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Blog do Juca Kfouri

Diniz quer mudar o futebol, mas é incapaz de mudar a si mesmo

Juca Kfouri

23/01/2021 13h16

POR CAIO POSSATI CAMPOS*

POR CAIO POSSATI CAMPOS*

Fernando Diniz já afirmou em entrevistas que apesar de amar o futebol, sua carreira como atleta foi um período angustiante e de sofrimento, e que se enveredou para as laterais do campo com a convicção de ser um treinador diferente. Alguém, nas suas palavras, que pudesse proporcionar aos seus jogadores prazer pelo jogo — e não sofrimento.

Mas o que vimos no Morumbi na quarta-feira (20), na humilhante goleada que o São Paulo sofreu para o Internacional, foi um time que sentiu tudo, menos prazer em jogar bola.

Arrisco-me a dizer que o estilo de jogo são paulino, fortemente simbolizado pela saída de bola em passes curtos, tem apavorado os próprios jogadores. E o medo de cometer um erro fatal se tornou um segundo adversário em campo para o São Paulo.

Jogar com medo e desespero — como Diniz deve saber, por ser psicólogo — custa aos atletas a tranquilidade e as capacidades de foco, de tomada de decisão correta e de ser preciso tecnicamente nos movimentos. Coisas fundamentais para um estilo de jogo que só funciona quando as jogadas são feitas com perfeição e frieza, como é o caso do São Paulo.

Fazer o que o Diniz exige, além de ser desconfortável, é muito difícil. Basta ver que essa perfeição na saída de bola nunca foi alcançada mesmo depois de um ano jogando assim.

A imagem que eu tenho do São Paulo atual é a de um pugilista que vai para a luta com a instrução de ficar nas cordas, com a guarda sempre baixa e oferecendo o rosto de propósito para o outro lutador. A ideia é atrair um jab para, na hora exata, se esquivar e acertar o adversário em cheio com um cruzado.

Mas é evidente que isso não vai dar sempre certo.

Quem não temeria arriscar a própria vitória e um possível cinturão lutando com essa estratégia? Ainda mais quando do outro lado há um lutador ensandecido para vencer também… É injustificável e desnecessário provocar esse auto exposição. Há outras várias formas de vencer uma luta ou uma partida de futebol.

A conta por insistir nesse jogo inseguro e arriscado chegou da forma mais cruel possível, na quarta-feira: o São Paulo sofreu a maior derrota na história do Morumbi; perdeu a liderança e um título que estava bem encaminhado; e mergulhou mais uma vez em uma crise que soa eterna para uma torcida que não vê o clube ganhar um título relevante há mais de 12 anos.

A pressão para o São Paulo sair da fila o faz ser um clube desesperado por definição e essência. A ansiedade para ganhar um título parece estar fragilizando o time a ponto de permitir que o temor por passar outro vexame fale mais alto que a vontade de vencer.

Faltou ao Fernando Diniz a compreensão de que o necessário, nesse momento, era dar segurança emocional e tática aos seus jogadores. Encontrar o tempo e o modo certos para atacar e se defender. Mas, como isso não aconteceu, o São Paulo foi capaz de ser eliminado moralmente de um campeonato de pontos corridos e tornou-se uma espécie de vice-líder "café-com-leite", que consegue ser um 2º colocado que não é candidato ao título.

Sou admirador confesso do Fernando Diniz e de suas ideias sobre a vida, com as quais eu muito compactuo. E eu o apoio em sua missão de combater uma estrutura de futebol opressora, a partir de relações mais humanas e humanizadas com os jogadores, torcendo para que casos como as agressões verbais ao Tchê Tchê não voltem a acontecer.

Mas me questiono: como Diniz quer mudar a estrutura e a cultura de um esporte se ele é incapaz de mudar o óbvio? De não substituir Daniel Alves; de manter os meias e atacantes longes do gol adversário; de não perceber que a saída de bola feita em toques curtos é um atalho para a vitória dos rivais e que ser previsível é um favor para o outro time…

Como Diniz quer mudar o futebol se ele não consegue mudar a si mesmo?

Se eu pudesse fazer um único pedido ao treinador do São Paulo, eu diria:

— Diniz, por favor, não peça mais ao pugilista lutar com a guarda baixa. A torcida são paulina está cansada de ter sua alegria nocauteada.

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*Caio Possati Campos é jornalista pela PUC-Campinas e psicólogo pela Unifesp – Universidade Federal de São Paulo.

Sobre o Autor

Juca Kfouri é formado em Ciências Sociais pela USP. Diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e da Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura, entre 1995 e 2000 e apresentou o Bola na Rede, na RedeTV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Apresentou o programa de entrevistas na rede CNT, Juca Kfouri ao vivo, entre 1996 e 1999 e foi colaborador da ESPN-Brasil entre 2005 e 2019. Colunista de futebol de “O Globo” entre 1989 e 1991 e apresentador, de 2000 até 2010, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio. Foi colunista da Folha de S.Paulo entre 1995 e 1999, quando foi para o diário Lance!, onde ficou até voltar, em 2005, para a Folha, onde permanece com sua coluna três vezes por semana. Apresenta, também, o programa Entre Vistas, na TVT, desde janeiro de 2018.

Colunas na Folha: https://blogdojuca.uol.com.br/lista-colunas-na-folha/

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