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Mal-acostumados

Juca Kfouri

13/07/2020 12h00

Marco Sirangelo

POR MARCO SIRANGELO

Vou me permitir um relato pessoal dessa vez. Tive o privilégio de morar um ano na Inglaterra, entre 2016 e 2017, quando fui estudar gestão esportiva em Loughborough, uma cidade nanica na região de East Midlands, bem no meio do país e umas 3 horas de carro de Londres. Assim que cheguei, aluguei um quarto em uma casa que dividi com outros estudantes e já fui atrás para saber não só como poderia assistir o campeonato inglês, como também o Brasileirão, que já chegava em sua reta final.

Verifiquei os planos da Globo Internacional (na época o Premiere Internacional não estava disponível, não sei muito o motivo) e vi que os valores estavam completamente fora do meu orçamento. Já a Premier League também não seria tarefa simples. Duas provedoras de canal pago possuíam os direitos do campeonato local, a Sky Sports e a BT Sport, sendo que algo como dois terços dos jogos seriam de exclusividade da Sky e um terço da BT. Era absolutamente inviável assinar os dois provedores, mas um deles até caberia no bolso.

Enquanto tomava a decisão, perguntei aos meus colegas ingleses qual era a melhor opção e a resposta foi quase unânime: "quando assinei a Sky, os melhores jogos passavam sempre na BT e vice-versa. É melhor ver o jogo no pub e o Match of the Day, programa que resume a rodada, na BBC, que é aberta". Nesse momento percebi que futebol ao vivo na televisão aberta era raríssimo fora do Brasil. Estivemos bastante mal-acostumados nesse sentido, acomodados com os jogos quarta e domingo facilmente ao nosso alcance.

Fiquei sem muita alternativa, mas logo descobri um certo bug no aplicativo do Premiere para celular e tablet, pois o sinal do Brasileirão não estava bloqueado para mim, como deveria. Contando com a generosidade de um grande amigo, recebi seu login e pude acompanhar todos os jogos do Brasileirão daquele ano e também do seguinte. O problema estava na Libertadores e na Copa do Brasil. Nesses casos, não me restava alternativa — os péssimos streamings piratas tiveram que ser acessados, confesso. Nessa, o pior pesadelo de um torcedor aconteceu comigo, quando por volta das duas da manhã em horário inglês, o sinal caiu bem no meio de uma disputa de pênaltis envolvendo o meu time pela Libertadores. Fiquei sabendo da eliminação pelo Twitter.

A sugestão do pub foi realmente a solução para que eu pudesse acompanhar o campeonato local. Acabava sendo um bom pretexto para encontrar uns amigos, mas também peguei gosto por ir sozinho desbravar todos os bares da cidade. Depois de um tempo, criei raízes no que ficava mais perto de casa, o Blacksmiths. Passado um breve momento em que fui um "forasteiro", Mitch, o dono, já me esperava com o melhor pint de Guinness da cidade nos dias de jogos. Não é exagero, ele nem perguntava.

Em uma das visitas, vendo o então virtual campeão Chelsea jogar contra o Southampton, um senhor que era a minha perfeita representação do inglês típico, puxou papo comigo. Era de Londres, torcedor do Chelsea e há poucos meses na cidade. Ainda sofria com o sotaque, dizia, e nunca levava a carteira para o pub, apenas o dinheiro contado para quatro pints de Foster´s, somente. Vendo Mitch planejar suas apostas para a próxima rodada do torneio de dardos de East Midlands, o londrino se deu conta que havia esquecido de fazer sua aposta para aquele jogo que estávamos vendo. Por superstição, ele sempre coloca dinheiro no improvável 4×1 para o Chelsea em todos os jogos. Porém, não se importou muito com a quebra da rotina, afinal o título já estava praticamente assegurado pelo bom time comandado por Antonio Conte. Eu quase surto quando esqueço de fazer alguns dos meus rituais de superstição futebolística, mas ele só franziu a sobrancelha e logo mudou de assunto.

Até que aos 89 minutos de jogo, Diego Costa fez seu segundo gol no jogo, decretando aquele que seria o primeiro 4×1 do Chelsea em 34 rodadas de futebol. O tal londrino soltou um belo palavrão (mais sonoro no sotaque da capital) e saiu para fumar um cigarro, descontando a frustração de uma aposta quase vencida na pobre porta do pub. Pouco depois, corri até a rua para avisá-lo do segundo gol do Southampton, marcado inesperadamente aos 94 minutos e que aliviaria a consciência do simpático desconhecido. Ele voltou ao bar, desculpou-se com Mitch e deixou pendurado um quinto pintda noite.

O ônus de sediar a melhor liga do mundo é que o único local verdadeiramente acessível aos ingleses interessados em futebol é o pub. Os ingressos e carnês anuais são caros e concorridos na mesma medida, enquanto a televisão, mesmo paga, não resolve muito o problema. Os clubes se dão bem com isso, recebem um bom dinheiro em troca, mas existe uma inconveniência prática para o torcedor, que precisa criar o hábito não só de olhar a tabela para ver o próximo adversário de seu time, mas também para saber se o jogo é na Sky ou na BT.

Vale o paralelo para o Brasil de 2020. A Medida Provisória que altera a lógica dos direitos de transmissão em teoria amplia a possibilidade de canais que podem transmitir partidas. Isso é potencializado com o modelo individual de negociação adotado pelos clubes, uma vez que nada impede que cada clube decida negociar seus direitos com emissoras diversas ou canais próprios na internet.

O torcedor irá se acostumar com qualquer que seja o novo modelo de transmissão de jogos de futebol. Mas receio que caminharemos para um cenário em que os clubes irão ganhar menos dinheiro do que atualmente e ainda teremos que andar com uma cola contendo os canais que passam os jogos de cada time do campeonato. Se eu fosse dono de boteco, correria para comprar algumas televisões, melhorar meu pacote de canais e aumentar a velocidade da internet. Acho que será útil daqui pra frente.


Texto publicado originalmente no Ludopédio em: https://www.ludopedio.com.br/arquibancada/mal-acostumados/

Sobre o Autor

Juca Kfouri é formado em Ciências Sociais pela USP. Diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e da Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura, entre 1995 e 2000 e apresentou o Bola na Rede, na RedeTV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Apresentou o programa de entrevistas na rede CNT, Juca Kfouri ao vivo, entre 1996 e 1999 e foi colaborador da ESPN-Brasil entre 2005 e 2019. Colunista de futebol de “O Globo” entre 1989 e 1991 e apresentador, de 2000 até 2010, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio. Foi colunista da Folha de S.Paulo entre 1995 e 1999, quando foi para o diário Lance!, onde ficou até voltar, em 2005, para a Folha, onde permanece com sua coluna três vezes por semana. Apresenta, também, o programa Entre Vistas, na TVT, desde janeiro de 2018.

Colunas na Folha: https://blogdojuca.uol.com.br/lista-colunas-na-folha/

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