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Blog do Juca Kfouri

Aquela porta fechada há 41 anos

Juca Kfouri

25/02/2021 13h19

POR FABRÍCIO CARPINEJAR

Quando o Inter se consagrou tricampeão brasileiro, em 1979, a minha irmã Carla chorava assistindo a pequena televisão em preto e branco. Por superstição, desejou torcer sozinha em seu quarto.

Bati várias vezes na porta, para que abrisse, tinha oito anos e ela treze. Estava assustado. Escutava os seus soluços do outro lado. Mais se assemelhavam a uivos de alguém ferido, atingido por uma emoção funda e incontrolável.

Jamais a tinha visto chorar por nenhum amor da escola do mesmo jeito.

Pensei que ela se encontraria feliz, comemorando com pulos intermináveis e socos no ar, imitando Falcão.

No meu entendimento infantil da época, as fronteiras das emoções se mostravam definidas: alegria era riso e tristeza era lágrima.

Mas ela chorava. Chorava copiosamente. E a porta permanecia chaveada. Não havia como conferir a gravidade do seu rosto ou oferecer colo.

Minha única irmã em desespero, e ela não atendia ao meu chamado. Nem ouvia os meus gritos, absorta no ritmo barulhento de sua respiração.

Nunca descobri o que aconteceu lá dentro, com o hino do Inter rodando ida e volta no toca-disco. Só me restava imaginar. Em suas aflições, costumava abraçar o seu travesseiro, como se o travesseiro fosse gente. Deveria estar assim, escorada na parede.

Hoje eu compreendo que a alegria é mais chorona do que a tristeza, o quanto o futebol modifica nossas vidas, o quanto confiamos no improvável (Inter, naquele ano, tinha ficado em terceiro lugar no Gauchão e vinha desacreditado para uma competição que ganhou de modo invicto).

E quero muito que Carla, que está de aniversário na sexta (26/2), acorde tetracampeã. E que receba o título de presente. E que abra a porta cerrada há 41 anos. E que me autorize a entrar em seu contentamento extremo e que possamos nos abraçar a cores, talvez chorando tudo de novo – porque nossas dores sempre foram parecidas torcendo pelo colorado.

Sobre o Autor

Juca Kfouri é formado em Ciências Sociais pela USP. Diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e da Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura, entre 1995 e 2000 e apresentou o Bola na Rede, na RedeTV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Apresentou o programa de entrevistas na rede CNT, Juca Kfouri ao vivo, entre 1996 e 1999 e foi colaborador da ESPN-Brasil entre 2005 e 2019. Colunista de futebol de “O Globo” entre 1989 e 1991 e apresentador, de 2000 até 2010, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio. Foi colunista da Folha de S.Paulo entre 1995 e 1999, quando foi para o diário Lance!, onde ficou até voltar, em 2005, para a Folha, onde permanece com sua coluna três vezes por semana. Apresenta, também, o programa Entre Vistas, na TVT, desde janeiro de 2018.

Colunas na Folha: https://blogdojuca.uol.com.br/lista-colunas-na-folha/

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