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Blog do Juca Kfouri

O octa do Tio Carlos

Juca Kfouri

27/02/2021 22h14

POR JORGE MURTINHO*

POR JORGE MURTINHO*

Como costuma acontecer com boa parte dos torcedores no mundo inteiro, a consanguinidade fez de Carol Mantuano uma apaixonada por futebol – e mais especificamente, pelo Flamengo.

Entretanto, os genes não foram herdados diretamente do pai, exemplo raro de rubro-negro não xiita. O responsável pela paixão foi a querida figura de seu Tio Carlos, ele sim, flamenguista de ir aos céus nas vitórias mais arrebatadoras e de cair prostradonaquelas derrotas de entristecer.

Tio Carlos foi quem tomou as mãos da ainda menina Carol para conduzi-la, pelaprimeira vez, ao Maracanã. O que aquele pequeno coração sentiu foi o mesmo que se passou com muitos de nós, de qualquer idade, ao entrarmos pela primeira vez no estádio-templo para ver um jogo do Flamengo. Não há como esquecer. (No meu caso, aconteceu há quase seis décadas e lembro de cada detalhe.)

Durante muitos anos, a cena se repetia nos eventos familiares promovidos na casa da avó de Carol: enquanto, espalhadas pela cozinha e demais cantos, as pessoas falavam de política, de música, de cinema, da vida alheia ou de subcelebridades, Tio Carlos e Carol sentavam-se no sofá da sala para discutir o que ia bem e o que precisava mudar no time, resolver o crônico problema da bola aérea defensiva, apontar soluções para o misterioso sumiço dos gols de falta. 

A idade e o conforto das transmissões pela tevê afastaram Tio Carlos do estádio, mas ele e Carol permaneceram debatendo cada partida, via troca de mensagens no WhatsApp, como se estivessem instalados à esquerda das cabines de rádio.

Até que, no final do ano passado e por conta da Covid, Tio Carlos teve de ser hospitalizado. Ficou inconsciente. E num gesto do mais puro amor ao tio e ao clube, Carol continuou mandando mensagens a ele depois de cada jogo. Eram duas as esperanças: apesar das oscilações do time, Carol acreditava no título; apesar do estado grave do tio, Carol estava certa de que em breve ele conseguiria ver tudo o que ela lhe enviara.

Após os oito minutos de acréscimo no jogo entre Inter e Corinthians, veio o alívio.Zero a zero. Flamengo campeão brasileiro pela oitava vez. Flamengo mais vezes campeão brasileiro do que qualquer outro. 

Já na madrugada de quinta para sexta, encharcada de emoção, Carol postou a seguinte mensagem para o tio: "Esse título é meu pra você. E obrigada por ter me apresentadoa esse mundo do futebol que eu tanto amo."

Poucas horas antes, Tio Carlos tinha voltado a se comunicar. E ainda há quem diga que o futebol se resume a 22 caras correndo atrás de uma bola.

*Jorge Murtinho escreve no blog República Paz & Amor. No início de 2020, ele e Nivinha Richa publicaram o livro "Festa na Favela", um registro do que foi a fantástica temporada do futebol do Flamengo em 2019.

Sobre o Autor

Juca Kfouri é formado em Ciências Sociais pela USP. Diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e da Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura, entre 1995 e 2000 e apresentou o Bola na Rede, na RedeTV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Apresentou o programa de entrevistas na rede CNT, Juca Kfouri ao vivo, entre 1996 e 1999 e foi colaborador da ESPN-Brasil entre 2005 e 2019. Colunista de futebol de “O Globo” entre 1989 e 1991 e apresentador, de 2000 até 2010, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio. Foi colunista da Folha de S.Paulo entre 1995 e 1999, quando foi para o diário Lance!, onde ficou até voltar, em 2005, para a Folha, onde permanece com sua coluna três vezes por semana. Apresenta, também, o programa Entre Vistas, na TVT, desde janeiro de 2018.

Colunas na Folha: https://blogdojuca.uol.com.br/lista-colunas-na-folha/

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