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Blog do Juca Kfouri

Os torcedores do Liverpool estão envergonhados

Juca Kfouri

21/04/2021 18h20

POR MÁRIO MARRA*

A primeira semana do mês de maio de 1941 deixou marcas em Liverpool. Foram quase 700 bombas lançadas na cidade, e o número de mortos chegou perto de 3 mil. Algumas bombas caíram na Igreja de St. Luke, que teve seu teto destruído. Outras cidades vizinhas também sofreram e contaram mais mil mortos.

Estive na conhecida igreja bombardeada e sem teto. Olhar para cima e ver, naquele dia, o céu azul foi como um convite ao silêncio e à reflexão. Imaginei pais e mães desesperados, crianças correndo e outros tantos caídos pelo caminho. Cheguei a pensar na dor dos dias que se seguiram e foram sete dias e noites de bombas caindo na cidade. Por mais que me esforçasse para tentar entender a dor daquelas pessoas, o máximo que consegui foi desenvolver empatia. Já é um avanço. A cidade chorou, mas se reconstruiu.

Por ser um importante porto, Liverpool se acostumou desde sempre com a chegada de pessoas de diversas partes do mundo. Receber as pessoas, acolher e conviver com o diferente se tornou um traço de seu povo. Muitos tentaram uma oportunidade melhor em um centro comercial histórico. E, de acolhimento em acolhimento, os diferentes se fizeram iguais e os iguais ajudaram a reconstruir a cidade e a construir laços, identidade. 

O que as pessoas da lá não esperavam era que aquela cidade, quase esquecida pelo distante governo central, fosse atrair os olhares de todo o mundo. Era um despretensioso 6 de julho de 1957, no jardim da Igreja de St. Peter, quando um jovem chamado Paul não conseguia parar de prestar atenção em um outro jovem chamado John que tocava com sua banda, a Quarymenn. Os dois jovens um tempo depois se juntaram a outros e viram o Século XX e o mundo tomarem outro rumo a partir dali. Orgulhosa, a cidade acolhedora comprou os ideais e valores daquelas músicas e passou a ser também questionadora.

E foi com protestos que o bairro de Toxthet gritou contra a política de Margaret Thatcher. Dias e dias de protestos, dias e dias de apelos para que pudessem ser vistos. Um grito que foi abafado pela polícia e pelas ordens que vinham da distante, não só geograficamente, Londres. De Toxthet saiu Gerry Marsden, a voz de You'll Never Walk Alone.

Liverpool viu chegar um ex-jogador de futebol cheio de ideias e bom de papo. Ele bateu os olhos na estrutura do clube e não deu importância para o mato que crescia no gramado, mas preferia vislumbrar que uma potência poderia surgir dali. Mandou os jogadores colocarem calções vermelhos e blusas da mesma cor. A cabeça de Bill Shankly não aceitava que aquela comunidade visse o seu time outras temporadas na segunda divisão. Com olhos arregalados, Shankly sabia que as coisas e as pessoas deveriam mudar para melhor. E ele vendeu sonhos e empilhou taças.

O trabalho consumia as pessoas, a falta dele também. Além da música, era o futebol que fazia os dias serem diferentes. O time de azul e o time de vermelho. Separados por um parque e por uma imensa rivalidade. Até que uma outra data fizesse mais uma cicatriz no coração daquela gente, o dia 15 de abril de 1989. Poderia ser um dia de festa para os torcedores do Liverpool, que disputaria uma chance de ir para a final da Copa da Inglaterra. Não foi. Uma incrível sucessão de erros graves cobrou a vida de 96 pessoas. Mães, pais, idosos e crianças. Foram 96 mortos na Tragédia de Hillsborough. 

A cidade chorou, mas chorou unida. O rival Everton sentiu como se a dor fosse nele. Era nele também. E foram longos anos de luta pela justiça. Longos anos ouvindo que os mortos eram vândalos, animais que provocaram as próprias mortes. A distante Londres e boa parte da Inglaterra aceitou a versão mais fácil e fez colar nos moradores de Liverpool o rótulo de que eles gostam de serem vistos como vítimas. 

