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Blog do Juca Kfouri

Não deixe o futebol morrer, não deixe o futebol acabar

Juca Kfouri

12/05/2021 12h15

POR RODRIGO R. MONTEIRO DE CASTRO

 

Mais do que o samba – sem qualquer demérito, ao contrário – o futebol se tornou, de modo involuntário, a maior manifestação cultural do Brasil. Porém, oque deveria ser motivo de orgulho – também sem qualquer pretensão ufanista –, transformou-se num fardo. 

O endividamento dos clubes brasileiros soma bilhões de reais; e isso após mais de um século de subvenções e apoios estatais de todas as naturezas (isenção e imunidade tributárias, parcelamento e perdão de dívidas, patrocínios diretos e indiretos, financiamentos, dentre outros). 

Alguns motivos, já exaustivamente abordados neste espaço (e que, portanto, não serão agora repisados), explicam as causas da crise. Mas vale lembrar que: (i) a atividade futebolística no Brasil, por mais que se tente apresentar algum verniz de modernidade, ainda é amadora, ineficiente e determinada por movimentos político-associativos; (ii) o sistema cartolarial construiu uma série de dogmas, responsáveis pelo afastamento (ou mesmo pelo sentimento preconceituoso) da sociedade em relação ao futebol e pela percepção (equivocada, aliás) de que se tratava – ou se trataria – de atividade supérflua, ou mesmo alienante, sem (ou com pouca) relevância econômica ou social; e (iii) por servir a interesses mesquinhos – tais como plataformas de lançamento de dirigentes à vida pública e política, dentre muitos outros eventualmente mais condenáveis –, criaram-se barreiras impeditivas ao surgimento (e à coexistência) de modelo alternativo de organização e propriedade da empresa do futebol e, como consequência, de atração de financiadores locais ou internacionais. 

Forjou-se, assim, um sistema quase ideal para quem dele se beneficia: afinal, por envolver a paixão popular, passou a ter o Estado como cúmplice e, mais do que isso, como fornecedor de soluções imediatistas e conjunturais – sem preocupação estrutural e reformadora – para os desmandos voluntários e involuntários, criadores do mencionado endividamento (e dos demais males).

Daí, sempre que a situação se torna insustentável, os donos do futebol (ou seja, a classe cartolarial), como sabem que governantes evitarão o peso político da quebra de clube com torcida relevante, entoam, com adaptações, a bela canção de Alcione: 

"Não deixe o samba morrer / Não deixe o samba acabar / O morro foi feito de samba / De samba para gente sambar".

Em outras palavras, já se acostumaram a, de tempos em tempos, implorar ao Estado para que não deixe o futebol morrer, para que não deixe o futebol acabar, pois sabem que o governo da vez escalará, como sempre escalou, o contribuinte para pagar a conta dos clubes brasileiros. 

Assim como se está tentando fazer, atualmente, no Município de São Paulo, com o movimento que almeja a obtenção de perdão de dívidas de clubes, oriundas donão recolhimento de determinados tributos municipais (v., a propósito: https://blogdojuca.uol.com.br/2021/05/camara-paulistana-planeja-perdoar-divida-dos-clubes-da-capital/). 

Além de imoral, consiste em vantagem injustificável em um ambiente esportivo que deveria garantir condições equânimes aos seus participantes – sim, pois, São Paulo, Corinthians e Palmeiras receberão (caso vingue o movimento comentado acima) uma ajuda estatal que a Santos, Inter, Grêmio, Athletico, Galo, Fluminense, Botafogo etc., não será concedida. O que não deixa de ser, no jargão futebolístico, uma espécie de doping. 

Por outro lado – e aí sim uma perspectiva alvissareira –, convive-se com a iminência da votação, no Senado Federal, do PL 5.516/19, de autoria do seu atual Presidente, Rodrigo Pacheco (DEM/MG). Este PL tem como propósito, ao contrário de todos os projetos (ou leis) que lhe antecederam, arquitetar uma nova forma de encarar, organizar, gerir, financiar, publicizar e deter a propriedade do futebol no País do Futebol; que consiste em atividade de abrangência nacional, com potencial (como nenhuma outra) para contribuir à redução de desigualdades e à inserção social, e, não menos relevante, para ocupar espaço relevante no necessário plano de desenvolvimento econômico.

O "Projeto Rodrigo Pacheco" olha para o presente e para frente (sem recusar as lições do passado), e oferece, com efeito, soluções sistêmicas, por meio da "tipificação da Sociedade Anônima do Futebol, do estabelecimento de normas de governança, controle e transparência, da instituição de meios de financiamento da atividade futebolística e da previsão de um sistema tributário transitório".

Tudo indica, a propósito, que nas próximas semanas – ou nos próximos dias – será pautado e, enfim, votado no Senado Federal, à luz do Relatório a ser apresentado pelo Senador Carlos Portinho (PL/RJ) – que deve propor ajustes pontuais. 

A expectativa é grande; grande como deveria ser o futebol brasileiro (local e mundialmente). Não apenas pelas oportunidades que se abrirão – abordadas em diversos textos neste mesmo espaço –, mas também porque talvez, como nunca, encontrem-se reunidos os elementos e as pessoas, nas posições certas, com condições para impedir que se desperdice mais uma (e possivelmente a última) chance de construção de um grandioso projeto futebolístico nacional. 

Ou como diria o personagem de Giuseppe Tomasi di Lampedusa, na obra Il Gattopardo, para impedir que as mudanças ocorram para ficar tudo como está. 

Sobre o Autor

Juca Kfouri é formado em Ciências Sociais pela USP. Diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e da Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura, entre 1995 e 2000 e apresentou o Bola na Rede, na RedeTV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Apresentou o programa de entrevistas na rede CNT, Juca Kfouri ao vivo, entre 1996 e 1999 e foi colaborador da ESPN-Brasil entre 2005 e 2019. Colunista de futebol de “O Globo” entre 1989 e 1991 e apresentador, de 2000 até 2010, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio. Foi colunista da Folha de S.Paulo entre 1995 e 1999, quando foi para o diário Lance!, onde ficou até voltar, em 2005, para a Folha, onde permanece com sua coluna três vezes por semana. Apresenta, também, o programa Entre Vistas, na TVT, desde janeiro de 2018.

Colunas na Folha: https://blogdojuca.uol.com.br/lista-colunas-na-folha/

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