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Pênalti

Juca Kfouri

18/10/2020 13h45

POR LUIZ GUILHERME PIVA

Era promessa. Nunca mais bateu.

Desde quando errara o pênalti decisivo na final em que seu time poderia ter conquistado o primeiro – e único, porque seguiu sem ser campeão – torneio regional.

Times de fazendas, de bairros, uns mais reforçados numa época, outros sempre mais improvisados, jogadores de todas as idades e silhuetas – mas era sagrado: o torneio tomava quase o ano todo. Jogos aos domingos, lá e cá, sempre com muitos turnos, grupos e chaves, repescagens, critérios alternativos de classificação, vários tipos de prêmios, empresários e autoridades criando clientelas, queima de fogos nas fases finais e cerimônia de premiação com churrasco para todos os participantes.

Eles nunca venceram. O único dos times, há tantas décadas, tantas gerações, a que faltavam a flâmula, o troféu, a estrelinha cerzida acima do escudo.

E justo ele, o mais experiente, o mais técnico, o 10, que já brilhava sozinho num elenco sempre fraco havia tantos anos, e que naquele torneio, com uma equipe que juntou vários jovens bons de bola, chegou à final, teve a bola do jogo no pênalti no último minuto.

O empate era do adversário.

A mãe o advertira de manhã: 

"Cuidado, filho."

"O que foi, mãe?"

"Não sei. Um pressentimento".

E o benzeu na testa.

Mas jogou muito bem. Arrebentou. Fez os dois gols do 2 X2.

E veio o pênalti.

Uns dizem que escorregou. Outros, que tremeu. Que deu azar. Que foi o desnível do terrão.

Bateu no canto, seco, firme, rasteiro, deslocou o goleiro. Os "ohs" de todos em volta, os companheiros já correndo em sua direção. A bola, como a de bocha, no peso, na velocidade, na trilha e no alvo certos.

Mas ela tocou no pé da trave.

E ficou bem ali. Nem foi pra dentro do gol, nem pra fora, nem voltou pro rebote.

Parou ali.

As bocas e olhos congelados abertos, a corrida dos colegas estancada no meio, o tempo desligado – só o goleiro é que se movia: levantou-se do canto oposto e pulou para abraçar a bola. Ao apito do juiz, chutou-a para o alto e foi abraçar seu time, campeão como em muitas outras vezes.

Ninguém sabe como ele saiu dali. Nem onde ficou durante muitos dias.

Quando reapareceu, não falou no assunto. Nem ninguém se atreveu com ele.

Só estabeleceu a todos, no início do torneio seguinte, que nunca mais bateria um pênalti. Que era promessa.

E assim foi. E assim tem sido há anos.

Até agora.

Até este exato momento.

De novo na final, a segunda na história do time. Ele, com a idade ainda maior e mais visível, estraçalhou no torneio inteiro: passes, lançamentos, gols, uma temporada de gênio.

E eis a decisão por pênaltis.

Acabou a série normal, de cinco cobranças.

Começou a alternada.

Um faz, outro faz.

Um erra, outro erra.

Onze do outro time bateram. Dez do dele, também.

Só falta ele.

O último do adversário errou.

Se ele fizer, vencem.

Mas era promessa.

Ele no meio do campo, parado. Todos o olhando em silêncio.

Jurara para a mãe. Velhinha, ela o consolara naquela noite do erro e em todas as noites seguintes, anos e anos.

Nem a mulher e os filhos, já grandes, o demoviam.

Prometera para a mãe que não bateria mais. E repetiu a promessa, em voz baixa, quando ela desceu ao túmulo com suas mãos segurando as cordas.

Tudo parado.

O seu time e o adversário esperando. Público e autoridades em pé na beira do campo, muitos invadindo o terrão, o juiz olhando para ele.

O goleiro adversário como uma cruz debaixo da traves.

Ninguém pede nada. Ninguém fala nada.

Ele tem as mãos nos quadris, o rosto abaixado, as meias arriadas.

Olha para o céu com o suor e as sobrancelhas grisalhas pesando nos olhos.

Resolve andar devagar, em passos invisíveis, em direção à área.

Ele sabe. Todos sabem, que, marcando ou errando, acabará como jogador naquele instante.

Abrem passagem como num cortejo.

O sol já é só uma fatia sobrando atrás dos barrancos e projeta as sombras de todos em fantasmas compridos esticados no chão.

Só rompe o silêncio, de longe, o canto solitário do acauã.

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Luiz Guilherme Piva publicou "Eram todos camisa dez" e "A vida pela bola" – ambos pela Editora Iluminuras

Sobre o Autor

Juca Kfouri é formado em Ciências Sociais pela USP. Diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e da Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura, entre 1995 e 2000 e apresentou o Bola na Rede, na RedeTV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Apresentou o programa de entrevistas na rede CNT, Juca Kfouri ao vivo, entre 1996 e 1999 e foi colaborador da ESPN-Brasil entre 2005 e 2019. Colunista de futebol de “O Globo” entre 1989 e 1991 e apresentador, de 2000 até 2010, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio. Foi colunista da Folha de S.Paulo entre 1995 e 1999, quando foi para o diário Lance!, onde ficou até voltar, em 2005, para a Folha, onde permanece com sua coluna três vezes por semana. Apresenta, também, o programa Entre Vistas, na TVT, desde janeiro de 2018.

Colunas na Folha: https://blogdojuca.uol.com.br/lista-colunas-na-folha/

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