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1958 - Campeão no futebol, Brasil reinventa a própria história

Juca Kfouri

28/06/2020 13h30

Por PÉRIS RIBEIRO

62 ANOS DE 1958

Às vezes, parece até que foi ontem, mas será amanhã. Parece que não faz tanto tempo assim. Mas foi há exatos 62 anos, que vivemos uma das maiores explosões de alegria de nossa história. Tudo porque, naquela gloriosa tarde de 29 de junho de 1958 – dia de São Pedro -, o Brasil se sagrava campeão do mundo de futebol pela primeira vez.

Na visão delirante do nosso maior dramaturgo, Nelson Rodrigues, estava decretado que, a partir daquela data, "até a mais modesta das empregadinhas domésticas andará pelas calçadas de Copacabana com um charme de fazer inveja a Sophia Loren". E Nelson ainda iria mais longe, ao vaticinar que o formidável triunfo chegara para pôr fim em muitas de nossas mazelas. "Em especial, ao malfadado complexo de vira-latas, que tanto deprime e asfixia o povo brasileiro".

A festa grandiosa, no entanto, se tornaria ainda maior, quando o presidente Juscelino Kubitschek pôde enfim abraçar e homenagear cada campeão mundial.

Mesmo assim, parece que só agora é que se percebe que a façanha pioneira dos heróis de 1958 se dimensionou – e se eternizou.

Quando não, se imortalizou!

"A cena é inesquecível – e sempre emociona. Aos quatro minutos da partida final, os donos da casa já vencem por 1 a 0, o que faz Didi ir buscar a bola nos fundos das redes brasileiras. Só que, na volta, levando-a de cabeça erguida até o centro do campo, sai falando duramente com o time inteiro. Até que, para encurtar a conversa, define de vez a questão:

"Acabou! A sopa deles acabou! Vamos encher a caçapa desses gringos de gols. Aqui dentro da casa deles mesmo!".

O final da história, ninguém desconhece! O Brasil enfiou 5 a 2 numa espantada Suécia, na memorável tarde de 29 de junho de 1958, sagrando-se campeão do mundo pela primeira vez. E Didi saiu dali, do Estádio Rasunda, definitivamente consagrado. Ainda mais depois de ser apontado, pela maioria absoluta de votos da crônica esportiva internacional, como o Maior Jogador daquela Copa disputada nos atapetados gramados escandinavos.

Mesmo assim, o que bem poucos tiveram a sensibilidade de vislumbrar naquele gesto – ainda mais, com a alegria sem tamanho vivida logo depois -, foi que a atitude altiva e determinada do Mestre Didi revestiu-se de uma magnitude e um simbolismo profundamente emblemáticos. Particularmente porque, a partir daquele gesto, caíram de vez tabus que pareciam se eternizar. Dogmas que aprisionavam o jeito de pensar e agir de todo um povo – uma gente, no mínimo, diferente. Na maneira de ser. De encarar a vida.

O mais inacreditável é que, pouco antes da convocação para o Mundial, um fato, no mínimo, intrigante – e, pior: altamente sigiloso – havia ocorrido nos bastidores. É que um relatório tendencioso – quando não, discriminatório. Com um ranço profundamente "nazista" – chegara às mãos do presidente da CBD – hoje, CBF -, João Havelange.

Nele, os negros eram abertamente acusados de tudo. E, o mínimo que se dizia deles, era que tremiam sempre nos momentos decisivos. Que não sabiam se comportar socialmente. E que, longe daqui, viviam na mais cava depressão, "morrendo de saudades da família, do sol tropical e do popular feijão preto". Ou seja: não eram realmente capazes de ganhar uma competição da importância de uma Copa do Mundo.

Estranhamente, no dia da estreia contra a Áustria, na cidadezinha de Udevalla, só quando o Brasil posou para um batalhão de fotógrafos, é que se pôde perceber: havia apenas um negro no time. Assim mesmo, por motivos imperiosos. Afinal, Didi era não só o maior, mas o mais caro e famoso jogador de futebol do país. E o seu reserva imediato, Moacir, era mais negro ainda. Ou seja: era um típico " preto retinto".

A sorte é que, depois de aparadas algumas delicadas arestas – e de, por fim, haver prevalecido o tão esperado bom senso, com Garrincha, Zito e Pelé entrando no time, a partir do jogo com a Rússia -, as coisas foram aos poucos entrando nos eixos. E se pôde comemorar, com juros e correção monetária, o triunfo da, àquela altura, reverenciada "fórmula mágica".

Afinal, nos retumbantes 5 a 2 contra os espantados suecos, aquele time de negros, mulatos, um descendente direto de índios – Mané Garrincha – e alguns poucos brancos, havia exibido simplesmente "o maior espetáculo da terra". O Brasil que acabara de se sagrar campeão, era o maior time já visto em uma Copa do Mundo – e aplicando a maior goleada na história das decisões.

Os Didis, Pelés, Garrinchas, Djalmas Santos, Bellinis e Niltons Santos, haviam encantado definitivamente o mundo, ensinando uma coisa bem diferente. O seu jogo era pura ginga, malícia. Tinha magia, alegria. E presenteava as plateias com um monte de gols. E que gols! Mas o que eles também faziam questão de deixar no ar, era uma outra grande lição. A da força de uma até então desconhecida, mas poderosa mistura de raças.

No entanto, nada daquilo que estava acontecendo ali, em plena Suécia, era sem razão. Ainda mais porque o Brasil passava por um tempo de mudanças, vivendo um justificado clima de euforia. É que aqueles eram os Anos JK, do Presidente Juscelino Kubitschek e o seu revolucionário Plano de Metas. O do famoso slogan, "50 anos em 5!"

Para culminar, ainda era um tempo em que vivíamos do encanto, com a sonoridade sem igual da Bossa Nova. O movimento que celebrizou internacionalmente a música de Tom Jobim – eternizando, de quebra, a batida diferente do violão de João Gilberto. E que tal lembrarmos que, na mesma época, surgia a inquietante geração do Cinema Novo, com personagens com o brilho de um Nelson Pereira dos Santos , um Glauber Rocha, um Joaquim Pedro de Andrade, um Cacá Dieguez ?

Sorte que tudo aquilo tenha chegado também ao futebol. Campeão do mundo finalmente, na grande vitória do homem brasileiro".

* Péris Ribeiro é jornalista e escritor. E autor de "Didi, o Gênio da Folha-Seca", ganhador do Prêmio João Saldanha de Jornalismo Esportivo (2011), como o Melhor Livro do Ano

Sobre o Autor

Juca Kfouri é formado em Ciências Sociais pela USP. Diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e da Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura, entre 1995 e 2000 e apresentou o Bola na Rede, na RedeTV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Apresentou o programa de entrevistas na rede CNT, Juca Kfouri ao vivo, entre 1996 e 1999 e foi colaborador da ESPN-Brasil entre 2005 e 2019. Colunista de futebol de “O Globo” entre 1989 e 1991 e apresentador, de 2000 até 2010, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio. Foi colunista da Folha de S.Paulo entre 1995 e 1999, quando foi para o diário Lance!, onde ficou até voltar, em 2005, para a Folha, onde permanece com sua coluna três vezes por semana. Apresenta, também, o programa Entre Vistas, na TVT, desde janeiro de 2018.

Colunas na Folha: https://blogdojuca.uol.com.br/lista-colunas-na-folha/

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