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Blog do Juca Kfouri

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Juca Kfouri

25/07/2021 15h33

POR RICARDO PORTO*

Em essência, o esporte é competição. As Olimpíadas são competição no mais alto nível. 

Competir envolve determinação, preparo técnico e habilidades específicas. Por exemplo, lidar com todo tipo de pressão: dos adversários, da mídia, da torcida, dos treinadores e, maior do que todas, a pressão pessoal por desempenho e resultados. 

São elementos inerentes, indissociáveis de qualquer competição esportiva, olímpica ou não. Da Série D à final dos 100 metros rasos nos jogos de Tóquio. Da várzea ao Dream Team. Qualquer esportista conhece a pressão psicológica, emocional e aprendeu a lidar com ela.

Por favor, informem aos narradores e comentaristas dos Jogos de Tóquio.

– Tirou um caminhão das costas!

– É um peso enorme nos ombros de fulano!

– É muita pressão, amigo!

É, sim. É muita pressão. Como deve ser enorme a pressão nos bastidores das emissoras para que narradores e comentaristas se preparem direito, vistam-se iguaizinhos naqueles indefectíveis uniformes e não cometam gafes durante horas descrevendo competições de esportes que quase nunca aparecem na telinha para o grande público. É gente falando no ouvido, cartilhas a seguir, deixas comerciais, páginas de informação online, nomes complicados. É muita pressão, acreditem.

Tanta pressão que a forma de alívio dos narradores é fazer a transferência – Freud, explica! – para os atletas. 

Logo quem.

No evento dos eventos esportivos do planeta, a quase totalidade dos atletas está mais do que acostumada a pressões internas e externas. Para chegar a uma Olimpíada, todos passaram por etapas classificatórias, eliminatórias, viagens, lesões, broncas, tristezas, alegrias e, certamente, muita pressão interior. São seres humanos especiais, acostumados à competição diária.

– Segura a pressão, fulano!

Para o telespectador, não fazem o menor sentido, nem acrescentam nada em informação, os sucessivos brados de narradores:

– Aguenta, Brasil!

O Brasil está aguentando, pessoal. Aguentando pressões muito maiores ainda. Uma pandemia infindável que nos custa centenas de milhares de vidas. A fome batendo à porta de 35 milhões de miseráveis. As mentiras diárias de um presidente sem noção. 

E a ausência da tecla SAP. 

Aquele botão mágico que permitiria ao mortal telespectador desfrutar apenas a excelência do áudio ambiente captado nas competições. Sem que uma pessoa nos fique lembrando das pressões do mundo.

Fica a dica.Obrigado. Bons jogos! Cuidado com a covid. Usem máscaras e não se aglomerem!

*Ricardo Porto é jornalista.

Sobre o Autor

Juca Kfouri é formado em Ciências Sociais pela USP. Diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e da Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura, entre 1995 e 2000 e apresentou o Bola na Rede, na RedeTV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Apresentou o programa de entrevistas na rede CNT, Juca Kfouri ao vivo, entre 1996 e 1999 e foi colaborador da ESPN-Brasil entre 2005 e 2019. Colunista de futebol de “O Globo” entre 1989 e 1991 e apresentador, de 2000 até 2010, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio. Foi colunista da Folha de S.Paulo entre 1995 e 1999, quando foi para o diário Lance!, onde ficou até voltar, em 2005, para a Folha, onde permanece com sua coluna três vezes por semana. Apresenta, também, o programa Entre Vistas, na TVT, desde janeiro de 2018.

Colunas na Folha: https://blogdojuca.uol.com.br/lista-colunas-na-folha/

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