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Blog do Juca Kfouri

Daniel Alves, Jesus Cristo e Judas Iscariotes

Juca Kfouri

27/01/2021 11h59

POR RODRIGO R.MONTEIRO DE CASTRO

POR RODRIGO R.MONTEIRO DE CASTRO

Daniel Alves é um fenômeno.

Foi campeão pelo Bahia (Copa do Nordeste), pelo Sevilla (Copa da Uefa, Supercopa da Uefa, Copa do Rei e Supercopa da Espanha), pelo Barcelona (La Liga, Supercopa da Espanha, Copa do Rei, Supercopa da Uefa, ChampionsLeague e Mundial de Clubes), pela Juventus (Campeonato Italiano e Copa da Itália) e pelo PSG (Campeonato Francês, Copa da França, Copa da Liga e Supercopa da França).

Também conquistou títulos com a seleção brasileira: Copa das Confederações (duas vezes) e Copa América (outras duas). 

Reverenciado e admirado, surpreendeu o mundo futebolístico, ano retrasado(2019), ao escolher o caminho mais difícil para sua carreira naquele momento: a pressão e a tensão existencial de seu time de coração, que não vencia havia mais de uma década um título prioritário – a Copa Sul-Americana é, sim, importante, mas não é e jamais deveria ser prioridade para o São Paulo –, ao invés de um time milionário de um país secundário (Estados Unidos, China etc.), que lhe daria status local e muito, muito dinheiro – mais, aliás, do que recebe de seu atual empregador.

Aos 36 anos, Daniel Alves passou a ser, então, a esperança do reencontroTricolor com as glórias do passado. 

A expectativa sobre ele e as deficiências do plantel o obrigaram a se reinventar, algo que eventualmente ocorre com jogadores, com idade mais avançada, de nível técnico assemelhado, mas não em campeonatos ultracompetitivos como o brasileiro e a libertadores.  

Além de fenomenal, Daniel Alves é corajoso. Passou, assim, a ocupar a posição mais importante em campo, o que lhe exigiu e ainda exige um esforço físico compatível com o de um jovem em início de carreira. 

Nessa nova função, ele pode até errar – como, aliás, todos os jogadores, sem exceção, erram –, mas não se entrega. Acerta muito, muito mais do que erra. Luta, corre e quer, vê-se em suas atitudes, a vitória, sempre a vitória. 

Desde que o São Paulo embalou no campeonato brasileiro, quando ele não joga ou quando joga mal, o time se fragiliza (técnica e psicologicamente). Não por má-fé ou má vontade – creio eu, com convicção –, mas porque Daniel Alves se tornou essencial, dentro e fora de campo. 

Sim: passa por Daniel Alves o amadurecimento, o crescimento e a aquisição de segurança de jovens promessas de Cotia, alçadas precocemente à titularidade por contingência (e não por planejamento), e que, contra a convicção de certos cartolas, da torcida e da imprensa, tornaram-se, em menor ou maior grau, revelações da competição.

Com efeito, quase ninguém acreditava no time de Daniel Alves no início do campeonato. 

Mas a reverência festiva começou a se transformar em crítica venenosa (rancorosa, raivosa e, talvez, vingativa) com a derrota para o Grêmio, na primeira partida das semifinais da Copa do Brasil – outra disputa em que o São Paulo se saía muito bem, com êxitos sobre adversários badalados e reputados favoritos. 

Passados poucos dias – ou horas – daquele resultado negativo, ninguém mais se lembrava de que, além de ter jogado muito mais do que o adversário, o São Paulo poderia ter saído de lá com resultado positivo se Brenner não perdesse gol que não costumava perder (e, aqui, não se faz uma crítica ao jovem atacante); gol feito, realmente feito, desses que até a minha avó faria, graças ao passe irretocável de quem? De Daniel Alves. E se Luciano – jogador que dá orgulho de assistir –, também não tivesse desperdiçado outra oportunidade, quase tão imperdível como a mencionada anteriormente, criada por quem? Daniel Alves – ele, de novo.  

