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Onde estão os Vingadores?

Juca Kfouri

02/04/2020 14h54

Por ROBERTO VIEIRA

Existe um sentimento de insegurança. Um sentimento letal nas crianças se infiltrando em silêncio nos seus corações, a cada dia que ficam reféns em casa, entre quatro paredes, inocentes nas prisões da quarentena.

É correto que existem canais fechados, YouTube, Netflix e Now. Mas foi uma pergunta de Daniel que chamou minha atenção:

'Pai, quando os Vingadores vêem nos salvar?'

E essa era a mesma dúvida cruel de toda sua turma. Pedros, Davis, Marquinhos, Maria Julias.

'Pai, quando Batman e Superman vão nos salvar?'

Realmente ficou estranho e delicado para o mundo mais velho, especialmente os mais velhos passados dos cinquenta anos, explicar o que acontece. Porque abaixo dessa idade, principalmente nos últimos anos, o planeta e o universo sofreram muitas ameaças, mas todas eram combatidas pelos Vingadores ou personagens DC Comics.

Só que diante do coronavírus o Homem-Aranha desapareceu. O Capitão América deixou Nova York e a Califórnia ao seu próprio destino. O Homem de Ferro e sua poderosa mente se calaram. Thor voltou pro espaço antes que cancelassem seu vôo. Hulk amarelou. Literalmente.

Pior ainda. Sério. O Batman está recolhido com Robin na batcaverna, revoltado com os chineses que usam morcegos como iguaria. Superman fez previsões sobre conexão do covid-19 e a kryptonita. Nem quer saber de conversa.

A Mulher Maravilha voltou pra sua ilha. Diana se aposentou no INSS. Esperavam muito do Flash e do Arqueiro Verde. Pois as crianças ficaram esperando já que Aquaman também voltou a encher a cara nos oceanos.

Vexame total.

As crianças começaram a ver outros heróis na mídia. Heróis que não voam, não lançam teias nem soltam raios.

Heróis que também usam máscaras, luvas, só não voam. Atacam de desinfetantes, respiradores, remédios, pesquisas, epidemiologia e cérebro. Heróis de carne, osso e coragem. Heróis mortais pois morrem às dezenas e centenas, muitas vezes sem escudos protetores negados pelos políticos de Lex Luthor.

A pequena e a grande humanidade, acostumada a vibrar com o Coringa, fato exótico e perturbador, aprendeu a ver estranhas figuras parecidas com seus pais trabalhando incansavelmente nos laboratórios, lutando por vacinas, drogas, DNA. Buscando salvar nossa civilização anonimamente.

Talvez, no futuro, tudo volte. Estúdios são muito cara de pau, Capitão América, por exemplo, ganhou a II Guerra para muitos. Até pro topetudo.

Então, cinema e mídia inventarão novas aventuras dos Vingadores contra uma revolução galáctica viral.

Pode ser.

Só que Daniel agora sonha com microscopia eletrônica e programas de computador que prevêem possíveis novas pandemias. Miguel e Lucas sonham em bater bola no campinho proibido na frente de casa. Cecilia não quer nem ouvir falar da Feiticeira Escalarte.

Animais fantásticos habitam na microbiologia.

Jenner, Koch, Pasteur, Osvaldo Cruz e Carlos Chagas também se aprende agora na nova escola. Em casa. Por teleaula. Reuniões de amigos acontecendo no Google. Bate papos no zap.

Não se sabe, entretanto, se a terceira idade está menos descrente. O efeito pode ser o inverso.

Muitos senhores e senhoras de cabelos brancos foram na velha estante ou no moderno kindle e estão relendo Monteiro Lobato, Verne, Dickens, Twain e Malba Tahan.

Asterix ainda incendeia imaginações em tempos nos quais os céus ameaçam cair em nossas cabeças.

Se é verdade que a Disneylândia fechou, não é menos verdade que os Rin Tin Tins voltaram a ser os melhores amigos do homem.

E até a Emília foi vista no laboratório do Visconde de Sabugosa.

Porque na hora da onça beber água os super heróis, quem diria, deram no pé.

E olha que até Cascão arriscou sua vida.

Lavando as mãos.

Sobre o Autor

Juca Kfouri é formado em Ciências Sociais pela USP. Diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e da Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura, entre 1995 e 2000 e apresentou o Bola na Rede, na RedeTV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Apresentou o programa de entrevistas na rede CNT, Juca Kfouri ao vivo, entre 1996 e 1999 e foi colaborador da ESPN-Brasil entre 2005 e 2019. Colunista de futebol de “O Globo” entre 1989 e 1991 e apresentador, de 2000 até 2010, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio. Foi colunista da Folha de S.Paulo entre 1995 e 1999, quando foi para o diário Lance!, onde ficou até voltar, em 2005, para a Folha, onde permanece com sua coluna três vezes por semana. Apresenta, também, o programa Entre Vistas, na TVT, desde janeiro de 2018.

Colunas na Folha: https://blogdojuca.uol.com.br/lista-colunas-na-folha/

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