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15,5% de otimismo

Juca Kfouri

06/06/2020 08h04

Por ROBERTO VIEIRA

Recente pesquisa postada nos meios de comunicação registraram que 84,5% dos médicos acham que a situação da pandemia vai piorar. Que o amanhã será trágico. Que o novo normal é o fim do mundo.

Comentei com um amigo que estou nos 15,5% que acham o contrário. As coisas vão melhorar. O amanhã será mágico. O novo normal será mais um passo da humanidade rumo a um futuro mais justo.

Tenho profunda reverência pelo passado e passo boa parte do meu tempo fuçando o tempo pretérito. Sou doido por arquivo público. Fã de revistas e jornais do século passado. Acúmulo velharias pelos cantos da casa para desespero de quem mora comigo.
O passado para mim é vivo.

Talvez por isso mesmo me delicio com os fãs ardorosos do que o vento levou. Os céticos do futuro. Os críticos do presente. Os que acreditam piamente nos Lancets e búzios.
Os que julgam o mundo como imprestável. Impraticável. Inabitável. Injusto. Racista. Hipócrita. Sinistro.

Primeiro que o mundo é o nosso olhar sobre o mundo. Posso dobrar, desdobrar, redobrar e polarizar a vida de muitos modos. A ferramenta dialética é infinita. Com o conhecimento adequado o ser humano pode defender e atacar qualquer ponto de vista. Um dia de sol pode virar cinzas de calor infernal. Um dia de chuva poesia.

Segundo que nós construímos o mundo. E até onde eu saiba não existe outro mundo aquém da morte. O mundo é aqui e agora e ponto final.

Terceiro, e mais significativo, o passado era de escravidão, pelourinho, apartheid e ku klux klan. Atualmente, os quatro são espécies em extinção. Existem em todo o mundo, porém são combatidos. Não são a filosofia dominante, embora o risco da eugenia pela desigualdade social seja um risco. Maior que o próprio racismo.

Porque temos dois mil bilionários no mundo e apenas cinco deles são negros. E o dinheiro faz a diferença no universo da medicina.
Ricos têm acesso à serviços de saúde impensáveis aos pobres. Ricos têm acesso a piscinas impensáveis aos pobres. Principalmente, ricos têm EDUCAÇÃO de qualidade impensável aos pobres.

Mas o ontem era pior. Muito pior. Tomemos a história de uma avó que teve nove filhos. Sobreviveram quatro. Apenas uma das filhas estudou, assim mesmo não completou a educação formal completa. Com pouco estudo, imigrou do sertão nordestino para uma capital onde casou com alguém também sem educação formal. Com muito trabalho e sob preconceito social de todos os lados, conseguiram educar e formar seu segundo filho – o primeiro morreu no parto.

A Medicina dos anos 60 convivia com mortalidade infantil de dois dígitos. Raras eram as vacinas. Madrastas se multiplicavam no mundo pois as mães também morriam nos partos sem assistência adequada. Cinderela era uma história muito mais que fábula.

Pois este filho único teve filhos e todos os filhos tiveram a chance de ter EDUCAÇÃO. Todos cresceram num mundo de vacinas, remédios, exames, internet, smartphones, maior liberdade para dizer o que pensam e a chance de receber um beijo de seu pai.

Fato impensável naquele passado glorioso de surras, palmatória e castigos físicos inimagináveis se não tivéssemos o testemunho de Dickens e da história.

Mundo dos canaviais, casa grande e senzala.
84,5% dos médicos dizem que tudo vai piorar. Não creio. Pessoalmente eu sou impedido de ser pessimista pela história. História dos livros, arquivos, campos de concentração, duas guerras mundiais, 300 milhões de mortos por varíola, 50 milhões de mortos por Influenza, milhões de mortos por AIDS, meningite, tuberculose, sífilis, pestes, esquistossomose, torturas, navios negreiros, dengue, febre amarela, zyka, malária, sarampo, ignorância.

Este é o passado. Esqueçam os contos de fada.

Pessoalmente, eu não posso apostar num futuro pior pois sou o neto daquela avó que aparece no meio desse relato.

Pessoalmente, eu e muitos e muitos milhões de pessoas pelo mundo, somos o triunfo do otimismo, do amor e da EDUCAÇÃO. Nós temos o dever implícito de proclamar que o dia de hoje é uma dádiva e que o amanhã será sempre melhor.

Sim, eu sei o que você está pensando. Nós somos apenas 15,5% da humanidade. Somos minoria. O que podem 15,5% de pessoas contra um universo que conspira contra nós?

A resposta é simples.
Podemos bem mais que aquela senhora simples que viu partir num trem sua filha caçula numa manhã de domingo em 1948 rumo à capital.

Podemos, porque lutar por um futuro melhor, por igualdade e fraternidade entre as pessoas, por esperança, verdade, saúde e EDUCAÇÃO não é uma opção de vida.
É uma obrigação de cada um de nós como seres humanos e cidadãos do mundo.

Nós, os 15,5% de otimistas somos conspiradores. Nós vivemos para conspirar contra o que tantos julgam destino.
Em tempo: são 6:30 da manhã e no momento em que ponho ponto final no texto um passarinho pousa na minha janela. Livre e feliz, deve concordar com os 15,5%… outro conspirador…

Sobre o Autor

Juca Kfouri é formado em Ciências Sociais pela USP. Diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e da Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura, entre 1995 e 2000 e apresentou o Bola na Rede, na RedeTV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Apresentou o programa de entrevistas na rede CNT, Juca Kfouri ao vivo, entre 1996 e 1999 e foi colaborador da ESPN-Brasil entre 2005 e 2019. Colunista de futebol de “O Globo” entre 1989 e 1991 e apresentador, de 2000 até 2010, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio. Foi colunista da Folha de S.Paulo entre 1995 e 1999, quando foi para o diário Lance!, onde ficou até voltar, em 2005, para a Folha, onde permanece com sua coluna três vezes por semana. Apresenta, também, o programa Entre Vistas, na TVT, desde janeiro de 2018.

Colunas na Folha: https://blogdojuca.uol.com.br/lista-colunas-na-folha/

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