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Um memorial para o 7 a 1

Juca Kfouri

18/05/2020 11h02

POR VINÍCIUS BARROS*

Notei que há uma pequena agitação nas redes a respeito de reprisar ou não fatídico jogo do 7×1.

A questão é: "por que reprisar em rede nacional uma derrota humilhante? não seria pesado? já andamos sofridos demais!".

O povo brasileiro ama as suas vitórias, é apaixonado por elas.

Recentemente jogos épicos foram reprisados na TV, como as finais de 70, 94 e 2002. Sem dúvida, conquistas maravilhosas.

Até hoje me lembro de 94, eu com 9 anos, estava em Santos.

Ainda carrego a imagem de um rapaz tremulando a bandeira brasileira em cima de uma banca de jornal. Ruas lotadas, um verdadeiro carnaval.

Entretanto, um país não é feito apenas de glórias; ou poderíamos dizer: "as glórias de um país não são apenas suas conquistas e felicidades".

O que acontece a uma pessoa que se apresenta apenas por suas qualidades? Quando você olha no espelho, só enxerga alegria? O que acontece, então, com uma sociedade que não quer olhar para as suas derrotas?

Essa, a maior derrota da história do esporte, deveria sim ter um memorial.

Sugiro um monumento, um totem para que pudéssemos lembrar e chorar. Para que homens e mulheres pudessem olhar e dizer: "sim, está lá, vencemos duras batalhas, mas também fomos vencidos". E então, questionar: "O que faremos com isso?".

Mas o recalcamento é tão profundo que petrifica a dor. Não sara. Não alivia. Permanece.

Não é por acaso que hoje tenhamos no poder gente tão vingativa, que vive a vida sentindo o gosto do fel.

O ódio alavancou o povo contra "os inimigos que humilharam a pátria".

Hoje, "cidadãos de bem" ocupam as ruas com a "camisa cinco estrelas", supostamente reparando as injustiças. Seria o símbolo da CBF a nossa suástica?

Até hoje me lembro de 2014, eu com 29 anos, estava em Bonfim Paulista. Ainda carrego a imagem de um garotinho chorando e escondendo a sua vergonha com a bandeira brasileira. Ruas tristes, gente se sentindo humilhada.

Lembrar, lembrar e lembrar. Sim, para não repetir. Pois quem dá valor às suas feridas, muda e se torna mais forte.

E não estou falando de futebol, mas se quiserem, podem fazer desse jogo uma grande metáfora para entender quem somos.

*Vinícius Barros é natural de Ribeirão Preto, historiador, fotógrafo e comercialino, tem 35 anos.

Sobre o Autor

Juca Kfouri é formado em Ciências Sociais pela USP. Diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e da Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura, entre 1995 e 2000 e apresentou o Bola na Rede, na RedeTV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Apresentou o programa de entrevistas na rede CNT, Juca Kfouri ao vivo, entre 1996 e 1999 e foi colaborador da ESPN-Brasil entre 2005 e 2019. Colunista de futebol de “O Globo” entre 1989 e 1991 e apresentador, de 2000 até 2010, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio. Foi colunista da Folha de S.Paulo entre 1995 e 1999, quando foi para o diário Lance!, onde ficou até voltar, em 2005, para a Folha, onde permanece com sua coluna três vezes por semana. Apresenta, também, o programa Entre Vistas, na TVT, desde janeiro de 2018.

Colunas na Folha: https://blogdojuca.uol.com.br/lista-colunas-na-folha/

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