A cidade acolhedora, sofrida e questionadora agora era vista também como desordeira e até mesmo assassina. Os moradores não precisavam segurar o choro da dor, mas passaram a conviver também com a dor da injustiça. Os torcedores dos clubes se abraçaram e experimentaram o prazer de sonhar que era possível praticar o You'll Never Walk Alone. 

Igreja de St. Luke, em Liverpool, sem teto; à frente, dois soldados, um britânico e um alemão, cumprimentam-se

Igreja de St. Luke, em Liverpool, sem teto; à frente, dois soldados, um britânico e um alemão, cumprimentam-se Paul Ellis/Getty Images

St. Luke, Toxteth, Hillsborough… e a Superliga

A imagem da igreja sem teto é sempre presente nos meus dias. As pessoas da cidade sabem o que houve ali. Sabem que famílias foram desfeitas lá ou em Toxteth. Ou em um estádio de futebol. As pessoas de Liverpool experimentaram a dor. Experimentaram a oportunidade e a falta dela. Lutaram por empregos e por justiça. Talvez isso explique as várias músicas que citam o carteiro, o bombeiro ou o banqueiro de Penny Lane. Ou a Maggie Mae que já não vai mais até Lime Street. Tudo fez crescer nos moradores a sensação de pertencimento. 

O dia 18 de abril de 2021 estará marcado nos corações dos torcedores do Liverpool. Não só mais nos da cidade. Sim, Bill Shankly conseguiu transformar a utopia em realidade e o clube da cidade se tornou uma marca mundial. A comunidade de torcedores do Liverpool foi surpreendida com a notícia de que os donos do clube estão por trás da criação de uma liga que visa dar mais poder e dinheiro para uns poucos clubes. O Liverpool de Shankly, que suou por anos para se reconstruir e sair da segunda divisão, agora se sente um clube da elite e nem a mão ao irmão Everton estenderá mais. Caminhará sozinho.

Por qual motivo os torcedores do Liverpool não concordam com o clube ter sempre os cofres cheios? Será mesmo que eles não querem ver o clube disputar os principais torneios e ter a chance de ter também os melhores jogadores? Por quê? Porque Liverpool, tanto a cidade quanto o clube, aprendeu a se reconstruir da maneira mais solidária possível e quem manda no clube parece que esqueceu ou que nunca soube disso. 

Os torcedores, que tanto se orgulham de participar da vida do clube, se sentiram traídos pelos donos do time de seus corações e de seus sonhos. Os proprietários do Liverpool nunca devem ter tido momentos de empatia com a dor dos locais. Nunca devem ter visto a igreja bombardeada e nunca entenderão que ninguém compareceu ao enterro de Eleanor Rigby. De lá dos Estados Unidos é difícil acreditar que eles saibam o que o clube representa. Não existe pertencimento. Os sonhos são diferentes. 

O clube, que se vingava da distante Londres ganhando dos times da capital, parece agora viver distante de seus próprios ideais. Sozinho. Será que vai ser possível continuar cantando You'll Never Walk Alone a plenos pulmões? Shankly, se estivesse vivo, estaria envergonhado. The dream is over!

Faixa contra a Superliga e outros objetos foram colocados em Anfield Road, casa do Liverpool, em protesto à possível nova disputa

Faixa contra a Superliga e outros objetos foram colocados em Anfield Road, casa do Liverpool, em protesto à possível nova disputa Christopher Furlong/Getty Images

*Publicado originalmente no sítio da ESPN Brasil.

Sobre o Autor

Juca Kfouri é formado em Ciências Sociais pela USP. Diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e da Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura, entre 1995 e 2000 e apresentou o Bola na Rede, na RedeTV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Apresentou o programa de entrevistas na rede CNT, Juca Kfouri ao vivo, entre 1996 e 1999 e foi colaborador da ESPN-Brasil entre 2005 e 2019. Colunista de futebol de “O Globo” entre 1989 e 1991 e apresentador, de 2000 até 2010, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio. Foi colunista da Folha de S.Paulo entre 1995 e 1999, quando foi para o diário Lance!, onde ficou até voltar, em 2005, para a Folha, onde permanece com sua coluna três vezes por semana. Apresenta, também, o programa Entre Vistas, na TVT, desde janeiro de 2018.

Colunas na Folha: https://blogdojuca.uol.com.br/lista-colunas-na-folha/

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