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Blog do Juca Kfouri

No Reino Unido, não mexam com a Rainha e com o futebol

Juca Kfouri

02/05/2021 19h00

POR RAFAEL ALBERICO*

Ansioso por uma boa partida de futebol, algo, ultimamente raro em terras tupiniquins – quase tão raro quanto as vacinas – eu esperava, em plena hora do almoço, pelo jogaço que se desenhava na Inglaterra entre Manchester United e Liverpool. Apesar do campeonato praticamente decidido, por que não ver Salah, Mané, Rashford, entre outros grandes craques em campo?

Fui pego de surpresa quando notícias davam conta de que a partida não aconteceria. O motivo: torcedores do Manchester United protestavam fora e dentro do gramado do mítico Old Trafford, contra a Família Glazer, proprietária do clube.

Com a confusão armada, o jogo foi suspenso. Isso me fez lembrar de várias das boas aulas que tive com o Professor Ary Rocco durante o mestrado em gestão do esporte.

No longínquo ano de 2015, me aventurei em terras norte-americanas para aprofundar as pesquisas do meu mestrado e fui beber um pouco das águas que fazem das ligas norte-americanas fenômenos de merchandising, audiência e bilheteria.

Na UMASS (Universidade de Massachussets), participei de um breve programa na renomada Isenberg School of Management, que possui parceria com o mítico Boston Red Sox, uma das mais tradicionais franquias da MLB, principal liga nacional de baseball do país.

Entre cases com números gigantescos e impacto global, eu me perguntava durante todas as aulas: por que no Brasil não abolimos todos os nossos campeonatos, os transformamos em ligas e gerimos de maneira idêntica aos americanos? Com certeza, seria um sucesso.

Rapidamente, em um papo durante um dos intervalos, o Prof. Ary me respondeu: cultura, Rafa. Cada país tem a sua. Não é, simplesmente, replicando um modelo que alcançaremos os mesmos resultados.

Com um mercado saturado na Inglaterra, os donos dos principais times ingleses, muitos com uma mentalidade norte-americana de promover o esporte, se viram em uma situação de explorar novos mercados e conquistar audiência por todos os cantos do mundo. Afinal, empresas que são, esses clubes precisam aumentar as suas receitas e retornar o valor investido em suas aquisições.

O fato é que, desavisados ou prepotentes, esses bilionários esqueceram que o futebol é uma religião na Inglaterra. E com religião não se brinca.

Quando grandes clubes ingleses se envolveram na discussão da Superliga Europeia, mexeram em um grande vespeiro. Além de dar de ombros para a banalização dos maiores clássicos possíveis hoje no futebol mundial, ignoraram a tradição de duelos regionais, rivalidades, do verdadeiro sentido do futebol de sábado para os ingleses. Se esqueceram de que o futebol inglês nasceu, cresceu e se desenvolveu com base em pilares culturais absolutamente diferentes dos norte-americanos.

Nem aqui no Brasil que ainda engatinhamos, nem na Inglaterra, que tem a maior liga de clubes do mundo, podemos ignorar o fator cultura e sociedade em nossas análises, sejam clubes tradicionais ou empresa.

Fica o recado para os magnatas russos, norte-americanos, tailandeses e por aí vai, que investem em clubes de futebol na Inglaterra. No Reino Unido, respeitem os códigos culturais e não mexam em duas coisas: Rainha e futebol.

*Rafael Alberico é Pesquisador e Professor de cursos de Comunicação e Marketing no Esporte.

Sobre o Autor

Juca Kfouri é formado em Ciências Sociais pela USP. Diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e da Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura, entre 1995 e 2000 e apresentou o Bola na Rede, na RedeTV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Apresentou o programa de entrevistas na rede CNT, Juca Kfouri ao vivo, entre 1996 e 1999 e foi colaborador da ESPN-Brasil entre 2005 e 2019. Colunista de futebol de “O Globo” entre 1989 e 1991 e apresentador, de 2000 até 2010, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio. Foi colunista da Folha de S.Paulo entre 1995 e 1999, quando foi para o diário Lance!, onde ficou até voltar, em 2005, para a Folha, onde permanece com sua coluna três vezes por semana. Apresenta, também, o programa Entre Vistas, na TVT, desde janeiro de 2018.

Colunas na Folha: https://blogdojuca.uol.com.br/lista-colunas-na-folha/

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