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Blog do Juca Kfouri

Para além de uma carta…

Juca Kfouri

23/06/2021 15h12

POR SAVÉRIO ORLANDI*

Na última semana foi noticiado o encaminhamento de um "ofício" pelos clubes à uma acéfala CBF.

Tal requerimento veicula duas pretensões: a organização do seu próprio campeonato e a maior participação no processo político, em especial, quanto ao peso dos clubes em votações, ambas revestidas de legitimidade, coerência e justiça.

Aproveitando o vácuo de poder na combalida CBF, ao tempo em que vive seu mercado quase insolvente e desestruturado, além de uma miríade inquietante de legislações e oportunidades, a iniciativa, aparentemente urdida de modo célere e casuístico, há de ser tida como louvável, ainda que necessário analisar o quão altiva foi, sem se afastar daquela desconfiança de sempre quanto ao efetivo propósito ou do uso "de técnica legislativa", pela qual muitas vezes se traçam caminhos paralelos para através da via oblíqua se alcançar um resultado.

Enfim, o componente político é amplo, o processo de corrosão do comando já conta anos, vemos que desde o gradual derretimento do Ricardo Teixeira a partir da CPI CBF Nike até o momento atual, que conjuga inclusive a canalhice de um assédio sexual, a CBF experimenta um acúmulo de falta de respeito e credibilidade, em nítida e constante deterioração institucional.

Vendo em retrospectiva, é curioso notar que a primeira grande aglutinação das associações esportivas deu-se, através do Clube dos 13, há mais de 30 anos, em momento similar de insolvência financeira e estrutural do futebol brasileiro, quando à época a CBF declarou não reunir condição de organizar o Campeonato Brasileiro 87.

Então, os clubes se cotizaram levantando a Copa União, que paradoxalmente à própria natureza da atividade futebolística no Brasil só teve desfecho anos depois nos tribunais; é verdade que se seguiram importantes avanços como negociações em bloco das transmissões, convenção de fundos de auxílio e garantia, entre outros, até ruir após a sucessão dos seus instituidores da primeira geração (Fábio Koff, Eurico, etc.), para essa cartolagem mais recente, que o fez implodir mediante iniciativas individuais e separatistas, no interesse de uma ou outra associação esportiva em detrimento do conjunto.

No universo contemporâneo, o incipiente CNC – Conselho Nacional de Clubes, somente esboçou seu movimento de união da classe primeiro às pressas para se posicionar diante da proposição do Projeto de Lei pelo Deputado Pedro Paulo, dois anos atrás.

Projeto que depois integraria em parte a Lei do Clube Empresa recentemente aprovada no Senado Federal e, no ano passado através da solidariedade com a deflagração da Pandemia do COVID 19.

Um processo que muito mais se assemelhou à lamentação mútua e logo se esvaiu com os clubes voltando aos seus mundos, vícios e vicissitudes, tendo categórico exemplo no Palmeiras x Flamengo realizado no 1º turno do Brasileirão 2020, quando tolas controvérsias e alguns adesismos de ocasião demonstraram o quão frágil eram os seus propósitos.

É hora de acordar e não negar o óbvio.

O futebol brasileiro (e mundial) passa por um claro momento disruptivo, com a gigantesca elevação dos seus "custos de produção", com a potencialidade da exploração de novas receitas e investimentos, com a visível inflexão dos meios de transmissão, com a necessidade premente de revisitar o produto, e sobretudo com o desafio de alcançar as novas gerações que dispõem de crescentes e variadas alternativas e novos interesses de relacionamentos e sinalizam não querer aderir , fazendo que para alguns clubes a transição "de pai para filho" seja cada vez mais dificultosa, tamanha é a concorrência…

Ou seja, não estamos falando singelamente de organizar um campeonato, mas sim da criação e perenização de um novo mercado: além de confeccionar a tabela, é preciso definir como será a nova modelagem de TV e a sua rentabilidade, o manejo de novas receitas como o mercado de apostas pronto para ser regulamentado e que passa diretamente pelos clubes, a formatação dos entes esportivos para receber investimentos, no modelo empresarial ou associativo, qualquer deles demandando o estabelecimento de efetiva transparência, governança e estabilidade, a inserção no mundo dos E-Sports, na tentativa não só de rentabilização como também reverter o esvaziamento da adesão da nova geração de aficionados.

