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Respeito, a vitória de Masopust e Lala na Copa de 62

Juca Kfouri

02/04/2020 13h33

O pequeno estádio Sausalito, em Viña del Mar, estava apinhado para ver a seleção brasileira com Garrincha e Pelé diante da Tchecoslováquia, segunda partida da Copa do Mundo de 1962, no Chile.

A seleção brasileira era a favorita ao título, e a tcheca, uma incógnita.

Ninguém duvidava: seria a Copa de Pelé, pois o menino da Suécia tinha virado homem, tinha virado rei, Rei do Futebol.

Aos 25 minutos do primeiro tempo, Pelé recebe uma bola de Zito na entrada da grande área e solta a bomba. O goleiro Schroiff desvia de leve, a bola ainda toca a trave e sai a escanteio.

Imediatamente, o rosto de Pelé se transforma numa máscara de dor.

Ele leva a mão à coxa esquerda e sente algo que jamais sentira em cinco anos de carreira. O diagnóstico posterior era definitivo e o tirava da Copa: distensão da virilha.

O Brasil inteiro sente a mesma dor.

Quem nem sabia que tinha uma coisa chamada virilha, a junção da coxa com o ventre, passa a saber. E gostaria muito de poder oferecê-la, saudável, ao Rei, ferido.

Como naquele tempo não havia substituição, era comum um jogador machucado permanecer em campo, fazendo número, como se dizia, para, pelo menos, manter algum defensor adversário minimamente preocupado.

Foi o que Pelé fez, ali pela ponta esquerda, mancando.

Mas, sem que ele se desse conta, o capitão tcheco, Masopust, ordenou a seus companheiros:

"Ninguém o combate se a bola chegar nele".

E eis que a bola chegou nele, outra vez enviada por Zito.

Com dificuldade, Pelé a recebe e vê o lateral Lala se aproximar, apenas para cercá-lo.

Pelé olha para Lala, que pára e bota as mãos na cintura, feito estátua.

Pelé percebe o que se passa.

E retribui o gesto à altura.

Num último esforço, toca a bola para fora, sai do gramado, deixa o jogo, sempre escoltado por Masopust.

O pequeno estádio Sausalito, apinhado, fica em silêncio, parece não entender exatamente o que se passa no gramado, ou melhor, já fora do gramado.

Porque era uma cena rara de respeito, de generosidade, de solidariedade, de grandeza – em duas palavras, de ética esportiva.

Um momento que entrou para a história do futebol.

Em seguida, a torcida chilena irrompeu em aplausos.

Percebera que tinha acabado de assistir a uma cena digna de três nobres.

O jogo terminou triste e sem gols. Brasileiros e tchecos voltaram a se enfrentar na final, e o Brasil foi bicampeão mundial, ao vencer por 3 a 1, naquela que foi a Copa do Mundo do genial Mané Garrincha.

Mas que foi também de Masopust, Lala e Pelé. Porque, acima da vitória, está o respeito ao próximo.

(Extraído do livro "Meninos, eu vi", de Juca Kfouri, editoras DBA/Lance!).

Sobre o Autor

Juca Kfouri é formado em Ciências Sociais pela USP. Diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e da Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura, entre 1995 e 2000 e apresentou o Bola na Rede, na RedeTV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Apresentou o programa de entrevistas na rede CNT, Juca Kfouri ao vivo, entre 1996 e 1999 e foi colaborador da ESPN-Brasil entre 2005 e 2019. Colunista de futebol de “O Globo” entre 1989 e 1991 e apresentador, de 2000 até 2010, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio. Foi colunista da Folha de S.Paulo entre 1995 e 1999, quando foi para o diário Lance!, onde ficou até voltar, em 2005, para a Folha, onde permanece com sua coluna três vezes por semana. Apresenta, também, o programa Entre Vistas, na TVT, desde janeiro de 2018.

Colunas na Folha: https://blogdojuca.uol.com.br/lista-colunas-na-folha/

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