Irmãos
POR LUIZ GUILHERME PIVA
Jogavam sempre juntos.
Ivã na zaga, combinando frieza e explosão. Ignorava a existência de árbitro e de regras, mas fingia segui-las.
Alex no meio, articulando todas as jogadas, acalmando o jogo, ajudando a defesa e o ataque.
E Demétrius de centroavante trombador, marrento, disposto a dar e levar caneladas o tempo todo.
Nem sempre se davam bem e dificilmente venciam, mas seguiam jogando.
Até que Demétrius saiu no tapa com o técnico – que era o pai deles, estúpido ao extremo – num treino. Criou-se um empurra-empurra generalizado e o funcionário da limpeza acertou uma paulada na cabeça do treinador.
Ninguém viu.
Demétrius levou a culpa e foi expulso do time.
Ivã sentiu a perda do irmão e, atormentado, nunca mais foi o mesmo. Teve que parar de jogar.
E Alex, que tentou pacificar tudo sem conseguir, desistiu do futebol. Virou professor de crianças.
Hoje, primeiro dia do ano, ele, como sempre faz nas reflexões de Ano-Novo, pensa em tudo o que acabou e em tudo o que deveria ser e não foi.
Tenta acreditar que o futuro poderá ser de paz e que eles ainda voltarão a jogar juntos e em harmonia num jogo sem violência.
Mas tem sempre a martelar na cabeça a frase de Ivã de que num jogo, não havendo árbitro nem regras, tudo é permitido.
E a dúvida o paralisa.
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Luiz Guilherme Piva publicou "Eram todos camisa dez" e "A vida pela bola" – ambos pela Editora Iluminuras
Sobre o Autor
Colunas na Folha: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/jucakfouri/











