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A insustentável leveza do futebol - Do vácuo moral ao vácuo institucional

Juca Kfouri

23/06/2020 15h35

POR JOSÉ LUIZ PORTELLA PEREIRA*

O futebol está enfrentando a sua sombra. Olhar para as próprias vísceras. Julian Knight, membro do Parlamento inglês, "chair of digital, culture, media and sport committee", disse que o futebol vive um vácuo moral. Concordo, mas acrescento, sempre viveu em quase todos os lugares do mundo, sobretudo depois da constituição da chamada Economia do Futebol, quando o esporte passou a lidar com valores de receitas e transações astronômicos, que, para se ter ideia, nos dias atuais, um jogador como Harry Kane, Tottenham Hotspur, foi cotado pelo clube em 1 bilhão de reais, mesma cifra que o Banco Itaú destinou a um Fundo de Combate a Covid-19, recorde de doação em todos os tempos do banco.

Além do vácuo moral persistir há muito tempo e caminhar desveladamente para a persistência desse vácuo, por vezes com risco de aumentá-lo; ele se mantém intocável, com a tolerância de toda a sociedade no Brasil. Provavelmente em outros países também.

Pensávamos há algum tempo, que se houvesse a punição de Ricardo Teixeira por tudo que perpetrou na CBF, a sociedade bateria palmas e embarcaria no estímulo a novos tempos. Triste e ledo engano. Além de não haver interesse nem das autoridades, nem muita cobrança da sociedade pelo enquadramento de Teixeira, depois que ficou claro o seu envolvimento, ele pode permanecer confortavelmente no país. Poucos se incomodaram com isso.

O vácuo moral do futebol tem a ver com a sociedade. Não é possível que dezenas de dirigentes, amparados por centenas de assessores, mais empresários de atletas consigam manter-se nesse vácuo sem que haja leniência e até colaboração de boa parte da coletividade que os cerca, ou seja, de nós todos, da sociedade em geral. Não é possível que um milhar de incorretos se imponham diante de milhões de pessoas "corretas", que querem o bem, mas não logram deter os "maus".

Em a Fragilidade da Bondade, a filósofa americana Martha Nussbaum, das Universidades de Harvard e de Chicago, mostra como fazer as coisas da forma que a maioria considera correta, não leva, infelizmente, a garantia de sucesso na vida. Há no ser humano um lado sombrio, e que persistentemente preferimos ignorar. Fingimos que vivemos no mundo "como deveria ser" e não em "como ele é", de fato. O futebol navega no oceano do vácuo moral porque as comunidades assim o permitem, e de forma exagerada no Brasil. Não poderia afirmar o grau de conivência em outros países.

O FUTEBOL E O NEGÓCIO

O futebol se transformou num negócio altamente rentável. Isso não é errado. Além de não sê-lo, por gerar emprego e renda e se constituir em importante atividade que colabora com o crescimento econômico do país, não há como impedir essa realidade, que está amparada na indústria do entretenimento. Uma próspera indústria da economia atual em qualquer parte do mundo. Os salários de vários grupos de artistas são elevados porque a sociedade consome e necessita de entretenimento.

Em " A Radical Rethinking of the Way to Fight Global Poverty", livro dos economistas A.V. Banerjee e Esther Duflo, premiados com o Nobel de Economia de 2019, eles mostram como pessoas que vivem na extrema pobreza, quando têm um aumento de renda e vivem em locais sem entretenimento, preferem comprar uma TV a ter mais comida, como seria de se esperar. E quando têm lazer e distração, compram comida mais saborosa e não TV.

A necessidade de conforto mental, de prazer e lazer, de desanuviar a mente é crucial, não um requinte de luxo. O ser humano precisa se entreter. O futebol é a forma mais popular no mundo de realizá-lo. A combinação dessa necessidade veemente de conforto psicológico em um mundo tão hostil, mais os avanços da tecnologia e da comunicação farão do futebol um "business" inafastável e relevante.

Cabe combiná-lo com práticas saudáveis tanto no procedimento como na dinâmica, mantendo o romantismo e a estética que nasceram com a sua prática e que não devem ser suprimidos, além de não poder obstar o acesso das pessoas com baixa renda. A torcida é o combustível desse esporte.

O negócio futebol não é incompatível com beleza, paixão, amor à camisa e às tradições do clube do coração, que preenche importante papel de fornecer pertencimento a milhões de pessoas, a maioria desprovida de oportunidades para alcançar funções e instituições de importância. Pertencimento e afeto são necessidades humanas inalienáveis. O futebol os proporciona.

