Topo

Blog do Juca Kfouri

Recortes de realidade*

Juca Kfouri

06/02/2021 10h15

POR UGO GIORGETTI

Esses momentos mágicos em que um mundo é recuperado são preciosos por mais curtos que sejam. Num certo sentido, os 90 minutos de uma partida são todos momentos mágicos que nos tiram da irrealidade em que vivemos e nos atiram de volta à velha realidade tão conhecida. Não importa se os estádios estão vazios. O jogo está lá

Faz um ano que padecemos de irrealidade. O que a gente acreditava que era real, conhecido e seguro, não é mais. Nossa velha realidade tão conhecida foi atravessada por outra mais sutil e, no entanto, presente de várias formas sinistras. Essa outra realidade pode se manifestar através de dados, por exemplo, de números, de estatísticas. Quantos se infectaram , quantos morreram etc., mas nem sempre é invisível.

Uma olhada ao redor e surpreendemos quase o mesmo mundo antigo, mas aos poucos a irrealidade, ou suprarrealidade, vai se tornando visível e alterando as coisas diante de nós. Estou me acostumando com o novo aspecto da cidade, pelo menos de sua área mais próxima do Centro. Menos carros, uma espécie de sossego enganoso, não mais o despreocupado de pequenas localidades do interior, sonolento e quase gentil, mas o sossego do pesadelo paralisante, do mau presságio.

No entanto, o sol brilha e ilumina metade da fachada do prédio do outro lado da rua. É isso o que eu chamo de recorte de realidade. Ela aparece por acaso quando o sol bate como sempre bateu no prédio da frente e tudo parece subitamente o que sempre foi. O problema é que esses momentos de velha realidade são rápidos e fugazes como o próprio brilho do sol. Você olha, ele está lá. Olha de novo, já desapareceu, e a fachada que era alegre já está cinza e sombria.

Estou cada vez mais me dedicando à caça de cenas que me liguem com o mundo anterior. Elas sempre aparecem. Agora mesmo, vejo na rua de pouco movimento um garoto, uma criança, carregando seu skate. Ele vem andando sem máscara e sem nenhuma preocupação. Deve ter uns 8 anos. Dá pra sentir que nem nos seus pensamentos mais remotos se dá qualquer preocupação como as que preocupam a mim. Ele sabe que o que está acontecendo é com os outros. Não é com ele nem com seu skate. Fico me perguntando onde ele vai, em que canto deste mundo de escolas fechadas ele descobriu um lugar para curtir seu skate.

O garoto para antes de atravessar a rua e olha cuidadosamente.  Ele também trai um pouco um costume do mundo quase desaparecido, pois não há trânsito nenhum. Pelo menos não o trânsito ameaçador a que estávamos acostumados. Mas o garoto, por via das dúvidas, olha bem e atravessa. Dentro em pouco, ele some com seu skate e não há mais recortes de realidade à frente. Tenho que esperar ou sair à cata de outro.

O futebol é um desses momentos de realidade recuperada. Mesmo deformado, sem torcedores e muito mais silencioso, o futebol se adapta, se recria e por momentos é o mesmo. Quando o Palmeiras ganhou a Libertadores no último sábado, mesmo dentro de casa, tive uma súbita volta à realidade, pelo menos a uma realidade sonora que julgava perdida. Houve foguetório na hora do gol, quando não mais se esperava que fosse feito. Ouvi exclamações e berros em prédios vizinhos, coisa que não ouvia faz muito tempo. Mas depois o silêncio.

Esses momentos mágicos em que um mundo é recuperado são preciosos por mais curtos que sejam. Num certo sentido, os 90 minutos de uma partida são todos momentos mágicos que nos tiram da irrealidade em que vivemos e nos atiram de volta à velha realidade tão conhecida. Não importa se os estádios estão vazios. O jogo está lá. E o velho jogo, até com o grito de gol que não acaba mais. Me refiro ao berro que os locutores emitem quando se faz um gol. A origem desse urro acho que se deve principalmente à tentativa de acompanhar o grito ensurdecedor das torcidas presentes no estádio. Os locutores de rádio tentavam desesperadamente descrever o clima e as dimensões do que ocorria na torcida. Tentavam levar a sua loucura para quem estava em casa.

Mas hoje não há mais torcedores e, no entanto, o grito permanece igual. Deveria ser um sussurro, porque não é necessário descrever mais nada. Todos estão vendo o gol. Também não precisam ultrapassar mais o grito dos torcedores ausentes. E, no entanto, instintivamente, o narrador da televisão emite um grito que, absurdo como parece, serve para lembrar um mundo soterrado que todos nós ansiamos para que volte. Voltará? Quem sabe? Aos poucos, talvez. Ou pode ser também que volte como veio. Um dia vamos abrir as janelas de manhã e dar de cara com um surpreendente novo mundo, isto é, o velho.

*Publicado originalmente em ULTRAJANO

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

Juca Kfouri é formado em Ciências Sociais pela USP. Diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e da Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura, entre 1995 e 2000 e apresentou o Bola na Rede, na RedeTV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Apresentou o programa de entrevistas na rede CNT, Juca Kfouri ao vivo, entre 1996 e 1999 e foi colaborador da ESPN-Brasil entre 2005 e 2019. Colunista de futebol de “O Globo” entre 1989 e 1991 e apresentador, de 2000 até 2010, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio. Foi colunista da Folha de S.Paulo entre 1995 e 1999, quando foi para o diário Lance!, onde ficou até voltar, em 2005, para a Folha, onde permanece com sua coluna três vezes por semana. Apresenta, também, o programa Entre Vistas, na TVT, desde janeiro de 2018.

Colunas na Folha: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/jucakfouri/