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Deu o contrário: aqui, futebol piora sensação da pandemia

Juca Kfouri

04/08/2020 16h52

POR PAULO JUNIOR*

Daí sai a tabela do Campeonato Brasileiro em que o grande destaque da abertura são os jogos adiados por causa dos Estaduais. Copia e cola, puxa para lá, para cá, enfia mais um jogo aí. A bola não pode parar, precisam caber as idas, as voltas, as 38 rodadas. Vamos voltando o futebol nos cantinhos dos dias, joga depois, marca de novo, dá um jeito

Parecia difícil, mas o futebol conseguiu. Quase 50 dias depois do constrangedor Flamengo x Bangu em pleno hospital de campanha do Maracanã, consigo olhar para o último mês e tanto e dizer que o retorno da bola no Brasil piorou minha sensação da pandemia.

Os times de futebol, empurrando jogos em sequência a qualquer custo e de qualquer jeito, não só impõem uma falsa impressão de normalidade como ainda desrespeitam o luto por quase 100 mil vidas perdidas ao tratarem o grave problema de saúde como mero obstáculo, detalhe extracampo, para a bola não parar de rolar.

Começou com uma Medida Provisória que implodiu os contratos de TV do Campeonato Carioca e atiçou, em plena pandemia, uma corrida cada um por si por melhores negócios nos direitos de transmissão. Tempo totalmente inadequado, para dizer o mínimo. Um torneio voltando antes da hora e sem nenhuma vergonha de fazê-lo com discussões de bastidores e guerra de liminares ‒ "voltar o futebol" era isso?

Daí passou pelos clubes migrando de cidade para driblar o mapa da pandemia em seus respectivos estados, depois times retomando os treinos, mas proibidos de jogar em suas cidades por estarem numa zona de risco maior. Atletas com resultado positivo para testes da Covid-19 e partidas mantidas. Contratos acabando no meio da pausa do futebol e os times precisando voltar, escalando quem puder, para ontem, para o show continuar. Outro dia um texto trazia um dado curioso. Desfalques: nenhum (exceto os 18 jogadores que deixaram o clube durante a pandemia).

Daí sai a tabela do Campeonato Brasileiro em que o grande destaque da abertura são os jogos adiados por causa dos Estaduais. Copia e cola, puxa para lá, para cá, enfia mais um jogo aí. A bola não pode parar, precisam caber as idas, as voltas, as 38 rodadas. Vamos voltando o futebol nos cantinhos dos dias, joga depois, marca de novo, dá um jeito.

O Red Bull Bragantino, por causa de uma falha na testagem, estava na tarde do jogo das quartas de final do Campeonato Paulista com mais de meio time com resultado positivo para Covid-19. Desconfiou, foi atrás de novos exames e, felizmente, eles deram resultado negativo. O jogo começava em duas horas, vai, coloca a chuteira, vamos lá. Tipo um teste de vestiário.

Não bastasse a eliminação nessas condições, três dias depois a equipe voltava a campo pelo Torneio do Interior. Deve ser sadismo. Várias cidades do interior não podem receber os jogos devido à pandemia, o próprio Bragantino precisou mandar seu aguardado duelo contra o Corinthians na capital, mas aí segue disputando um torneio do… Interior? Precisava?

No Campeonato Mineiro, outra boa: Tombense, de Tombos, e Caldense, de Poços de Caldas, jogam semifinais em duas partidas no Independência, em Belo Horizonte. Ida e volta no mesmo lugar, dois dias para o mesmo jogo sem torcida e sem casa e, desculpem a redundância, em plena pandemia. Precisa?

Enquanto a Champions League vai para jogo único em sua fase decisiva em campo neutro, ou mesmo a NBA retornou já eliminando equipes que não tinham mais chances de vaga nos playoffs, aqui não. As tabelas brigam entre si.

O Bahia jogou sábado e domingo, uma pela Copa do Nordeste, outra pelo Campeonato Baiano. O mesmo clube. Em. Plena. Pandemia. Corre, corre, a bola não pode parar.