Contudo, esse casamento depende inexoravelmente da construção de uma estrutura que não viva em vácuo moral e que sirva de fator de desenvolvimento econômico, ético e social de seus adeptos e aficionados. A começar pela organização do seu arcabouço organizacional se estendendo pelo calendário e pela forma de criar valor na conquista dos clubes.

O que estamos assistindo hoje, é que diante de uma adversidade gigantesca e inesperada, como em toda grande crise, os vícios e virtudes são evidenciados de forma mais clara, são exponenciados, fazem emergir a dimensão do iceberg que se encontrava abaixo da linha da água.

E o futebol não sabe como sair da crise. Os atores não jogam um jogo coletivo, que é parte constitutiva do esporte, se isolam nos seus respectivos interesses ou aguardam acolhimento dos governos, em suma, do Estado.

O FUTEBOL E O ESTADO

O artigo 217 da Constituição do Brasil , mal redigido pelos parlamentares responsáveis, permitiu que o dirigentes interpretassem espertamente que os clubes tinham autonomia absoluta. O ministro do STF Antônio Cezar Peluso acabou com essa interpretação dos dirigentes e parte do judiciário, mas a solércia não terminou. E a coisa fica assim: o Estado não pode nem deve se meter na autonomia dos clubes, quando eles devem seguir o bom senso e as boas práticas; mas deve socorrê-los, no momento em que estão em situação difícil, normalmente gerada por eles mesmos ou quando ocorre um fato em que toda a sociedade necessita se sacrificar. O mundo do futebol não se dispõe a fazê-lo nem a introduzir novas práticas que corrigiriam a ocorrência de déficits usuais, gastos excessivos e descontrolados, formação de dívidas impagáveis.

O Congresso Nacional tem dois projetos nesse sentido e a Câmara optou pelo pior, proporcionando facilidades indevidas, enquanto o Senado, via o próprio senador que apresentou o projeto da Sociedade Anônima Futebolística-SAF, com receio de se indispor com Rodrigo Maia, se omite deliberadamente, desperdiçando a oportunidade de oferecer mais um passo na constituição de um ambiente propício para a mudança e evitar a repetição das renúncias fiscais recorrentes como Profut e Timemania, que são usufruídas nos direitos e não cumpridas nos deveres. O benefício não vem e os recursos públicos se vão. O futebol não se corrige conforme a promessa de seus dirigentes. Fica assim: quando precisam, os clubes se socorrem do Estado; quando devem criar ambiente sadio e melhorar a vida das pessoas, não cabe ao Estado interferir.

Dessa forma, não sairemos nem do vácuo moral, nem do institucional, o que faz o futebol ter uma insustentabilidade, a não permitir a realização do papel social que possui.

A solução do impasse atual contempla a visão de uma nova estrutura, de nova ética institucional, de valores consentâneos com o mundo que virá após a crise sanitária.

E todos os protagonistas, incluindo os atletas, sobretudo aqueles que usufruem de salários mais altos, precisam dar cota de sacrifício. Onde a renda se esvaiu, cabe resgatá-la partindo do ponto do refluxo. Recuperando-a no melhor ritmo possível, aproveitando para torná-la mais sólida e um valor mais tangível à sociedade.

Não é possível vencer uma crise como esta sem a contribuição de todas as partes, sem a construção de nova forma de ser, sentir e funcionar. É hora de se superar e fazer história. Com toda humildade que o momento exige. Afinal, ficou clara a fragilidade humana.

Se quisermos sair do impasse é preciso incorporar o conceito do futebol: ele é um jogo coletivo.

*José Luiz Portella Pereira foi o "ministro do Futebol" durante o governo FHC e criador do Estatuto do Torcedor.

Sobre o Autor

Juca Kfouri é formado em Ciências Sociais pela USP. Diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e da Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura, entre 1995 e 2000 e apresentou o Bola na Rede, na RedeTV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Apresentou o programa de entrevistas na rede CNT, Juca Kfouri ao vivo, entre 1996 e 1999 e foi colaborador da ESPN-Brasil entre 2005 e 2019. Colunista de futebol de “O Globo” entre 1989 e 1991 e apresentador, de 2000 até 2010, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio. Foi colunista da Folha de S.Paulo entre 1995 e 1999, quando foi para o diário Lance!, onde ficou até voltar, em 2005, para a Folha, onde permanece com sua coluna três vezes por semana. Apresenta, também, o programa Entre Vistas, na TVT, desde janeiro de 2018.

Colunas na Folha: https://blogdojuca.uol.com.br/lista-colunas-na-folha/

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