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O dia em que Zico salvou os craques da Seleção

Juca Kfouri

24/05/2020 18h05

Nesta época de peladas, que no futebol brasileiro periga durar do início de janeiro ao fim de dezembro, ouvi uma história que não lembro de ter visto publicada.

É uma história tão raiz, mas tão raiz, que alude a um jogo do Zico que nem o Moraes, tremendo torcedor, esteve presente.

Uma memorável peleja que quase ninguém viu. Sem bandeiras, sem bateria, sem cantos da torcida – ou seja, quase igual ao Maracanã de hoje. Mas, como o umbandista apressado, vou direto ao ponto.

Zona Oeste do Rio de Janeiro, ali pelos idos de 1968, 1969. O local exato da pelada é impreciso. Uns lembram de um campo em Jacarepaguá. Um dos participantes, no entanto, crava: foi no Sítio Tio Patinhas, no Recreio dos Bandeirantes.

O time anfitrião era da pesada, capitaneado pelo bicampeão mundial Vavá "Peito de Aço" (Edvaldo Izídio Neto para os íntimos), já aposentado e com uma barriga ronaldeana, mas o mesmo faro de gol. Além do artilheiro da Copa de 1962, estavam em campo o ainda magrinho Jair Rosa Pinto (1921–2005), goleador na Copa América de 1949, craque da Copa de 1950 e exímio cobrador de faltas; e também o sau-doso ex-zagueiro rubro-negro Milton Copolillo (1934–2012), tricampeão carioca pelo Flamengo – além de outros veteranos e algumas figuraças, como o hoje ídolo do Ceará Serginho Amizade, seu irmão Humberto e outros boleiros.

Pelo time convidado, recheado de novinhos, 11 garotões de 20 e tantos anos, famintos por pelada, alguns juniores de times grandes do Rio e outros aspirantes, todos com saúde de vaca premiada.

Não estava sopa para os coroas, e o bicho começou a pegar: ao fim e ao cabo do primeiro tempo, Vavá & cia já tomavam de 3 a 0, sem choro nem vela.

Foi quando o célebre camisa 10 apareceu no horizonte.

Era Eduardo Antunes Coimbra, o Edu do América, co-tadíssimo para ser o reserva de Pelé na seleção e então um dos melhores jogadores do Campeonato Carioca. Vavá (1934–2002) mal deixou o meia saudar os companheiros e já foi implorando, entre bufadas:
– Edu, vem, entra aqui.
– Vavá, me desculpa, mas o América joga esta semana. Se eu me machuco como vai ser?
– Machucar que nada. Me ajuda, estamos tomando um banho aqui dos garotos.
Edu fincou os pés fora das quatro linhas, exemplar pro-fissional que era, e reafirmou que não daria. Mas deixou a sugestão:
– Eu não posso mesmo. Mas olha, trouxe dois dos meus irmãos que podem jogar.

A vaca agora que ia para o brejo, pensaram alguns bo- leiros do time anfitrião. Em vez do grande Edu, calçavam as chuteiras para entrar o Nando e um moleque de uns 15 anos, ambas as canelas mais finas que um dos pulsos de Vavá.
– Que seja – resignou-se provavelmente o Peito de Aço –
Afinal quem não tem cão caça com galo.

Segundo tempo, e os Antunes entraram: um na ponta
direita e o outro na esquerda – e fosse o que Deus quisesse.

Quem conta o desfecho do rachão é o eterno boleiro José Luiz Almeida, 20 anos à época, e que ri da história até hoje.

– Foi o terror – conta José Luiz, de 68 anos, que virou advogado. – Quando começou o desespero, me puseram na lateral para segurar o moleque que estava acabando com a pelada. Mas não deu, tomei uma canseira na beirada do campo, e toda hora o Vavá recebia a bola na cara do gol.
E assim fiquei sabendo quem era Arthur Antunes Coimbra. Com direito a vira-vira, goleada e requintes de crueldade, a peleja terminou em algo parecido com 7 a 4, o placar do Jogo das Estrelas organizado neste fim de dezembro por Zico, quase 50 anos depois, diante de quase 50 mil espectadores nas arquibancadas.

Entre as duas peladas, a do Sítio Tio Patinhas e a do Maracanã, quantas saudades, gols e conquistas.

Mas será que Zico, após tantas passagens e bagagens,
ainda lembraria do dia em que salvou Vavá, Jair e outros cobrões do passado?
Para tentar descobrir, arrisquei um email sem graça para o próprio Zico, recordando o causo, no finzinho de dezembro.

A resposta veio na noite de 2 de janeiro, macia como o passe de efeito que deu para Adriano, no Jogo das Estrelas:
"Marcelo, lembro sim", confirmou o Galinho de 64 anos, antes de fornecer vários detalhes da pelada. "Entrei na ponta-direita e o Nando na esquerda e o Vavá deitou e rolou. Eu devia ter uns 15 anos!".
Quem viu, viu. E quem não viu, só resta ir ao Maracanã no fim do ano aplaudir o mito, o rei que mesmo novinho não perdia a majestade.

Sobre o Autor

Juca Kfouri é formado em Ciências Sociais pela USP. Diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e da Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura, entre 1995 e 2000 e apresentou o Bola na Rede, na RedeTV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Apresentou o programa de entrevistas na rede CNT, Juca Kfouri ao vivo, entre 1996 e 1999 e foi colaborador da ESPN-Brasil entre 2005 e 2019. Colunista de futebol de “O Globo” entre 1989 e 1991 e apresentador, de 2000 até 2010, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio. Foi colunista da Folha de S.Paulo entre 1995 e 1999, quando foi para o diário Lance!, onde ficou até voltar, em 2005, para a Folha, onde permanece com sua coluna três vezes por semana. Apresenta, também, o programa Entre Vistas, na TVT, desde janeiro de 2018.

Colunas na Folha: https://blogdojuca.uol.com.br/lista-colunas-na-folha/

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