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Blog do Juca Kfouri

A verdadeira história entre Falcão e o poeta Quintana

Juca Kfouri

12/10/2020 09h40

POR HENRIQUE MANN*

Prezados amigos, gostaria de esclarecer algo importante sobre o que corre na internet a respeito do meu querido parceiro e Mestre Mario Quintana.

Está sendo divulgado um texto que diz que o Mario foi despejado do Hotel Majestic e teve suas malas colocadas na calçada; que o "porteiro" teria dado-lhe um casaco e dito-lhe "toma velho" e que o jogador de futebol (Falcão, pessoa por quem tenho a maior admiração, respeito e gratidão) teria passado naquele exato momento e recolhido-o como a um mendigo.

Isto NÃO É VERDADE ! Com todo o respeito e admiração que tenho por Paulo Roberto Falcão (um dos maiores jogadores da história do Brasil e da Itália… e do mundo), pessoa boníssima e de grande caráter, generoso como só os grandes como ele podem ser, a "estória" descrita por um autor que desconheço, não corresponde à verdade.

Realmente, Falcão acolheu de forma graciosa e vitalícia, o Poeta em seu Hotel Royal, mas não foi deste modo humilhante descrito. Suponho que o autor, de boa fé e intenção, tenha "romantizado" por "licença poética" a verdade dos fatos.

Mas, devido à importância vital para a história do Brasil e do Mundo, que envolve o mais proeminente Poeta do RS e também um dos maiores atletas futebolistas e até mesmo Treinador da Seleção Brasileira, cabem esclarecimentos: quando o Hotel Majestic faliu e foi fechado, Mario foi morar no Hotel Presidente (isso foi por volta de 1982) e ficou em situação precária, até porque este hotel também estava em fase falimentar. Isto tudo ganhou grande difusão nos meios de comunicação. Mario ainda passou por outros hotéis, como o " Residence", onde sempre obteve carinhosa acolhida.

Ele nunca foi "abandonado" com "malas na calçada" e jamais um porteiro do Majestic (hoje Casa de Cultura Mario Quintana) diria a ele "toma velho" algum casaco.

Ele foi apoiado e cuidado por pessoas maravilhosas como a sua sobrinha-neta Elena, teve apoio da Sandra Ritzel, da Dulce Helfer, das empresas Samrig e Ipiranga, mas, fundamentalmente, de um homem de extremo valor chamado Enio Lindenbaum, à época à testa do antigo Banco Maisonave.

Foi através deles, Elena e Enio, que conheci o Mario e tive a maior graça musical de minha vida, por tornar-me seu parceiro no disco "Quintanares & Cantares", lançado em 1986 pela Riocel, com produção da Ribalta (de Paulo Satt).

Falcão, o majestoso craque do futebol mundial, foi SIM, uma das pessoas mais importantes nisso tudo. Mas não é verdade que tenha encontrado o Poeta "com as malas na calçada".

Até porque, como sabemos, a recepção do Hotel Majestic fica na atual "Travessa dos Cataventos", só entram lá carros que sejam destinados ao hotel… jamais Falcão poderia ter passado acidentalmente ou por acaso ali e defrontado-se com esta cena. Também o Mario nunca seria abandonado pelos gaúchos da forma como foi descrita.

Eu tornei-me seu parceiro musical em 1985. Em 1986 lançamos o projeto do LP no Museu de Artes do RS e em 1987 o disco pronto, com a maior formação instrumental do RS, o Grupo Raiz de Pedra e uma seleção das maiores cantoras da época. Foi o disco independente mais vendido da história do RS, se somadas as versões em LP e CD.

Sou eternamente grato ao Paulo Roberto Falcão, por sua generosidade em acolher o Poeta em seu Hotel Royal, que fica (até hoje) na mesma rua Marechal Floriano, onde eu morava (o que facilitou muito a nossa parceria musical).

Mas acho injusto que seja "criada" uma lenda, uma história inverídica, sobre a vida de um dos maiores poetas do idioma português. E, mais ainda, que sejam sonegadas as importâncias das empresas que o apoiaram naquele momento de aflição e PRINCIPALMENTE de duas pessoas que JAMAIS permitiriam que o Poeta passasse por esta situação humilhante descrita no texto inverídico que corre na internet: Elena Quintana (já falecida) e Enio Lindenbaum foram seus "guardiães" incansáveis e inquebrantáveis até o último de seus dias. Sou testemunha disto. Assim com a Dulce Helfer foi sua amiga, tanto quanto a Dª Mafalda Veríssimo e seu esposo Érico.

Olha, gente, eu admiro demais o Falcão por sua carreira no futebol, por sua atitude nobre, por seu carater, por sua generosidade em socorrer o Poeta, meu parceiro, na hora em que foi mais urgente… mas este texto que corre na internet não é verdadeiro e é até injusto para dois gigantes da nossa história como Mario Quintana e Falcão.

Que seja reestabelecida a VERDADE dos fatos em nome dos dois! Ambos são grandes demais e não precisam de inveracidades para o engrandecimento de suas biografias… são muito maiores que isto!

