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O pum que derrotou o Flamengo

Juca Kfouri

15/05/2020 16h23

POR MARCELO TORRES*

Com gosto de gás

Que jogadores de futebol, especialmente no Brasil, são tratados e retratados como se não fossem pessoas de carne e osso, disso pouco se duvida. Nós fazemos tanta idealização desses semideuses que os condenamos por qualquer faltinha boba, sem peso algum, cometida às vezes por força da natureza — uma necessidade fisiológica, por exemplo.

Mesmo assim, porém, neste admirável mundo de chuta-bola, tão cheio de causos e lendas, nunca tínhamos ouvido falar que um simplório porém humaníssimo gás intestinal, sem som e sem fúria, expelido talvez sem querer, em véspera de jogo, no meio da preleção do treinador, pudesse fazer Golias perder para Davi no coliseu olímpico. 

Mas o fato aconteceu e foi no Brasileirão de 2011, numa peleja entre o Clube de Regatas Flamengo e o Esporte Clube Bahia, no estádio do Engenhão, no Rio. O anfitrião, que brigava pelo título, acabou perdendo para o visitante, que tentava se afastar da zona de rebaixamento. E quem foi apontado como vilão? Quem foi o responsável pelo revés vermelho e preto? 

De acordo com a crônica esportiva carioca, o grande culpado pela derrota do Flamengo tinha sido um mero, um reles, um ínfimo gás intestinal que alguém soltou na véspera, no Ninho do Urubu, sede do clube e local da concentração do time. Vamos ao fato, ou melhor, ao flato. 

A prosopopeia teve início no sábado, 4 de setembro de 2011, quando o então treinador do Flamengo, Vanderlei Luxemburgo, fazia a sua aula na grande lua do gramado. A preleção de praxe, véspera de partida. Mas foi justo na parte em que o professor explicava a tática de jogo, que um dos ouvintes — sem propósito ou de propósito — deixou escapar um certo gás. Este, embora silencioso, espalhou aquele cheiro não muito poético pelo círculo central do campo, talvez até tenha circulado por todo o Ninho do Urubu. 

Cada atleta se segurava como podia para não rir, todos eles fazendo cara de "não fui eu", uns se afastando dos outros, como fazem nesses episódios desde quando eram meninos. Quem estivesse de fora e visse aquela cena talvez achasse que, à exceção do professor, que ficou estático no meio da grande lua, todos eles estavam com o "cheirinho", essa palavra-bordão que os rubro-negros gostam de usar, mas em sentido positivo, referindo-se eles ao "cheiro de título no ar".

No ar, ali, porém, o cheiro certamente era outro, bem outro, como se via. Entre os atletas, uns tapavam as narinas com os dedos fura-bolo e mata-piolho, enquanto outros balançavam a mão perto do nariz para afastar o vento incômodo. Naquela altura do campeonato a preleção tinha ido já pro beleléu, ninguém mais prestava atenção nas palavras do comandante.

O treinador então trilou brusco e alto o apito e declarou encerrada a aula. Técnico que mais vezes ganhou o campeonato brasileiro, mas com passagens não tão vitoriosas pela seleção canarinho e pelo Real Madrid, Luxa ficou fulo da vida, tomando o flato como um ato de indisciplina e, mais que isso, um desrespeito à sua autoridade. Ora, ponderou ele, não podia o cidadão esperar o final da atividade, dali a dez minutinhos, para enfim liberar seus gases mais discretamente? Ou, caso fosse uma questão urgente urgentíssima, não podia o indivíduo pedir licença para ir ao banheiro e lá soltar o bendito fruto do vosso ventre?

É inconcebível uma coisa dessa, dizia o professor, isso não pode acontecer. Primeiramente porque aqui ninguém é mais menino. Segundamente aqui não é nenhum jardim de infância. Terceiramente porque todo mundo precisa ter foco, ser profissional, saber o momento de cada coisa, inclusive a hora e o local de fazer suas necessidades fisiológicas, para não desviar a atenção do grupo, pois futebol é foco, se você não tiver foco, não vai a lugar nenhum. 

— Hoje em dia — disse ele — com o equilíbrio no futebol, uma partida muitas vezes é decidida em um… — ele quase ia soltando o pombo da discórdia — muitas vezes uma partida é decidida em um detalhe.        

Tratava-se, portanto, de uma questão de foco, uma questão de autoridade, uma questão de ordem. O professor, antes visto como boa praça, estava mais desconcertado que cachorro quando cai do caminhão de mudança. Estava ele pior que Dunga, quando levou um chapéu de Ronaldinho (aliás, por falar em Ronaldinho, este fazia parte do elenco, mas, contundido, não estava naquele treino).

