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Blog do Juca Kfouri

A oportunidade de o Congresso Nacional devolver ao povo o que é do povo: o futebol

Juca Kfouri

21/10/2020 11h31

Por RODRIGO R. MONTEIRO DE CASTRO

Toni Morrison (1931-2019) foi a primeira mulher negra a ser agraciada com o prêmio Nobel de literatura, feito ocorrido em 1993. 

Pelas suas origens, teve que abrir portas e mais portas para atingir a glória, sem que a abertura implicasse, desafortunadamente, uma via de acesso para outras pessoas que, depois dela, tentassem trilhar o mesmo (ou semelhante) caminho.

Sua luta, aliás, sintetiza-se, com as suas próprias palavras, extraídas do livro "A origem dos outros", da seguinte forma: "(…) dar continuidade ao projeto humano, que é permanecer humano e impedir a desumanização e a exclusão dos outros". 

Sua obra e seus propósitos não poderiam ser mais atuais. 

Poucos foram os momentos – e ainda assim geralmente marcados por hostilidades declaradas (i.e., guerras, externas ou internas) – em que o desprezo pelo destino do próximo incorporou-se, sem acanhamento, ao discurso oficial, como ocorre atualmente. 

Ademais, supostos representantes do povo, eleitos por ele e para implementar suas vontades (do povo, portanto), usurpam o poder e atuam em benefício pessoal – e de seu círculo íntimo – sem uma verdadeira preocupação com o ser humano ou com o planeta. Não à toa, o editorial do New York Times anotou, em relação ao Presidente Donald Trump, que ele "has subsumed the public interest to the profitability of his business and political interests". 

Às favas, assim, com os outros, exceto se forem úteis para alcançar propósitos pessoais. Daí ele ter revelado, continua o periódico, "breathtaking disregard for the lives and liberties of Americans" (eainda muito maior pelas dos estrangeiros, esses outros que nada valem para o presidente estadunidense, se não proporcionarem uma contrapartida lucrativa).  

Diante desse cenário de coisificação das pessoas, ou dos outros – que também se revela no Brasil pandêmico –, a indignação silenciosa ou passiva deve dar lugar à indignação transformadora, por vias institucionais, de modo a afastar condutas, que não são novas, mas que se descortinaram ou se expuseram, sem disfarces, nos tempos atuais. 

Essa narrativa, como um todo, se estende ao futebol. A começar pelo histórico preconceito, tanto em relação à sua identificação com as coisas do povo, quanto com a supremacia negra ou mestiça em sua prática (que contrasta com a propriedade da empresa futebolística, exercida quase que exclusivamente por homens brancos; talvez não por coincidência, mas reflexiva de posições históricas que resistem no tempo).

Mesmo que um jogador seja reverenciado pelos seus feitos esportivos, sua inserção na sociedade preponderantemente branca, caso ocorra, costuma ser implacavelmente revisada e rejeitada ao menor sinal de fraqueza. Neymar, neste sentido, jamais teve a aceitação que merece, por não se submeter aos requisitos idealizados pela elite econômica e cultural.

A falta de preocupação com o jogador, ou com o ser humano, exceto enquanto animador das tardes de domingo, também se expressa pela ausência proposital de políticas públicas efetivas, associada à falsa percepção de riqueza coletiva entre os praticantes do esporte. 

Nada mais irreal. 

Com efeito, apesar de relatório da FIFA, contendo os números de transações ocorridas em 2019, indicarque: (i) do total de 18.042 negócios, 1.988 envolveram brasileiros (mais do dobro do segundo colocado, os argentinos, com 946); e (ii) geraram US$ 925 milhões; a remuneração do jogador em atividade no Brasil apresenta as seguintes características:(a) 55% recebem até R$ 1.000,00;(b) 33% recebem entre R$ 1.001 e R$ 5.000(c) 5% recebem entre R$ 5.001 e R$ 10.000;(d) 4% recebem entre 10.001 e R$ 50.000;(e) 1% recebe entre R$ 50.001 e R$ 100.000;(f) 1% recebe entre R$ 100.001 e R$ 200.000;(g) 1% recebe entre R$ 200.001 e R$ 500.000; e (h) 0,1% recebe acima de R$ 500 mil.

Se, de um lado, os clubes dependem daqueles negócios – exportação de jogadores – para não terem contas de luz e telefone cortadas, de outro se mascara, na verdade, um subproduto, facilitador de transações e comissões milionárias, que não se revertem ao sistema. 

O futebol brasileiro pertence a poucos, os mesmos poucos que se beneficiam da incapacidade daquela atividade de se tornar relevante econômica e socialmente.

Pior: os donos do futebol tentam reforçar suas posições com projetos de lei oportunistas, que envolvem desde novos programas de ajuda financeira à conta dos recursos dos contribuintes, até a famigerada MP do mandante (idealizada apenas para armar determinado clube, em guerra com certo grupo midiático). 

Em um país como o Brasil, abençoado pelo atributo futebolístico, que poderia funcionar como instrumento de inserção social e distribuição de renda, o povo não pode mais silenciar. Assim como o Congresso Nacional não pode fazer de conta que o tema é irrelevante. Não é. Ao contrário: abrangeaproximadamente 150 milhões de torcedores, dentre os eventuais e os permanentes, que se encontram curvados diante de um modelo desumano e excludente.

A relevância justifica, pois, o esforço republicano de convergência e consolidação dos projetos de Lei 5.082/16, relatado pelo Deputado Federal Pedro Paulo (DEM/RJ), e 5.516/19, de autoria do Senador da República Rodrigo Pacheco (DEM/MG), ambos em tramitação no Senado Federal, para entrega, ao povo – e não à casta cartolarial –, do novo marco regulatório organizacional do futebol brasileiro.

E, assim, devolver ao povo o que é do povo.

Sobre o Autor

Juca Kfouri é formado em Ciências Sociais pela USP. Diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e da Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura, entre 1995 e 2000 e apresentou o Bola na Rede, na RedeTV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Apresentou o programa de entrevistas na rede CNT, Juca Kfouri ao vivo, entre 1996 e 1999 e foi colaborador da ESPN-Brasil entre 2005 e 2019. Colunista de futebol de “O Globo” entre 1989 e 1991 e apresentador, de 2000 até 2010, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio. Foi colunista da Folha de S.Paulo entre 1995 e 1999, quando foi para o diário Lance!, onde ficou até voltar, em 2005, para a Folha, onde permanece com sua coluna três vezes por semana. Apresenta, também, o programa Entre Vistas, na TVT, desde janeiro de 2018.

Colunas na Folha: https://blogdojuca.uol.com.br/lista-colunas-na-folha/

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