PUBLICIDADE
Topo

Histórico

Categorias

Maracanã e a gripe asiática, 1957

Juca Kfouri

04/04/2020 00h00

POR ROBERTO VIEIRA

De repente, um susto.

O presidente Juscelino Kubitschek tem febre, dores pelo corpo, gripe contraída durante a visita da comitiva do presidente português Craveiro Lopes ao Brasil.

As festas foram grandes, lado a lado assistiram com 150 mil pessoas no Maracanã ao triunfo de 2×1 do Brasil sobre Portugal.

Brasil que já tinha Zito, Didi e Garrincha em campo. Brasil que recebia um convidado viral.

Será JK a primeira vítima brasileira da Asiática no Brasil? A notícia explode no país do presidente que mudava a cara da nação.

Telegramas não param de chegar de Taiwan, Filipinas, Japão e Malásia.

A gripe que irrompeu em Hong Kong e Singapura viaja pelo planeta. Trezentas mil pessoas estão contaminadas. Pior. Dezoito casos são relatados na vizinha Venezuela.

O vírus já foi isolado. No Brasil, o Instituto Oswaldo Cruz luta contra a pandemia que ameaça chegar ao país com a força da Gripe Espanhola de 1918.

Desde 1945, o Instituto já produz vacina contra gripes.

Para os cientistas da época, o novo vírus é batizado como A – Singapura. Vírus tipo A localizado em Singapura. Para a população é simplesmente a ASIÁTICA.

A revista Manchete proclama. As epidemias convencionais de gripe atacam os jovens. As pandemias são mortais para os idosos, na época indivíduos com cinquenta anos ou mais de idade.

Incrivelmente, como hoje, evitar apertos de mão e lavar as mãos foram cartilha. Não havia prescrição de máscaras, mas já se alertava sobre a distância entre pessoas por causa dos 'perdigotos'. Remédios milagrosos circulavam nas redes sociais daquele tempo, ou seja, de boca em boca espalhando o vírus.

A mídia brasileira se sai muito bem na retrospectiva das pandemias. Lembra que em 1890, em Paris, a pandemia da época matava, porém o índice de suicídio pelo isolamento, melancolia e depressão cresceu assustadoramente e matou muito mais.

Historicamente, o termo gripe entrou na história da Medicina em 1742. Na Itália há referência da expressão INFLUENZA em 1504.

A primeira Pandemia bem documentada foi a de 1837. Seguiram-se as de 1847, 1888 (Gripe Russa), 1918 e 1921.

E para você ver que o mundo não mudou tanto assim, a revista LANCET traz artigo britânico ligando a epidemia de gripe aos testes atômicos realizados na época pela região do Pacífico. Os vírus teriam sofrido mutações. Era a teoria da conspiração da década de 50.

A ASIÁTICA tinha aparentemente um fato a seu favor segundo as notícias: a baixa letalidade. Isso permitiu o desfile do 7 de setembro de 1957, criticado por muitos dada as multidões que se reuniam nas ruas para assistir às tropas naqueles tempos. JK pensou adiar, mas havia muitas autoridades estrangeiras, os eleitores queriam ver de perto o recentemente organizado Batalhão de Suez.

A festa da pátria era mais importante que o isolamento da população.

Mas nesse aspecto as notícias estavam erradas.

A ASIÁTICA que hoje se sabe foi causada pelo vírus do subtipo H2N2 matou quatro milhões de pessoas em todo o mundo. Metade da população global entrou em contato com o vírus. Nada tinha de gripezinha.

Curiosamente, o tempo comprovou que a ASIÁTICA não teve origem em Singapura ou na ilha de Hong Kong.

A ASIÁTICA nasceu em fevereiro de 1957.

Na China continental…

A maior parte dos óbitos?

Aconteceu por pneumonia bacteriana secundária ao quadro viral.

Qualquer semelhança com a Covid-19 não é mera coincidência.

Sobre o Autor

Juca Kfouri é formado em Ciências Sociais pela USP. Diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e da Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura, entre 1995 e 2000 e apresentou o Bola na Rede, na RedeTV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Apresentou o programa de entrevistas na rede CNT, Juca Kfouri ao vivo, entre 1996 e 1999 e foi colaborador da ESPN-Brasil entre 2005 e 2019. Colunista de futebol de “O Globo” entre 1989 e 1991 e apresentador, de 2000 até 2010, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio. Foi colunista da Folha de S.Paulo entre 1995 e 1999, quando foi para o diário Lance!, onde ficou até voltar, em 2005, para a Folha, onde permanece com sua coluna três vezes por semana. Apresenta, também, o programa Entre Vistas, na TVT, desde janeiro de 2018.

Colunas na Folha: https://blogdojuca.uol.com.br/lista-colunas-na-folha/

Blog do Juca Kfouri