PUBLICIDADE
Topo

Histórico

Categorias

CEM MIL

Juca Kfouri

08/08/2020 11h26

Fabrício Carpinejar

Eu jogava Super Trunfo de estádios com os meus irmãos. Consistia em escolher um item das cartas para ganhar do outro.

Todos ambicionavam contar em seu baralho com o Maracanã, espécie de coringa que anulava qualquer concorrência, devido a sua capacidade monstruosa de cem mil torcedores.

Depois vinha o Mineirão, com 80 mil, o Morumbi com 70 mil, o Olímpico e o Beira-Rio com 60 mil. Isso tudo antes das reformas para a Copa do Mundo.

Cem mil pessoas em um único local? Suspirávamos. Era um absurdo de gente. Dava um orgulho ter um espaço dessa amplitude no país.

Eu me lembrei dessa minha brincadeira predileta de uma forma fúnebre, pelo avesso da esperança, pelo contrário da ingenuidade, ao perceber que atingiremos cem mil mortos pelo covid-19 neste final de semana. Minha infância morreu de repente, para sempre, com essa comparação. Jamais entrarei no templo do futebol com iguais olhos para a multidão. Serão fantasmas da nossa soberba.

E não acredito que deixamos as vítimas encherem o nosso maior estádio. Pelo negacionismo, pelo medo da economia quebrar, pela falta de torcida ao isolamento.

Temos um cemitério do tamanho do Maracanã.

Cada cadeira ocupada por uma cruz, por uma lápide, por um nome entre duas datas, por um pesar e uma frase incurável de saudade.

Cada assento desocupado dos sonhos, da alegria, da comemoração de gols e realizações pessoais.

Cada lugar velando por uma vida desperdiçada, por uma vida perdida, por uma vida que jamais admitirá a pandemia como um mal necessário.

Não podíamos ter deixado passar tanta morte pela catraca da dor. Nosso luto é uma vergonha. O Brasil nunca terá como indenizar as lágrimas das famílias enlutadas.

Sobre o Autor

Juca Kfouri é formado em Ciências Sociais pela USP. Diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e da Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura, entre 1995 e 2000 e apresentou o Bola na Rede, na RedeTV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Apresentou o programa de entrevistas na rede CNT, Juca Kfouri ao vivo, entre 1996 e 1999 e foi colaborador da ESPN-Brasil entre 2005 e 2019. Colunista de futebol de “O Globo” entre 1989 e 1991 e apresentador, de 2000 até 2010, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio. Foi colunista da Folha de S.Paulo entre 1995 e 1999, quando foi para o diário Lance!, onde ficou até voltar, em 2005, para a Folha, onde permanece com sua coluna três vezes por semana. Apresenta, também, o programa Entre Vistas, na TVT, desde janeiro de 2018.

Colunas na Folha: https://blogdojuca.uol.com.br/lista-colunas-na-folha/

Blog do Juca Kfouri