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Futebol não é prioridade

Juca Kfouri

30/06/2020 17h25

POR FABRÍCIO CARPINEJAR

Eu amo futebol. Adoro futebol. Nunca pensei que aguentaria tanto tempo sem assistir ao meu time. Já odiava janeiro e fevereiro porque significavam recesso.

Era uma de minhas conversas prediletas com os amigos e filhos. Sou capaz de ficar mal-humorado por uma semana quando perco uma rodada. Acredito na camiseta da sorte, em rituais e amuletos. Jamais convido algum amigo de novo após uma derrota. Mantenho-me distante dos pés frios, mesmo que custe abdicar das amizades. Pago pay-per-view e cadeiras no estádio. Coleciono bandeiras, jornais e flâmulas. Minha memória é enciclopédica, sei de cor escalações, jogos inesquecíveis e datas das taças.

Mas tenho a consciência de que futebol não é uma prioridade. Não representa uma reabilitação emocional, um auxílio emergencial para as famílias.

No Brasil, há dez por cento dos mortos por coronavírus de todo mundo. Dez por cento e o número apenas cresce. São quase sessenta mil vidas ceifadas em três meses.

Não há como retomar os campeonatos no meio de uma catástrofe sanitária. Não precisa estar atualizado para chegar a tal conclusão. É um bom senso que vem com a carteira de identidade.

Até porque é um esporte de intenso contato físico. Basta um atleta assintomático jogar dos vinte e dois em campo que se deflagrará um efeito cascata do vírus nas delegações.

Assim como não existe estímulo para torcer com os cemitérios dobrando de tamanho e hospitais com sua capacidade máxima. Falta tranquilidade e confiança para vibrar. Como comemorar um gol sem culpa, sem a consciência doer? O país agonizando e vou ficar discutindo impedimento e pênalti?

Por dentro do meu pulmão, só guardo fôlego para vaiar a doença, vencê-la no grito, rebaixá-la aos berros. É o único campeonato possível. O único título moral que nos resta.

Sobre o Autor

Juca Kfouri é formado em Ciências Sociais pela USP. Diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e da Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura, entre 1995 e 2000 e apresentou o Bola na Rede, na RedeTV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Apresentou o programa de entrevistas na rede CNT, Juca Kfouri ao vivo, entre 1996 e 1999 e foi colaborador da ESPN-Brasil entre 2005 e 2019. Colunista de futebol de “O Globo” entre 1989 e 1991 e apresentador, de 2000 até 2010, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio. Foi colunista da Folha de S.Paulo entre 1995 e 1999, quando foi para o diário Lance!, onde ficou até voltar, em 2005, para a Folha, onde permanece com sua coluna três vezes por semana. Apresenta, também, o programa Entre Vistas, na TVT, desde janeiro de 2018.

Colunas na Folha: https://blogdojuca.uol.com.br/lista-colunas-na-folha/

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