós homens, nunca tínhamos pensado antes.

Por enquanto, tudo está no começo. Vejo as mulheres nos comentários e transmissões ainda meio tímidas, como que tentando não errar de modo algum. Talvez tenham sido instruídas para isso. Para não inventar muito  e fazer o que já vinha sendo feito pelos homens através dos tempos. Se num primeiro momento ninguém se espantasse do que falavam e se limitassem a ver como eram graciosas e simpáticas, tudo começava bem.

Mas para as mulheres primeiro manterem suas posições atuais e depois, sem dúvida, alcançarem outras posições, é preciso muito mais. Não é repetindo os homens, olhando o futebol por um ângulo que não lhes pertence, que as mulheres vão dar uma contribuição definitiva para melhorar, aprimorar e diversificar a análise do futebol. Creio que elas sabem disso. Um rosto bonito e simpático vai cansar como cansam todas as coisas iguais.

As mulheres foram chamadas para entrar em cena não porque alguém altruísta e generoso resolveu dar uma oportunidade a elas. Foram chamadas, isso sim, porque algo não vai bem com os homens. Penso que as mulheres foram chamadas para interpretar o futebol com sua própria sensibilidade de mulheres, falando sobre o futebol o que os homens não sabem nem podem. O que seria essa modificação radical? O que poderiam as mulheres ver nesse esporte que seria novo? Não sei. Como homem, não tenho a mínima ideia. São as próprias mulheres que devem descobrir algo que as torne necessárias e imprescindíveis.

Nós estamos precisando disso. Precisamos de algo novo nesse esporte que está ficando cada vez mais chato, inclusive nos comentários, muitas vezes os mesmos, repetidos e previsíveis. Por isso, é possível que eu não esteja tão louco assim de esperar que a salvação esperada possa vir das mulheres. Por que outra razão estariam sendo contratadas? Cabe a elas pensar, refletir e, principalmente, não ter receio de se expor, de errar. É possível que estejamos todos saturados de tanta ciência, de tanta tática e tanta falta de improvisação e visão diferente. Que venham as mulheres então ajudar no combate à mediocridade. Que nos mostrem sua maneira de ver a vida aplicada ao jogo. Precisamos nos divertir e ver coisas novas, seja nas transmissões, seja no jogo.

É possível, aliás, que essas transformações que espero das mulheres nos comentários se manifeste também no campo, no futebol feminino. O jogo feminino deveria ter sua própria personalidade, sua maneira particular de jogar. O futebol das mulheres não pode ser apenas uma imitação do futebol masculino. E olhem que o masculino não está tão bem assim. É isso que me parece estranho: imitar o quê? O que há de tão bom no futebol masculino? Certo, há sempre boas equipes, há sempre competições melhores. Mas a média é muito ruim.

Pode ser uma ideia tresloucada, mas algo me diz que pode existir um outro futebol, ainda secreto, escondido nas sombras e profundezas, longe de nossos olhos, à espera de ser revelado. Por que não seriam as mulheres as introdutoras dessa revolução, seja em campo, seja fora dele? Uma maneira inteiramente feminina de jogar bola. É injusto esperar isso delas? Não só no futebol, mas em todas as circunstâncias da vida, as mulheres seriam bem-vindas para corrigir e melhorar a performance dos homens e colocar um pouco mais de criatividade, fantasia, beleza nas coisas. No futebol, elas já chegaram e nos falam todas as noites. Eu, por mim, gostaria de ouvi-las falar nas suas próprias vozes , com suas próprias privilegiadas sensibilidades.

*Publicado originalmente em ULTRAJANO.

Sobre o Autor

Juca Kfouri é formado em Ciências Sociais pela USP. Diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e da Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura, entre 1995 e 2000 e apresentou o Bola na Rede, na RedeTV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Apresentou o programa de entrevistas na rede CNT, Juca Kfouri ao vivo, entre 1996 e 1999 e foi colaborador da ESPN-Brasil entre 2005 e 2019. Colunista de futebol de “O Globo” entre 1989 e 1991 e apresentador, de 2000 até 2010, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio. Foi colunista da Folha de S.Paulo entre 1995 e 1999, quando foi para o diário Lance!, onde ficou até voltar, em 2005, para a Folha, onde permanece com sua coluna três vezes por semana. Apresenta, também, o programa Entre Vistas, na TVT, desde janeiro de 2018.

Colunas na Folha: https://blogdojuca.uol.com.br/lista-colunas-na-folha/

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