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Pois é isso, João Saldanha, nada mudou de lá para cá

Juca Kfouri

01/04/2020 17h19

*Publicado em 2001.

O maior prêmio de minha carreira como jornalista, e lá se vão 31 anos, ganhei-o no dia 12 de agosto de 1987, dado pelo imortal João Saldanha.

Uma coluna inteira dele no "Jornal do Brasil", comentando um artigo meu em Placar.

O título da coluna era "Pois é isso, Juca", e a tenho enquadrada, na parede de meu escritório.

Gostaria de reproduzi-la integralmente, mas, como o espaço não é suficiente, seguem alguns trechos que dão a medida de como nada mudou no pobre panorama de poder e desorganização em nosso futebol, até hoje às voltas com o calendário, com os campeonatos estaduais, com a corrupção.

"Peço licença ao Juca Kfouri para utilizar seus números da "Placar" que fazem a estatística de público dos campeonatos.

Sentem na cadeira mais próxima para não cair de bunda no chão. Lá vai. Campeonato paranaense: 2448 pessoas por jogo. E o Onaireves (Severiano ao contrário) bota uma banca enorme. O gaúcho é melhor, e talvez o sr. Hoffmeister se orgulhe de seu resultado: 2942 pessoas por jogo. Oba! É massa. Deve ser exatamente por isso que o Grêmio e o Internacional a toda hora vendem um craque. O campeonato mineiro ganha do gaúcho: 3148. Fantástico! Acho que o Mineirão está superado. Deve ser construído outro estádio. Onde meter a enchente de massa que assiste aos jogos do campeonato mineiro? Ah… mas temos… ainda Rio e São Paulo. O Rio, do Maracanã, e São Paulo, do Morumbi. Está bem. No Rio, a média é de 6637, e em São Paulo, de 7083. […] O que me admira é a impunidade e a desfaçatez com que estes homens que assaltam o poder do futebol fizeram leis que nem os gangsters de Chicago fariam. Conduzem os clubes à falência. […] E ninguém vai preso? Pois é, Juca. Eles estão soltos. É sim, soltos! Corrompem brutalmente, associam-se a qualquer grupo de marginais que mandam e desmandam no esporte brasileiro. Inverteram tudo. Compraram escandalosamente os votos a seus igualmente corruptos eleitores. […] Pois, Juca, os bandidos estão no poder nos esportes. Trata-se de mandá-los embora. Para sempre…Mas você tem razão em alertar para a manobra da cbf…"

Mais dois domingos, e fará 14 anos que João Saldanha, o João Sem Medo, escreveu o que ora transcrevo, ele com setenta anos de vida, a três de sua morte, na Copa de 90, na Itália, no campo de batalha, de onde nunca se afastou.

Parece mentira a constatação de que está tudo, exatamente tudo, igual.

Até Onaireves ainda é o mesmo – como Hoffmeister agora é Perondi, e Nabi virou Eduardo, e Otávio virou Ricardo.

O que mudou, mudou para pior. Melhor, apenas porque bem mais, só o dinheiro que envolve o mundo da bola.

Pois é isso, João.

Extraído do livro "Meninos, eu vi", de Juca Kfouri (editoras DBA/Lance!).

Sobre o Autor

Juca Kfouri é formado em Ciências Sociais pela USP. Diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e da Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura, entre 1995 e 2000 e apresentou o Bola na Rede, na RedeTV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Apresentou o programa de entrevistas na rede CNT, Juca Kfouri ao vivo, entre 1996 e 1999 e foi colaborador da ESPN-Brasil entre 2005 e 2019. Colunista de futebol de “O Globo” entre 1989 e 1991 e apresentador, de 2000 até 2010, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio. Foi colunista da Folha de S.Paulo entre 1995 e 1999, quando foi para o diário Lance!, onde ficou até voltar, em 2005, para a Folha, onde permanece com sua coluna três vezes por semana. Apresenta, também, o programa Entre Vistas, na TVT, desde janeiro de 2018.

Colunas na Folha: https://blogdojuca.uol.com.br/lista-colunas-na-folha/

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