E fechando todo esse período antes do início do Campeonato Brasileiro, faltava ela, a final do Paulistão. O principal clássico do estado que é o epicentro da doença precisava incluir mais uma em seu currículo: depois do jogo das barricas, do histórico duelo pelo título do Quarto Centenário, do jogo para arrecadar fundos ao Partido Comunista, da partida que selou a saída de Rivellino do Parque São Jorge, do fim da fila alviverde no gol de Evair, das embaixadinhas de Edílson, do pênalti desperdiçado por Marcelinho, nossa, tanta história… Depois de tudo isso, é inevitável uma página para o Dérbi da Pandemia, ou  o Dérbi da Negação, visto o desaforo que é o pré-jogo neste início de semana.

Independentemente das versões de cada time, o procedimento para o jogo é… Não ter um procedimento para o jogo. O Corinthians disse que não faria novos testes, afinal está cumprindo o isolamento combinado (como uma população em pandemia recebe a notícia de um time se recusando a fazer testes? E o contato com os jogadores rivais?); o Palmeiras diz que está realizando a testagem, mas liberou os jogadores para deixarem a concentração depois da última partida, diferentemente do que sugere o acordo (qual a mensagem que chega para a sociedade ao ver que um time pode optar pela metodologia que lhe faz sentido, mesmo que diferente do adversário?). Era tão difícil assim ambos seguirem o mesmo ritual? Custava um pequeno esforço para um jogo de bastidores tranquilos, quietos?

A conclusão é mais ou menos a seguinte: elaboramos uma ideia para a volta do campeonato, mas cada time faz de um jeito, e vamos que vamos.

Enfim, no país que ignora até a necessidade de um ministro da Saúde, tudo o que a gente não precisava era do futebol piorando o debate. Do futebol como agente de mais desordem, de mais dúvidas.

Nós, que gostamos tanto de futebol, não precisávamos dele como elemento que conseguiu alimentar a péssima sensação da pandemia. Porque já não bastasse o descaso dos governos, ele deixa claro a falta de sensibilidade dos cartolas, a falta de senso coletivo para lidar com a crise, a total falta de humanidade quando uma tabela de futebol se sobrepõe a qualquer acontecimento, mesmo o mais grave deles em tanto tempo.  

Se a ideia inicial da volta do esporte era passar boas mensagens e boas práticas para a sociedade e entreter a população nesses dias tão difíceis, digo por mim: aqui deu no contrário. O futebol que nos leva à frente da televisão deveria ser um alívio, uma saudação à vida, à alegria, um suspiro lúdico nessa suspensão da vida cotidiana, do contato com família e amigos. No fim, me deixa mais desapontado com nossa incapacidade de lidar com tudo isso.

*Paulo Junior, nascido em 1988 em São Bernardo do Campo-SP, é jornalista e documentarista. Trabalhou em algumas redações em São Paulo, como a Editora Abril e a ESPN Brasil. Diretor dos documentários O Acre Existe (2013), Largou as Botas e Mergulhou no Céu (2016), Meu Amigo Alemão (lançamento em 2020) e Gerais da Pedra (em finalização), e das séries Tão Longe, Tão Perto (2014), Som das Torcidas (2015, apresentação e roteiro) e Raiz do Futebol (2019). Autor dos livros O Acre Existe (2013) e São Bernardo Sitiada (2017). Produtor dos podcasts Meu Time de Botão (Central3), Central Cine Brasil (Central3) e É Proibido Vaiar.

**Publicado originalmente em ULTRAJANO.

Sobre o Autor

Juca Kfouri é formado em Ciências Sociais pela USP. Diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e da Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura, entre 1995 e 2000 e apresentou o Bola na Rede, na RedeTV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Apresentou o programa de entrevistas na rede CNT, Juca Kfouri ao vivo, entre 1996 e 1999 e foi colaborador da ESPN-Brasil entre 2005 e 2019. Colunista de futebol de “O Globo” entre 1989 e 1991 e apresentador, de 2000 até 2010, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio. Foi colunista da Folha de S.Paulo entre 1995 e 1999, quando foi para o diário Lance!, onde ficou até voltar, em 2005, para a Folha, onde permanece com sua coluna três vezes por semana. Apresenta, também, o programa Entre Vistas, na TVT, desde janeiro de 2018.

Colunas na Folha: https://blogdojuca.uol.com.br/lista-colunas-na-folha/

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