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Não foi tempo perdido

Juca Kfouri

24/06/2020 15h18

POR INÊS BARI*

John Lennon parou por cinco anos para cuidar de Sean… Fazer sua comida e seus caprichos. Caminhar no Central Park, sem Paul, George ou Ringo.

Paul deu um tempo. Quase um ano. Numa fazenda, cuidando das plantas e dos bichos… Linda, mais que linda, trouxe Paul de volta. Com Wings e asas renovadas, novas fotos e canções feitas em casa…

Michael Jordan se cansou da NBA. De tanto triplo-duplo que fez. Largou a cesta e no sábado foi jogar baseball. Durou pouco. Jogou mal. Deve ter pensado bastante nos vinte e quatro segundos em que o tempo estourou. No pai que enterrou, junto com a bola final… A única que naquela triste noite, ele não acertou. O tempo passou. Air Jordan voltou. Novamente, voou!

Ah, a pausa. Tempo de espera. Muitas vezes, necessária de se ter. Nas obras de Vivaldi, entre os acordes e ritmos contagiantes, pausas breves e elegantes, ouvimos também. Não resistimos por muito tempo na mesma constante.

Parei cinco anos, aproximadamente, quando cuidei, verdadeiramente, de alguém. Com todo meu tempo e atenção. Tempo de amor. Delicada dedicação. Tendo a mãe e seu Alzheimer como companhia. Conversas estranhas, onde nada, muitas vezes, se compreendia. O tempo passava. Eu não percebia…

O tempo ilude quem cuida. O relógio parava quando eu chegava às três da tarde. O tempo, porém, passava sem alarde. Ele insiste em sempre passar. E muitas vezes, vai colocando ordem na casa e as coisas no lugar. Regenera o que estava se esgotando. Esgota o que já estava, no fundo, estragando.

O meu abacate verde amarelou e secou, no meio da longa quarentena. Não comi. Não percebi. Foi rápido feito uma centelha. E a menina Lia, com leucemia, se recuperou. Seis meses no hospital. A pausa tratou o mal.

E quando Renato Russo parou na adolescência, na cama, no seu quarto, semiparalisado, tinha a mãe e o violão do lado. Fez grandes canções, pensando em Mônicas e Eduardos. Deixou seu legado. Mais tarde, pausou e partiu.

Cada pausa traz um sentido. O tempo gasto por amor… Não é tempo perdido!

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Sobre o Autor

Juca Kfouri é formado em Ciências Sociais pela USP. Diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e da Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura, entre 1995 e 2000 e apresentou o Bola na Rede, na RedeTV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Apresentou o programa de entrevistas na rede CNT, Juca Kfouri ao vivo, entre 1996 e 1999 e foi colaborador da ESPN-Brasil entre 2005 e 2019. Colunista de futebol de “O Globo” entre 1989 e 1991 e apresentador, de 2000 até 2010, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio. Foi colunista da Folha de S.Paulo entre 1995 e 1999, quando foi para o diário Lance!, onde ficou até voltar, em 2005, para a Folha, onde permanece com sua coluna três vezes por semana. Apresenta, também, o programa Entre Vistas, na TVT, desde janeiro de 2018.

Colunas na Folha: https://blogdojuca.uol.com.br/lista-colunas-na-folha/

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