Apesar de ser o coração e o cérebro do time – além do mais bem sucedido, esportiva e financeiramente –, Daniel Alves jamais, ao menos publicamente, apontou o dedo a um ou outro companheiro; porta-se, com nobreza, ao lado de Tchê Tchê, Gabriel Sara e Vitor Bueno, como se estivesse ombreando Messi, Iniesta e Xavi. 

Daniel Alves vem demonstrando, mesmo diante das adversidades – que também são internas, pois é sabido, desde as campanhas eleitorais no Morumbi, que a atual diretoria não o considerava, e não o considera, em seus planos –, que tem o brio e a alma Tricolores. 

Nos últimos 11 anos, quase nenhum time são paulino chegou tão perto de um grande título. Nesse período, fracassaram dezenas de (ex) jogadores e treinadores, alguns dos quais, hoje, são apontados como soluções para um problema que não é conjuntural – mas, unicamente, estrutural –, e se reflete nos vestiários e em campo. 

O último grande herói, desde 2008, foi Hernanes, que não levantou taça, mas salvou o São Paulo do rebaixamento, em 2017. 

Tanto Hernanes, naquela temporada, como Daniel Alves, lideraram elencos inferiores – talvez muito inferiores – aos de seus rivais, como, para citar 3 no atual campeonato, os de Flamengo, Palmeiras e Galo. 

Daniel Alves tem, ao seu redor, pois, um grupo que, sem ele, já teria, há muito tempo, ficado para trás na competição – se é que, em algum momento, alcançaria o protagonismo nacional, com vitórias acachapantes sobre Flamengo e Galo. 

Ele não é, portanto, o problema, mas parte da solução. 

Se não para o campeonato de 2020 – que findará em 2021 –, ao menos para dar continuidade e estrutura ao de 2021 e dos anos seguintes, tanto como jogador,enquanto tiver disponibilidade para enfrentar o insano calendário de jogos a que se submetem times e jogadores brasileiros, quanto, depois, na função de dirigente. 

Infelizmente, a mesma estrutura que, há anos, vem destruindo o que parecia indestrutível – o maior campeão internacional do Brasil –, precisa, nesse momento de crise aguda, entregar alguém à turba enfurecida para se mostrar messianicamente salvadora. 

O São Paulo, de clube referencial – que foi até capaz de oferecer os últimos suspiros a Adriano, o Imperador –, passou, há algum tempo, a destruidor (e detrator) de grandes boleiros – e seres humanos.

E isso sob a égide de uma mesma estrutura e um mesmo eixo de poder.

Esse caminho não isentará – e já não isenta – o clube de consequência: quem o escolherá, como primeira opção, sabedor da forma como seus jogadores – e ídolos – são tratados, sem proteção de sua própria gente?

Na narrativa dramática tricolor, Daniel Alves seria Jesus Cristo – que me perdoem os cristãos –, enquanto, para Judas, o papel serviria a uma vintena de pequenos a "grandes" cartolas.

Sobre o Autor

Juca Kfouri é formado em Ciências Sociais pela USP. Diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e da Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura, entre 1995 e 2000 e apresentou o Bola na Rede, na RedeTV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Apresentou o programa de entrevistas na rede CNT, Juca Kfouri ao vivo, entre 1996 e 1999 e foi colaborador da ESPN-Brasil entre 2005 e 2019. Colunista de futebol de “O Globo” entre 1989 e 1991 e apresentador, de 2000 até 2010, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio. Foi colunista da Folha de S.Paulo entre 1995 e 1999, quando foi para o diário Lance!, onde ficou até voltar, em 2005, para a Folha, onde permanece com sua coluna três vezes por semana. Apresenta, também, o programa Entre Vistas, na TVT, desde janeiro de 2018.

Colunas na Folha: https://blogdojuca.uol.com.br/lista-colunas-na-folha/

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