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Blog do Juca Kfouri

A fantasia do pacote de transmissão do Carioquinha-2021

Juca Kfouri

24/02/2021 22h46

O comunicado da Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro sobre a transmissão do Carioquinha deste ano é rico em detalhes ao anunciar o formato final de exploração dos direitos audiovisuais do torneio. Leia AQUI.

E, ufanista como costumam ser estes anúncios, proclama praticamente uma revolução na condução do processo e na alforria dos "grilhões do Grupo Globo".

Parabéns! Há tempos sonhamos com tamanha revolução.

Mas o discurso merece uma consideração mais serena.

Como ponto de partida vale lembrar que o contrato anterior, justamente com o Grupo Globo, vigoraria até o ano que vem.

Apenas o Flamengo teria o direito de não renovar no ano passado, como não renovou.

O contrato tinha um valor total que se acredita ao redor de R$ 120 milhões, dos quais se dizia que o Flamengo abiscoitaria algo entre 20 e 25 milhões de reais.

Na ânsia, então, de proclamar sua independência a partir da "Medida Provisória do Mandante" baixada pelo presidente da República, que mudava as regras de negociação dos direitos, o Flamengo incentivou a transmissão de um jogo contra o Volta Redonda, que era o mandante da partida.

A transmissão efetuada com o beneplácito da FFERJ, que era parte do contrato com o Grupo Globo, deu a este último a oportunidade de pedir o cancelamento por infração da cláusula que comprometia o Voltaço.

A discussão tramita na Justiça e só é citada para que não se perca de vista a referência, dispensada pela iniciativa rubro-negra, dos 120 milhões de reais.

Enquanto o processo segue seu rumo na corte, assinou-se o acordo com a empresa de Marcelo de Campos Pinto, ex-executivo do Grupo Globo, e citado pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos no "Fifagate", para desenvolver a nova licitação.

O "Fifagate", lembremos, decretou a desgraça de João Havelange, Ricardo Teixeira, José Maria Marin, Marco Polo del Nero, J. Hawilla e seus cúmplices menos notórios.

Pinto e Nero antes do Fifagate

Fontes asseguram que a empresa de Pinto foi uma indicação da cúpula do Flamengo.

Segundo essas mesmas fontes de mercado o Grupo Globo teria aceitado participar e teria feito uma proposta entre 40 e 50 milhões de reais por todos os direitos. Para efeito de reflexão vamos nos situar no meio, com 45 milhões de reais.

O anúncio da FFERJ declara que neste ano de 2021 os direitos de televisão aberta foram vendidos à Rede Record por R$ 11 milhões.

O resto da receita virá de uma operação de PPV montada por Pinto que prevê a distribuição pelas operadoras de TV paga e pelos canais de cada clube.

Pelos números divulgados o pacote total custaria cerca de 130 reais e repassaria aos clubes 53% desta receita, ou sejam, R$ 69,00 arredondados.

Numa conta de padaria, para atingir o valor médio da proposta da Globo, o novo PPV do Carioquinha, que até pouco tempo atrás Pinto declarava que deveria ser extinto, precisará vender quase 500.000 pacotes.

Pode ser, mas não custa lembrar que a base de pay-per-view do Brasileirão gira em torno de 1 milhão e meio de assinantes.

Ora, os envolvidos no novo formato têm o desafio de vender, ainda que em todo país e não apenas no Estado do Rio, cerca de 1/3 da base de assinantes do Brasileirão. Apesar de as torcidas do Vasco e do Botafogo estarem vivendo a depressão do rebaixamento.

Sublinhe-se: tal conta se refere apenas para empatar com a nova proposta não aceita do Grupo Globo, de 45 milhões de reais — porque os tais 120 milhões dispensados pela iniciativa do Flamengo, no ano passado, não voltam mais num cenário visível.

Os clubes, é verdade, podem alegar que têm ainda a possibilidade de obter receitas de publicidade.

Resta ver se, como levantado por outras fontes, a troca de comando da Petrobras, ou de outras verbas do governo federal, vão ajudar a fechar a conta.

No mínimo o que se pede é que a FFERJ, e os clubes, divulguem o quão bem-sucedida terá sido a iniciativa ao fim do Carioquinha.

Dado seu papel determinante para o futuro econômico do futebol brasileiro.

Sobre o Autor

Juca Kfouri é formado em Ciências Sociais pela USP. Diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e da Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura, entre 1995 e 2000 e apresentou o Bola na Rede, na RedeTV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Apresentou o programa de entrevistas na rede CNT, Juca Kfouri ao vivo, entre 1996 e 1999 e foi colaborador da ESPN-Brasil entre 2005 e 2019. Colunista de futebol de “O Globo” entre 1989 e 1991 e apresentador, de 2000 até 2010, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio. Foi colunista da Folha de S.Paulo entre 1995 e 1999, quando foi para o diário Lance!, onde ficou até voltar, em 2005, para a Folha, onde permanece com sua coluna três vezes por semana. Apresenta, também, o programa Entre Vistas, na TVT, desde janeiro de 2018.

Colunas na Folha: https://blogdojuca.uol.com.br/lista-colunas-na-folha/

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