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As cicatrizes de Beirute

Juca Kfouri

05/08/2020 14h23

POR ROBERTO SALIM

Dormir depois de ver as fotos e os vídeos da explosão em Beirute foi difícil. Mas o sono agitado me levou a meu pai. Quando veio do Líbano, ainda jovenzinho, ele trouxe algumas cicatrizes: umas na alma e outra na fronte – quase um pequeno afundamento na testa.

O velho Jamil era uma figura cativante, que contava sempre em tom de história a sua infância em terras distantes.

Quando falava da longa viagem de navio, fazia um som para imitar as ondas e mostrar que às vezes a embarcação estava aqui embaixo, outras vezes lá no topo daquele mar bravio.

Havia um tom épico em seus casos libaneses.

A minha história preferida era da guerra, quando soldados não sei de qual nacionalidade pararam à frente do portão da casa da família do meu avô Salim.

"O vovô tinha saído de diligência em busca de alimentação. Na casa só estava minha mãe Maria e meus irmãos menores", falava meu pai. Nessa época, ele tinha apenas 6 anos.

"Os soldados queriam abrir uma passagem pelo quintal da casa. Chegaram marchando e faziam um barulho com as botas no chão: pom-pom-pom. Mas eu peguei minha espingardinha de chumbo e fiquei na janela mostrando que por ali ninguém ia passar".

E os soldados, provavelmente por admirar a bravura do menino, foram abrir a passagem em outro lugar.

Devia ser 1915.

O velho Jamil também dava detalhes da vinda da sua família para terras brasileiras. E contava aflito da espera no porto de Marselha pelo navio que viria para o país das oportunidades, para aquela América que prometia há exatos cem anos: 1920.

"Quando estávamos em Marselha, uma das minhas irmãs pequenas desapareceu, foi uma loucura até que ela fosse encontrada e quase perdemos o navio que veio para Santos".

Tudo era encantador.

Meu pai me ensinava também muitas palavras em árabe.

Alguns palavrões, que eu não esqueci até hoje.

Mas ele gostava mesmo é de falar de futebol.

Quando eu nasci, o velho libanês já tinha seus 46 anos.

Era mais brasileiro do que muito brasileiro.

Era são-paulino fanático e me dizia que nunca houve um ataque como Luizinho, Sastre, Leônidas, Remo e Teixeirinha.

Embora fosse um grande brasileiro, nunca quis se naturalizar.

"Sou brasileiro sim, mas não posso negar o lugar de onde vim".

Era uma questão de princípio para ele. E eu não sei como ele ficaria se visse as cenas da explosão no porto.

O mar era um lugar sagrado para o meu pai.

E a cicatriz que ele trazia na fronte foi feita dentro da água.

"Eu era teimoso desde pequeno, saía de casa cedinho e ia para o mar, ia nadar, contrariando minha mãe, porque era muito perigoso".

O perigo não vinha exatamente das águas.

Ele contava que havia os pescadores no local. E eu sei lá como e por que, eles pescavam usando bombas.

"Eu procurava ficar longe, mas sabe como é, eu tinha 6 ou 7 anos, queria me divertir. E um dia uma das bombas explodiu perto de mim, abriu uma brecha na minha testa e me tiraram das águas desmaiado".

Como punição pela desobediência o Jamilzinho daqueles tempos passou uma tarde inteirinha na delegacia da região onde morava em Beirute. 

"Meu tio era da polícia e me prendeu de mentirinha".

Nunca mais ele nadou sem seus pais por perto.

Quando eu acordei esta manhã fiquei com a nítida impressão de que a explosão no porto aconteceu onde meu pai nadava no começo do século passado.

Pode ter sido só impressão, não é?

*Publicado originalmente no ULTRAJANO

Sobre o Autor

Juca Kfouri é formado em Ciências Sociais pela USP. Diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e da Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura, entre 1995 e 2000 e apresentou o Bola na Rede, na RedeTV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Apresentou o programa de entrevistas na rede CNT, Juca Kfouri ao vivo, entre 1996 e 1999 e foi colaborador da ESPN-Brasil entre 2005 e 2019. Colunista de futebol de “O Globo” entre 1989 e 1991 e apresentador, de 2000 até 2010, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio. Foi colunista da Folha de S.Paulo entre 1995 e 1999, quando foi para o diário Lance!, onde ficou até voltar, em 2005, para a Folha, onde permanece com sua coluna três vezes por semana. Apresenta, também, o programa Entre Vistas, na TVT, desde janeiro de 2018.

Colunas na Folha: https://blogdojuca.uol.com.br/lista-colunas-na-folha/

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