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Cidadãos de segunda classe

Juca Kfouri

21/09/2020 14h34

Aos atletas brasileiros a mudez só não basta. Alguns querem calar os que falam

"A gente não nasce negro, a gente se torna negro. É uma conquista dura, cruel e que se desenvolve pela vida da gente afora. Aí entra a questão da identidade que você vai construindo. Essa identidade negra não é uma coisa pronta, acabada. Então, para mim, uma pessoa negra que tem consciência de sua negritude está na luta contra o racismo. As outras são mulatas, marrons, pardas etc", já dizia, em 1988, a antropóloga, filósofa, escritora e feminista Lélia Gonzalez (1935-1994).

Troque negro por cidadão e dará no mesmo, apenas que em vez de mulatas, marrons ou pardas, serão pessoas de segunda classe, submissas, acovardadas.

Para a Comissão de Atletas do vôlei de praia da Confederação Brasileira de Vôlei, Carol Solberg não deveria ter soltado o seu "Fora Bolsonaro!" em entrevista à SporTV.

Fez, assim, coro à própria CBV.

Se a CBV perdeu ótima chance de ficar calada, pior fez a Comissão, presidida pelo campeão olímpico Emanuel Rego, que é candidato à vice-presidência numa das chapas que disputam o poder no Comitê Olímpico Brasileiro.

Rego parece fazer campanha para ser Carlos Nuzman, de triste passado e futuro sombrio.

Ou tem João Havelange como exemplo, que dizia ser apolítico para praticar a pior das políticas e andar de braço dado com ditadores sul-americanos, africanos e asiáticos.

Negar ao atleta o direito de se manifestar politicamente é condená-lo a abdicar da cidadania, prática tão a gosto da elite brasileira, que há mais de 500 anos busca submeter os excluídos a ensino de terceira.

Pelo menos, numa apreciação modesta das últimas pesquisas, um terço da população quer ver o presidente da República pelas costas, cansado de vê-lo negar a democracia, a pandemia, as queimadas, a orientação sexual e o racismo.

Carol Solberg, filha da campeã mundial Isabel Salgado, também crítica permanente dos desmandos de Nuzman e a quem a história deu inteira razão, apenas pôs para fora o sentimento de dezenas de milhões de brasileiros.

Por que ela não pode?

É militar da ativa?

Faz parte do Poder Judiciário?

Estes, não que sejam de segunda classe, ao optarem por carreiras tão poderosas têm o dever de guardar para si as opiniões sobre os governantes.

Mas, atletas?

Vá o senhor Rego dizer isso na NBA, ainda mais depois de ter servido ao atual desgoverno que o demitiu por conta de críticas feitas pela senadora Leila Barros, mulher dele.

Ou seja, vítima de censura, virou censor.

Mais do mesmo, como se vê.

Uma vergonha!

Vamos, atletas brasileiros, defendam seu direito de falar!

Sobre o Autor

Juca Kfouri é formado em Ciências Sociais pela USP. Diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e da Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura, entre 1995 e 2000 e apresentou o Bola na Rede, na RedeTV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Apresentou o programa de entrevistas na rede CNT, Juca Kfouri ao vivo, entre 1996 e 1999 e foi colaborador da ESPN-Brasil entre 2005 e 2019. Colunista de futebol de “O Globo” entre 1989 e 1991 e apresentador, de 2000 até 2010, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio. Foi colunista da Folha de S.Paulo entre 1995 e 1999, quando foi para o diário Lance!, onde ficou até voltar, em 2005, para a Folha, onde permanece com sua coluna três vezes por semana. Apresenta, também, o programa Entre Vistas, na TVT, desde janeiro de 2018.

Colunas na Folha: https://blogdojuca.uol.com.br/lista-colunas-na-folha/

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