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Blog do Juca Kfouri

Passa a bola, Pelé!

Juca Kfouri

23/10/2020 10h00

Por ROBERTO VIEIRA

'Passa a bola, Pelé!'

Jack Kelsey segurou o 0x0 durante setenta minutos. Foi quando Mazzola deu um balão, Didi se antecipou ao defensor e tocou de cabeça para Pelé. O menino de dezessete anos estava meio apagado no jogo, mas matou no peito e percebeu Didi passando como um foguete para receber a devolução.

'Passa a bola, Pelé!'

Nelson Rodrigues diria que qualquer perna de pau daria a bola de volta para Didi. Como Pelé não era um perna de pau e a bola obedecia a ele 'como uma cadelinha', Didi jamais recebeu aquela bola. Pelé girou sobre o zagueiro galês e encaçapou Jack Kelsey com um toque sutil no canto direito.

Depois, Pelé correu pra bola como se estivesse marcando seu milésimo gol – e não o octagésimo quinto – para delírio dos fotógrafos e dos companheiros. No Brasil, um jornal diria no dia seguinte que Pelé só havia feito aquilo nos seus noventa minutos em campo. A afirmação foi acompanhada por Leônidas da Silva.

Mario Filho tinha, enfim, a resposta a seu artigo na Manchete Esportiva meses antes. Mario que perguntava quem seria o novo Leônidas da seleção: Pelé ou Moacir?

Porém, não havia espanto em quem tinha enfrentado o menino. O craque Alarcon do América já havia declarado que Pelé era o melhor atacante do Brasil. Profético. Melhor que isso apenas uma votação na imprensa durante o Rio-São Paulo de 1958, antes da Copa.

Os leitores elegeram a seleção brasileira de todos os tempos com Castilho; Djalma Santos, Domingos da Guia e Nilton Santos; Bauer e Danilo; Garrincha, Didi, Leônidas, PELÉ e Ademir Meneses.

Aos dezessete anos, sem Copa na bagagem, Pelé assumia o lugar do Mestre Ziza, seu ídolo, no maior escrete do futebol brasileiro em votação popular. Se Kelsey pudesse votar também votaria em Pelé.

Hoje, quando Pelé comemora 80 anos de idade, e quando muitos desconhecem o impacto da chegada de Pelé no futebol brasileiro, não deixa de ser curioso observar que Pelé apenas não era unanimidade já antes da Copa de 58 por causa de uma pessoa.

A única pessoa no Brasil que ficou surpresa com sua convocação para a Copa do Mundo da Suécia era aquele menino engraxate que trabalhava para levar as moedas para sua mãe na infância. Um menino chamado Edson. Só Edson não se imaginava na seleção da Copa.

'Passa a bola, Pelé!'

Kelsey brilhou intensamente naquela Copa e no arco do Arsenal. Quatro anos depois encerrou sua carreira após choque com Vavá num amistoso da seleção brasileira contra o País de Gales no Pacaembu.

Kelsey que no seu aniversário de 30 anos soube pelas ondas do rádio que aquele garoto brasileiro havia marcado seu milésimo gol no Maracanã justamente no 19 de novembro. Kelsey que foi dormir ainda rindo do espanto de Didi e da defesa galesa com o menino que já era o Rei do Futebol naquela tarde sueca.

Kelsey e Didi que nunca souberam da verdade. A bola quando encontrou o peito de Pelé sussurrou distante de Casablanca:

'Sou toda sua, Pelé!'

E foram felizes para sempre.

Sobre o Autor

Juca Kfouri é formado em Ciências Sociais pela USP. Diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e da Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura, entre 1995 e 2000 e apresentou o Bola na Rede, na RedeTV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Apresentou o programa de entrevistas na rede CNT, Juca Kfouri ao vivo, entre 1996 e 1999 e foi colaborador da ESPN-Brasil entre 2005 e 2019. Colunista de futebol de “O Globo” entre 1989 e 1991 e apresentador, de 2000 até 2010, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio. Foi colunista da Folha de S.Paulo entre 1995 e 1999, quando foi para o diário Lance!, onde ficou até voltar, em 2005, para a Folha, onde permanece com sua coluna três vezes por semana. Apresenta, também, o programa Entre Vistas, na TVT, desde janeiro de 2018.

Colunas na Folha: https://blogdojuca.uol.com.br/lista-colunas-na-folha/

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