Viva Gersão, o reboteiro voador
*POR ROBERTO SALIM*
Gérson era um cara querido no meio do basquete. E com carreira longa (…) O grande reboteiro partiu aos 60 anos. Vítima de doença cruel

Quando ele entrava na quadra do Ibirapuera com a camisa número 6 da Seleção, havia uma certeza entre os presentes: se por acaso o arremesso de Oscar ou Marcel batesse no aro, aquele negro alto e magro iria voar e recuperar a bola laranja para o Brasil.
"O Gersão era 'o' reboteiro", garante o meu "irmão" Edgar Alves, com a certeza de jornalista que mais acompanhou de perto o basquete nacional nos últimos 50 anos.
Foi para Edgar que liguei para contar um pouco mais da história do pivô Gérson Victalino, que partiu vítima de Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA).
Repórter da Folha de S.Paulo, Edgar cobriu Sul-Americanos, Pan-Americanos, Olimpíadas e Mundiais e viu de perto aquele jogador, aparentemente desengonçado, fazer poucas e boas nas quadras do nosso país.
"Ele era diferente, porque era um pivô muito alto e muito magro. Então, aparentava fragilidade, mas não era fraco."
Disputava bolas como ninguém e participou de competições antológicas pelo Brasil.
"O Gérson foi o principal reboteiro do Campeonato Mundial da Espanha. E isso não é pouco. Não foi o reboteiro apenas do Brasil. Foi o maior do campeonato entre todas as seleções. E ninguém fala isso!"
Outro fato marcante: ele fez parte da campanha de Indianápolis, quando o Brasil venceu de virada os Estados Unidos na final do Pan em 1987.
Para contar alguns detalhes dessa partida e falar do parceiro, liguei para o Marcel. E deixei mensagem que dizia o seguinte:
"Oi, Marcel, vou escrever sobre o Gérson. Por favor, me conte alguma passagem sobre ele que, como você, chegou ainda menino à Seleção Nacional".
A resposta do Marcel:
"Estou sem condições para isso. Abraços".
Fiquei sem graça, porque Marcel é sempre solícito.
Então me desculpei com nova mensagem:
"Desculpe pela amolação".
E ele revelou o motivo de não se manifestar:
"Não é amolação. É tristeza mesmo".
Sim, Gérson era um cara querido no meio do basquete.
E com carreira longa.
"Esteve em três Olimpíadas, é o recordista de participações em jogos da Seleção", conta outro amigo do peito, o jornalista João Pedro Nunes, que estava em Indianápolis cobrindo o Pan de 1987 pelo Estadão.
"O Gérson não era um jogador que aparecia tanto nas reportagens, mas era muito importante para o time."
O grande reboteiro partiu aos 60 anos.
Vítima de doença cruel.
"Eu nunca vi o Gérson bravo. Era brincalhão. Ele era um cara simples, sempre sorridente", relembra Edgar Alves.
Não perdeu a linha nem no dia em que o Brasil perdeu de Cuba nas quartas de final dos Pan-Americanos de 1991, em Havana.
"Eu estava lá no Coliseu José Clemente: a última bola chegou às mãos do Gérson totalmente pressionado. Era a bola do jogo. Se fizesse, o Brasil ganhava. Mas ele não tinha condições de arremessar. Ainda assim, tentou. E não conseguiu. Todos os olhares se dirigiram a ele, como se tivesse uma culpa que na realidade não tinha. E até alguns jornais chegaram a publicar que ele teve o jogo nas mãos. O que era uma mentira. Nem assim, ele se abalou,"
Com certeza, esse comportamento humilde e constante era fruto de período duro vivido na infância modesta.
Edgar lembra-se de algumas vezes em que escreveu sobre o esforço que Gérson teve de superar para se tornar atleta: seus pés tinham os dedos retorcidos.
"Um defeito criado pelos sapatos com tamanho menor que seus pés que foram usados quando era menino."
Como diz um ditado triste, muitas vezes citados por esportistas e crianças da periferia que ganham tênis e sapatos usados: pés de pobre não têm número. Mas a carreira de Gérson tem número: vale 1.000!
*Publicado originalmente em ULTRAJANO.
Sobre o Autor
Colunas na Folha: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/jucakfouri/