Isto é, a tarefa é complexa!

E, como nem poderia ser diferente, requer um plano, reclama um "valuation" para identificar e valorar o mercado, para se entender a participação de cada ator dentro dele, que não pode ser mais medida somente por troféus, mas igualmente por outros ativos econômicos próprios; pelo nível e qualidade de gestão, mormente pela potencialidade de performance em sentido amplo, que envolve não só aspectos financeiros e esportivos, como também o alargamento da base de consumo apta à retroalimentar o mercado, através de estratégias de incremento, fidelização e geração de atratividade, especialmente para seus novos seguidores, ou seja, de métodos edificantes.

Em vista da dificuldade de imiscuir-se no processo político, que seja então relativizado o poder de comando, com a classe unida caminhando na construção de uma solução conjunta que possa chegar perto do "mundo perfeito", no qual se reservaria para a CBF nossa seleção nacional, as competências cartoriais como registros etransferências, a representação nas Confederações, organização das Séries C e D e a exploração da capilaridade nacional delas resultantes, e por fim, autorizando e franqueando aos clubes a própria organização da sua Liga para disputa das Séries A e B com regras estáveis, incluindo acesso e descenso, além da assunção do compromisso por seus integrantes quanto à participação na Copa do Brasil, entre outras razoáveis acomodações.

Imperiosa, nestas condições, a organização producente, preparação e foco, a elaboração de um planejamento estratégico e a planificação das etapas e dos objetivos para curto, médio e longo prazos; mais do que isso, é preciso dos nossos dirigentes tenacidade, desprendimento, coesão em torno do objetivo comum, afinal, nunca existirá jogo sem adversário e este processo de fortalecimento há de contemplar todos os atores para que tenhamos no final do dia o novo desenho do mercado futebolístico.

Aliás, como concluem Joshua Robinson e Jonathan Clegg no imperdível A Liga**: "Hoje a Premier League é uma corporação multinacional no ramo do entretenimento global". Fica o conceito, que pode sugerir qual será nosso norte!

Boa sorte aos subscritores, mas saibam que o futebol agonizante espera algo mais além de uma carta…

*Savério Orlando é advogado graduado e pós-graduado em Direito empresarial pela PUC/SP, ex-diretor de futebol e atual membro do CD e do COF da Sociedade Esportiva Palmeiras, associado da ABEX (Associação Brasileira dos Executivos de Futebol).

** A LIGA – Como a Premier League se tornou o negócio mais rico e revolucionário do esporte mundial, Joshua Robinson e Jonatham Clegg, Versal Editores, 1ª edição, página 339.

 

Sobre o Autor

Juca Kfouri é formado em Ciências Sociais pela USP. Diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e da Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura, entre 1995 e 2000 e apresentou o Bola na Rede, na RedeTV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Apresentou o programa de entrevistas na rede CNT, Juca Kfouri ao vivo, entre 1996 e 1999 e foi colaborador da ESPN-Brasil entre 2005 e 2019. Colunista de futebol de “O Globo” entre 1989 e 1991 e apresentador, de 2000 até 2010, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio. Foi colunista da Folha de S.Paulo entre 1995 e 1999, quando foi para o diário Lance!, onde ficou até voltar, em 2005, para a Folha, onde permanece com sua coluna três vezes por semana. Apresenta, também, o programa Entre Vistas, na TVT, desde janeiro de 2018.

Colunas na Folha: https://blogdojuca.uol.com.br/lista-colunas-na-folha/

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