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Blog do Juca Kfouri

Como a final do campeonato brasileiro de 1992 deve ser lembrada?

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Juca Kfouri

25/07/2021 11h29

POR BERNARDO PASQUALETTE*

Essa semana marcou a efeméride do pentacampeonato brasileiro conquistado pelo Flamengo. Duas homenagens – diametralmente opostas –  publicadas nas redes sociais nos levam a uma reflexão profunda sobre aquele longínquo 19 de julho de 1992 – data da segunda partida da decisão do campeonato brasileiro daquele ano.

Alguém, de fato, saiu vencedor (ou campeão) do gramado do Maracanã naquela data?

A primeira postagem ajuda a responder essa pergunta, embora contenha uma lacuna significativa. Trata-se da homenagem à conquista feita pelo ex-jogador Júnior, eleito (com justiça) o craque daquele campeonato. Júnior relembrou o quão importante aquele título foi para sua carreira, tanto pelo fato de ser o último jogador da geração de ouro rubro-negra ainda em atividade pelo Flamengo, tanto por representar a afirmação de uma nova e talentosíssima geração que surgira na Gávea naquele momento.

Na outra ponta, uma postagem da torcida organizada Raça Rubro-Negra. Torcidas organizadas em geral não são conhecidas pelo comedimento de suas ações, mas, dessa vez, a sensibilidade deu o tom: ao invés de lembrar o título com fotos da partida, a torcida relembrou as vítimas do acidente da arquibancada do Maracanã – que desabou pouco antes do jogo, matando três pessoas e fazendo quase uma centena de feridos.

Enquanto a postagem do ex-jogador Júnior cogita uma festa ano que vem pelos trinta anos da conquista, a publicação da torcida organizada termina de forma bem diferente: "Em memórias de todos os atingidos, nossos eternos sentimentos". 

Nunca duas postagens sobre o mesmo tema diferiram tanto entre si. 

Cada um que tire suas próprias conclusões, mas as narrativas díspares não são capazes de eliminar uma pergunta da mais alta indagação: o que é mais marcante ao relembrarmos aquela data? Ou, em termos mais precisos, o que deve ser lembrado quando nos referirmos à segunda partida da decisão do campeonato brasileiro de 1992?

Naquele dia trágico, três pessoas perderam suas vidas nas arquibancadas lotadas no Maracanã. Não são números e também não são estatísticas. Em verdade, são pessoas que saíram de suas casas em uma tarde fria do ameno inverno carioca e nunca mais voltaram.

Simples (e trágico) assim.

Em realidade, são vítimas de uma tragédia que poderia ter sido evitada não fosse o descaso das autoridades em relação ao então considerado "maior estádio do mundo". Cerca de um ano antes, uma vistoria atestou as péssimas condições do guarda-corpo da arquibancada, e para o Rock in Rio 2 (realizado em 1991) a área foi isolada, não havendo possibilidade de o público se apoiar nas grades de proteção do estádio. 

Findo o festival, tudo voltou a ser como antes em Pindorama. Deu no que deu. Pessoas foram literalmente catapultadas da arquibancada, em cena chocante flagradapelas câmeras de televisão. Helicópteros pousando no gramado para levar feridos ao hospital deram ao público a exata medida da dimensão humana daquela tragédia.  

Aqui, vale a reflexão. Noves-fora a sandice de se ter levado adiante aquela partida mesmo com cerca de treze metros de vão livre em uma arquibancada superlotada, o fato é que a conquista esportiva se torna infinitamente menor ante a fatalidade daquele dia trágico.

Fabrício e Cláudio eram estudantes. Ambos eram menores de idade. Sérgio era supervisor de vendas. Deixou uma filha de quatro anos – Gabriela. No enterro deFabrício, o mais jovem a perder a vida naquela tarde, seus amigos entoaram um trecho de sua música preferida: "Será", do trio brasiliense Legião Urbana. Um dos versos da canção remete involuntariamente ao espírito de impunidade daquele tempo: "Será que nada vai acontecer?".

De fato, nada aconteceu. Até hoje se desconhecem punições aos responsáveispelo acidente do Maracanã. Uma típica tragédia brasileira: vítimas inocentes, vidas perdidas e um rastro de impunidade que sobreviveu ao tempo.

Já a conquista esportiva acaba maculada pelo infortúnio que se abateu sobre a torcida do Flamengo naquela triste tarde, trágica para todos aqueles que gostam de futebol ou que têm um mínimo de apreço pela vida humana. Uma homenagem (devida e muito merecida) às vítimas na tal "festa" pelos trinta anos da conquista ano que vem é o mínimo que as vítimas e seus familiares merecem. A sua eventual ausência não fará falta apenas ao Flamengo ou aos campeões de 1992.

Fará falta ao nosso mundo. 

P.S.: Esse artigo é dedicado à memória das três vítimas fatais do acidente do Maracanã, que aqui vão lembradas por suas idades e nomes completos: Fabrício Castilho de Oliveira (16 anos), Cláudio José da Rocha Cardia (17 anos) e Sérgio de Souza Marques (25 anos).

*Bernardo Pasqualette é autor de "1993: a Estrela Solitária brilha na América" e de "Me esqueçam: Figueiredo, a biografia de uma presidência".

 

Sobre o Autor

Juca Kfouri é formado em Ciências Sociais pela USP. Diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e da Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura, entre 1995 e 2000 e apresentou o Bola na Rede, na RedeTV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Apresentou o programa de entrevistas na rede CNT, Juca Kfouri ao vivo, entre 1996 e 1999 e foi colaborador da ESPN-Brasil entre 2005 e 2019. Colunista de futebol de “O Globo” entre 1989 e 1991 e apresentador, de 2000 até 2010, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio. Foi colunista da Folha de S.Paulo entre 1995 e 1999, quando foi para o diário Lance!, onde ficou até voltar, em 2005, para a Folha, onde permanece com sua coluna três vezes por semana. Apresenta, também, o programa Entre Vistas, na TVT, desde janeiro de 2018.

Colunas na Folha: https://blogdojuca.uol.com.br/lista-colunas-na-folha/

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