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Eram 85 mil e mais onze contra apenas onze no Maracanã ***

Juca Kfouri

06/04/2020 13h16

Faz dezoito anos, mas a lembrança é tão nítida como se tivesse sido ontem.

Dia 20 de janeiro de 1982, dia de São Sebastião, feriado do padroeiro na Cidade Maravilhosa.

Flamengo e São Paulo, à tarde, no Maracanã com 85 mil pessoas, num dia que era útil pelo país afora.

No Rio, seria um dia mágico.

Ao chegar, avisei aos queridos João Saldanha, Sandro Moreyra e Sérgio Cabral: "Esse São Paulo tem um timaço e pode ganhar do Flamengo numa boa".

De fato. O tricolor tinha Valdir Peres, Getúlio, Oscar, Darío Pereyra e Marinho Chagas; Almir, Renato e Everton; Paulo César, Serginho e Mário Sérgio. Tirante Almir, eram dez da seleção.

Tudo bem, o Mengo tinha Raul, Leandro, Marinho, Mozer e Júnior; Andrade, Adílio e Zico; Chiquinho, Nunes e Lico.

Do time campeão mundial um mês antes em Tóquio, só faltava Tita.

Meus três amigos cariocas, dois botafoguenses e um vascaíno, bem que queriam ver uma derrota do Flamengo, mas se limitavam a me gozar.

Eu ainda insisti.

"Esse time não é bicampeão paulista à toa, gente."

E eles só riam.

Eu também não tinha nada a ver com aquilo, estava no Maracanã apenas para ver o que, sabia de antemão, seria um jogaço.

E foi o São Paulo quem começou arrasador.

Aos catorze minutos, fez 1 e, aos 41, fez 2 a 0, dois gols de Serginho, fora o baile.

No intervalo, me vi como uma celebridade.

Cercado pelos companheiros cariocas na tribuna de imprensa, pontificando sobre aquele grande time tricolor.

E olhava com um insolente ar de superioridade para os três incréus.

Eis que o jogo recomeça e Zico diminui logo aos treze.

O Maracanã se transforma num coro só: "Ó meu Mengão, eu gosto de você, quero cantar ao mundo inteiro a alegria de ser rubro-negro. Conte comigo, Mengão, acima de tudo rubro-negro…"

E o time se transforma numa enlouquecida máquina de jogar futebol, embalada pela voz da arquibancada.

Eram 85 mil e mais onze contra apenas onze são-paulinos.

E o inevitável aconteceu.

Andrade empatou aos 25, e, como o Maracanã não parava de cantar, não se satisfazia com o empate, o Galinho tratou de, aos 36, marcar o gol da vitória.

E que vitória, embora fosse só a estréia rubro-negra no campeonato brasileiro, que o Flamengo ganharia com nada menos que quinze vitórias, seis empates e apenas duas derrotas.

Também, com uma torcida daquelas…

João Saldanha, Sandro Moreyra e Sérgio Cabral, dois botafoguenses e um vascaíno, só riam.

E eu, corintiano, também.

Como a maioria do Brasil.

*(Extraído do livro "Meninos, eu vi", de Juca Kfouri, editoras DBA/Lance!) .

**Publicado no blog em 27/12/2005.

Sobre o Autor

Juca Kfouri é formado em Ciências Sociais pela USP. Diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e da Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura, entre 1995 e 2000 e apresentou o Bola na Rede, na RedeTV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Apresentou o programa de entrevistas na rede CNT, Juca Kfouri ao vivo, entre 1996 e 1999 e foi colaborador da ESPN-Brasil entre 2005 e 2019. Colunista de futebol de “O Globo” entre 1989 e 1991 e apresentador, de 2000 até 2010, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio. Foi colunista da Folha de S.Paulo entre 1995 e 1999, quando foi para o diário Lance!, onde ficou até voltar, em 2005, para a Folha, onde permanece com sua coluna três vezes por semana. Apresenta, também, o programa Entre Vistas, na TVT, desde janeiro de 2018.

Colunas na Folha: https://blogdojuca.uol.com.br/lista-colunas-na-folha/

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