Se restarem dúvidas, ainda, basta ler aqui o depoimento do próprio Falcão sobre o assunto:

Eu estava em Roma quando a sobrinha do Mario falou com meu irmão que ele tinha deixado outro hotel, e fizemos questão que ele ficasse hospedado conosco. Um tempo depois, eu vim para o Brasil e coincidiu de ele estar no hospital, após ter se submetido a uma cirurgia na vista. Fui visitá-lo e, ali, pude ver a humildade impressionante que o Mario tinha – recorda Falcão, ao diário Lance!.

O ex-meia dimensionou o quanto foi marcante o encontro com Quintana. Segundo ele, o futebol não entrou em pauta.

– Diante de uma pessoa admirável como ele, você escuta mais do que fala, né?! E ele sempre humilde, fazendo piadas sobre a cirurgia. Mario é um poeta muito intuitivo, escreve com naturalidade sobre a vida – disse.

Falcão detalhou alguns dos versos de Quintana que mais ficaram marcados em sua memória.

– Tem uma frase dele que acho belíssima: "A amizade é uma espécie de amor que nunca morre". Agora, uma divertida é em relação aos chatos. "Há duas espécies de chatos: os chatos propriamente ditos e… os amigos, que são nossos chatos prediletos" (risos). A outra é aquela "Quando alguém pergunta ao autor o que este quis dizer, é porque um dos dois é burro" (risos). É tudo de uma simplicidade impressionante! – afirmou.

Falcão endossa a crítica à atitude da Academia Brasileira de Letras (ABL) em relação a Mario Quintana.

– É de se lamentar que ele nunca tenha conseguido uma cadeira da Academia Brasileira de Letras. Com uma obra tão bonita, tão vasta, com a facilidade que tinha para escrever seus versos, foi uma grande injustiça – disse.

Mario Quintana se candidatou por três vezes a uma cadeira na ABL. Entretanto, não conseguiu em nenhuma delas alcançar os 20 votos necessários para se eleger. Ao ser convidado para uma quarta candidatura, o poeta recusou. Logo depois, lançou o "Poeminha Do Contra", que tem os versos:

"Todos esses que aí estão

Atravancando meu caminho

Eles passarão…

E eu passarinho".

Aos olhos de Paulo Roberto Falcão, a "injustiça" com Quintana foi parecida com a que ocorreu a com um ex-treinador do meia no Inter.

– O Rubens Minelli era um grande treinador, e conduziu o Internacional aos títulos do Brasileiro de 1975 e 1976. Depois, ele foi para o São Paulo e ganhou seu tricampeonato brasileiro. Nada mais natural que ele treinasse a Seleção Brasileira na Copa de 1978. Não foi o que aconteceu. Injustiça da Seleção como o Minelli, e da Academia com o Mario – declarou.

O ex-volante detalhou em qual setor acredita que Mario Quintana jogaria se trocasse as letras pela bola.

– Mario escrevia de maneira intuitiva. Da mesma forma que há jogadores que têm capacidade de pensar a partida, adivinhar para onde irá a jogada, ele foi com as palavras. Acredito que atuaria no meio de campo, não como marcador, mas para distribuir as jogadas, tentando encontrar o caminho do gol – acredita.

Em meio à pandemia do novo coronavírus, na qual grandes jogos são reapresentados, outros versos de Mario Quintana cabem perfeitamente na forma como a memória dos esquadrões do futebol nacional não pode ser deixada de lado: "Se me esqueceres, só uma coisa, esquece-me bem devagarinho".

Roberto Vieira, autor do texto que causa a polêmica, explica:

Prezado Juca,
Em 2006 comecei minha carreira de escritor com o conto 'Sándor' premiado no Estadão. Nele, faço a descrição do que teria sido a última noite do craque húngaro Sándor Kocsis. Claro que eu não estava lá, mas os elementos históricos são reais. Algo semelhante com a novela THE PLOT AGAINST AMERICA de Philip Roth.
O gesto afetuoso de Falcão é comprovado em recortes de jornais da época e pela Revista Placar. O carinho do Falcão e a solidão do Passarinho existiram.
O texto é escrito com amor para homenagear dois de meus grandes ídolos na vida. Estive poucos dias antes de escrever o texto em Porto Alegre e as imagens me vieram à mente juntamente com as lembranças do que havia lido sobre o assunto.
O texto é uma homenagem. Da qual me orgulho muito. E, se não aconteceu tim tim por tim tim, é como a série THE ENGLISH GAME… poesia vestida de realidade.
Quintana entenderia…
Abraço imenso e fraterno a você e a todos… e lembrem… o texto é uma canção de amor.
Roberto Vieira

Sobre o Autor

Juca Kfouri é formado em Ciências Sociais pela USP. Diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e da Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura, entre 1995 e 2000 e apresentou o Bola na Rede, na RedeTV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Apresentou o programa de entrevistas na rede CNT, Juca Kfouri ao vivo, entre 1996 e 1999 e foi colaborador da ESPN-Brasil entre 2005 e 2019. Colunista de futebol de “O Globo” entre 1989 e 1991 e apresentador, de 2000 até 2010, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio. Foi colunista da Folha de S.Paulo entre 1995 e 1999, quando foi para o diário Lance!, onde ficou até voltar, em 2005, para a Folha, onde permanece com sua coluna três vezes por semana. Apresenta, também, o programa Entre Vistas, na TVT, desde janeiro de 2018.

Colunas na Folha: https://blogdojuca.uol.com.br/lista-colunas-na-folha/

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