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Alma corinthiana

Juca Kfouri

03/06/2020 16h45

Por RAFAEL CASTILHO*

Toda vez que se discute o papel social, político e até mesmo simbólico que o Corinthians exerce na sociedade brasileira, para muito além das quatro linhas, cria-se uma polêmica.

Há quem prefira enxergar o Corinthians como um clube de futebol, e pronto.

Há quem deseje ver o clube se tornando uma empresa. Há quem torça para o Corinthians como se o clube fosse uma mera grife, desprezando, ou mesmo ignorando o seu papel social e histórico.

Costumo dizer o seguinte: torcer para o Corinthians não envolve predileção partidária alguma. O Corinthians não está vinculado à nenhuma filiação política. O Corinthians é plural e diverso como o próprio Brasil. Conheço grandes corinthianos, com diferentes matizes ideológicos, ou até mesmo sem ideologia alguma.

Conheço bastante gente que tem como ideologia o próprio Corinthians em si mesmo (e pra minha surpresa, com o passar dos anos, vejo até algum sentido nisso). Conheço até corinthiano com visão de mundo anticorinthiana (dá pra entender?).

Talquei, não que eu concorde, a pessoa pode até torcer para o Corinthians e ter uma visão política menos progressista. Mas tem uma coisa, não dá para deixar de considerar ou rejeitar o que é a história do Corinthians. O papel que o Corinthians exerceu, e ainda exerce, como instrumento de inserção e representação simbólica das camadas mais populares na sociedade brasileira. A capacidade que o Corinthians tem de dar protagonismo a quem não tem. De dar voz a quem não tem. De dar vitórias a quem só perde. De dar participação a quem é sempre excluído.

Fotos: Daniel Kfouri

É só olhar para a formação social da cidade de São Paulo. Mesmo sendo o maior clube da cidade, o Corinthians não se chama São Paulo, como o Barcelona é o Barcelona, o Manchester é o Manchester, o Madri é Madri, etc. O Corinthians é o Corinthians porque ele é uma espécie de lado B da nossa sociedade. O Corinthians é o Corinthians porque nós somos uma outra cidade dentro da cidade, um outro Brasil dentro do Brasil. Por isso somos quase sempre o clube dos retirantes, dos refugiados, dos ignorados, dos sufocados. O Corinthians se fez como clube dos "invisibilizados". De quem nunca tem vez.

Quem não concorda muito com essa interpretação pode olhar com alguma atenção o que foram os primeiros anos de formação do Corinthians. Como ele se insere num esporte dominado e controlado pela oligarquia local. Basta olhar como ele foi absolutamente excluído por essa oligarquia e como foi expulso da entidade que organizava o futebol ao ganhar seu primeiro título. Como o Corinthians quase deixou de existir em 1915. O que está registrado na ata das reuniões do clube naqueles anos. Aliás, foi justamente nesse primeiro momento em que tivemos a nossa primeira taça de campeão penhorada para pagar as dívidas de uma sede social nova. Um presidente emocionado, dizendo aos prantos que fez tudo isso porque os ricos queriam humilhar o Corinthians. Porque viemos de um bairro humilde. Porque não conseguiam vencer o Corinthians nas quatro linhas, então precisavam nos excluir. Que precisávamos de uma sede mais bonita para sermos respeitados. E outros tantos sócios rebatiam o presidente dizendo que deveríamos ter ficado no Bom Retiro e ter assumido quem somos. Nada muito diferente de alguns dos debates que temos até hoje entre nós.

O fato é que até hoje funciona assim. Os campeonatos que ganhamos "não tem validade", ou "foram roubados". Todas as nossas conquistas materiais e desportivas são desmerecidas.

O corinthiano pode ter a visão política que quiser, mas não pode fechar os olhos para a história. Não pode deixar de enxergar que entre 1955 e 1977 foi o período em que a torcida do Corinthians mais cresceu. Justamente no período sem títulos do Corinthians. E por quê? Foi milagre? Não, fiel, milagre algum. Esse também foi o período em que esta cidade mais crescia. E porque os milhões que aqui se acumulavam em vilas e favelas não escolheram algum outro clube que era um ganhador de títulos para torcer e se associar emocionalmente às vitórias? Porque era o Corinthians que tinha correspondência com a vida vivida por essas pessoas. A vida dessas pessoas também era repleta de sofrimento e privações. Porque eles viviam nesse Lado B da cidade de São Paulo. Eram a face sufocada dessa sociedade. "O grito sufocado de um povo", como disse o Osmar Santos no gol do Basílio em 1977.

Como não ter para sempre gravada na memória a voz serena de Dom Paulo Evaristo Arns, corinthiano fiel, exortando para seu rebanho na Revista Placar: "não existem derrotas definitivas para o povo".

E certamente as derrotas não foram definitivas. Vejam a importância histórica que o Corinthians cumpriu na redemocratização do Brasil? O mundo hoje reconhece o papel, a importância, a coragem da Democracia Corinthiana.

Repetindo. O Corinthians é diverso e plural. Abriga diferentes modos de pensar. Diferentes visões de mundo. Ainda bem! Porque no coração dos corinthianos há o desejo de liberdade. Liberdade pra você! Somos espíritos livres!

Mas, meu amigo, não dá pra virar as costas para o caráter popular do Corinthians. O papel histórico que ele cumpre.

Irmão corinthiano, tudo o que ocorre hoje serve para que você nunca duvide do tamanho do Corinthians! Do espaço que o Corinthians ocupa nessa sociedade e quais são as forças que se organizam desde 1910 para destruir o Corinthians.

Porque não somos só um clube de futebol.

Somos o orgulho do nosso povo. Somos a autoestima da nossa gente. Somos a consciência de classe possível nos nossos dias. Somos a coluna vertebral do povo sofrido.

O Corinthians é um símbolo da vitória de um povo. E quem estudar um pouquinho de história, haverá de entender que os símbolos tem poder!

*Rafael Castilho é Sociólogo da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo e Coordenador do Núcleo de Estudos do Corinthians

Sobre o Autor

Juca Kfouri é formado em Ciências Sociais pela USP. Diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e da Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura, entre 1995 e 2000 e apresentou o Bola na Rede, na RedeTV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Apresentou o programa de entrevistas na rede CNT, Juca Kfouri ao vivo, entre 1996 e 1999 e foi colaborador da ESPN-Brasil entre 2005 e 2019. Colunista de futebol de “O Globo” entre 1989 e 1991 e apresentador, de 2000 até 2010, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio. Foi colunista da Folha de S.Paulo entre 1995 e 1999, quando foi para o diário Lance!, onde ficou até voltar, em 2005, para a Folha, onde permanece com sua coluna três vezes por semana. Apresenta, também, o programa Entre Vistas, na TVT, desde janeiro de 2018.

Colunas na Folha: https://blogdojuca.uol.com.br/lista-colunas-na-folha/

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