Então passou a tarde, passou a noite, passou o cheiro, e o professor querendo saber quem tinha sido o engraçadinho, fazia questão. Fato, porém, é que ninguém sabia quem era o pai, nem o filho e muito menos o espírito santo da ventosidade pouco cheirosa; e mesmo que se soubesse quem foi o emissor do gás, a verdade é que boleiro que é boleiro não dedura o companheiro.  

— Quem foi? — a pergunta ecoou até a hora do jogo. — Não vou punir, não vou tirar do time, é só pra saber mesmo, pois vai que o atleta não está em condições de jogo, talvez seja um pequeno desconforto estômago e a comissão técnica precisa saber, até para o próprio bem do atleta. 

O pai da criança, porém, como não era mais criança, não se entregou. Quem se entregou mesmo foi o time, que levou três gols já no primeiro tempo e perdeu o jogo. O Bahia fez 1 a 0 e o pai da criança era Titi. Renato Augusto empatou: 1 a 1, mas logo os visitantes fizeram 2 a 1 e 3 a 1, e os pais da criança agora eram Dodô e Souza. E assim que terminou a peleja vieram as manchetes:           

"Novo vexame no Engenhão", estampou o Correio Braziliense. "Domingo vergonhoso", titulou O Globo. "Luxa se irrita com 'pum' e clima azeda no Flamengo", era a manchete do UOL. "Brincadeira escatológica revoltou Luxemburgo", dizia o G1, portal das Organizações Globo. 

"O técnico teria se irritado com os atletas após um deles ter soltado um 'pum' na preleção no treinamento de sábado", informou o site. "A péssima atuação do time no revés de 3 a 1 para o Bahia pode ter sido consequência da rusga entre o comandante e seus atletas", concluiu o portal noticioso.  

Em Salvador, porém, a crônica esportiva não quis saber quem pintou as sete portas nem quem matou Maria Preá. Mesmo com o Bahia brigando para se afastar da zona de rebaixamento, os diários soteropolitanos fizeram um carnaval com gosto de gás: "Esquadrão da alegria", exaltou o jornal A Tarde. "Pagodão tricolor", festejou o Correio. "Rumo a Tóquio", empolgou-se a Tribuna.

Ora, bolas, baiano que é baiano não fala pum. Na Boa Terra, quando o escapamento é estrondoso, o nome é aquele nacionalmente conhecido como peido, esse palavrão que em Portugal às vezes vira uma palavrinha, um eufemismo para designar a morte, mais especificamente o "peido-mestre". Em 2010, por exemplo, chorando a partida de Saramago, os lusos lamentavam: "Nosso Prêmio Nobel deu o peido-mestre". 

Na Bahia, quando o gás sai igual ao do Ninho do Urubu, sem som e sem fúria, só com aquele "perfume", o indefectível nome da ventosidade é simplesmente bufa. Jorge Amado, que torcia pelo Ipiranga (antigo clube baiano), em um trecho do romance Tocaia Grande, falou do "mau cheiro das bufas". Já João Ubaldo Ribeiro, torcedor do Vitória, no seu livro O albatroz azul, se queixava de "uma bufa de mula". 

Aliás, o próprio Ubaldo, amicíssimo de Glauber Rocha, também baiano, contava que o autor de Terra em Transe era insuperável, era campeão invicto na arte de peidar. Quando estava caceteado, no meio dessas reuniões entediantes, o cineasta "soltava uma bela e sonora bufa", e assim a bendita reunião acabava, porque todos fugiam, não ficava ninguém sequer para fazer a ata. 

Hoje, tanto tempo depois, pensando bem, quem deve ter soltado aquele traque, aquele flato, aquela bufa no Ninho do Urubu só pode ter sido ele, Glauber Rocha, que era baiano, sim senhor, mas não era Flamengo nem tinha uma nêga chamada Tereza. 

*Marcelo Torres é jornalista, baiano, torcedor do Vitória, mora em Brasília, autor de "Os nomes da rosa", livro de crônicas de humor sobre o futebol.

Sobre o Autor

Juca Kfouri é formado em Ciências Sociais pela USP. Diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e da Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura, entre 1995 e 2000 e apresentou o Bola na Rede, na RedeTV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Apresentou o programa de entrevistas na rede CNT, Juca Kfouri ao vivo, entre 1996 e 1999 e foi colaborador da ESPN-Brasil entre 2005 e 2019. Colunista de futebol de “O Globo” entre 1989 e 1991 e apresentador, de 2000 até 2010, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio. Foi colunista da Folha de S.Paulo entre 1995 e 1999, quando foi para o diário Lance!, onde ficou até voltar, em 2005, para a Folha, onde permanece com sua coluna três vezes por semana. Apresenta, também, o programa Entre Vistas, na TVT, desde janeiro de 2018.

Colunas na Folha: https://blogdojuca.uol.com.br/lista-colunas-na-folha/

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