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"Confesso que perdi": omissões, correções e acréscimos

Juca Kfouri

02/04/2020 19h12

Ao escrever o livro de minhas memórias, "Confesso que perdi", em 2017, sabia que haveria incorreções, que os competentes revisores da Companhia das Letras os corrigiria, e que me esqueceria de episódios marcantes.

À medida que o tempo passou, tenho vergonha das omissões graves.

Como a de não ter contado que perdi meu pai, Carlos Alberto Gouvêa Kfouri, morto em assalto à minha mãe, na frente da casa dele, no Itaim-Bibi, em São Paulo, em plena luz do dia, na hora do almoço, em 1985.

Meu pai é o adulto sem bigode

De meu velho, procurador da Justiça, herdei a retidão com que procuro viver minha vida e o corinthianismo.

Só Freud explica a omissão de tamanho trauma. Ele tinha apenas 67 anos.

Minha filha Camila, então com sete anos, e meu filho André, com 12, que estavam com os avós, ficaram indelevelmente marcados pela tragédia.

Sua morte desencadeou verdadeira campanha pela pena de morte nos programas policiais da época, prontamente rejeitada por meus irmãos e por mim.

Outra omissão imperdoável aconteceu ao não citar Sérgio Souza, um de meus pais na profissão. Outra vez, só Freud.

Artesão do texto, missionário do jornalismo, solidário até o último fio de cabelo, resistente como poucos.

Dessas duas falhas, não me perdoo.

Outras são bem menos graves.

Como não ter contado que às vésperas da Copa de 1994 recebi telefonema de João Gilberto, com quem jamais havia falado e nunca mais voltei a falar.

Ele me pediu para dizer a Carlos Alberto Parreira que ele deveria mandar a Seleção parar de entrar em campo de mãos dadas, "porque não era coisa brasileira".

E que não contasse ser ele o autor do pedido.

Assim fiz, dizendo a Parreira que era coisa de um gênio da raça.

O treinador sorriu e respondeu: "Você sabe como são os boleiros. Está dando certo e eles vão continuar. Nem vou tocar no assunto".

Também esqueci de contar que certa vez Regina Duarte propôs encenar o monólogo cujos direitos ela havia comprado, sobre um jornalista maduro que vivia triângulo amoroso.

Eu perguntei se ela tinha enlouquecido, a ouvi gargalhar do outro lado do telefone e insistir para eu, ao menos, ler a peça. Em vão, é claro.

Mas há mais, muito mais.

Quem também me telefonou, às vésperas da Copa no Brasil, foi Daniel Cohn-Bendit, um dos líderes do "Maio de 1968", em Paris, chamado de Dany Le Rouge.

Ele viria ao país para fazer um documentário marginal sobre a Copa e queria me entrevistar.

Por minutos duvidei que era ele mesmo até me convencer que não era trote.

Ele veio e fizemos agradável episódio em sua Kombi por Brasília.

Outro encontro inusitado aconteceu no litoral pernambucano,

Em férias na deliciosa casa de meu amigo José Paulo Cavalcanti, advogado de prestígio e premiado autor do extraordinário "Fernando Pessoa – Uma quase autobiografia", fomos de barco comer lagostas pescadas na hora.

Eis que aparece um dos filhos de Zé Paulo pilotando reluzente jet ski e pergunta se eu não quero dar uma volta.

Aceito a experiência inédita e ao voltar encontro meus amigos às gargalhadas.

Todo paramentado com roupa apropriada para pilotar a máquina estava o dono dela, Homero Lacerda, ex-presidente do Sport, com quem eu vivia às turras por causa da polêmica sobre o título brasileiro de 1987, do Flamengo.

Não nos conhecíamos pessoalmente e só restou nos abraçar divertidos.

Diga-se que ele jamais usou a cena. E poderia, porque eu não tinha habilitação.

Na TV Globo aconteceram também bons casos.

Por exemplo, às vésperas de minha estreia no Jornal da Globo, a brilhante diretora Alice Maria recomendou que eu penteasse o cabelo, algo que jamais tinha feito.

"Alice, eu tenho 38 anos, nunca me penteei, não vai ser agora", reagi.

"OK, faça como quiser. Você vai ter, no máximo, dois minutos no ar. Aí, quando aparecer na tela, alguém dirá na sala de casa: 'Ih, tem um cacho fora de lugar'. E, pronto, seu comentário estará perdido".

Penteei.

Também na Globo, devido às minhas críticas aos campeonatos estaduais, o então presidente da Federação Paulista de Futebol, Eduardo José Farah, escreveu para Roberto Marinho reclamando ao dizer que eu criticava o torneio que a emissora transmitia e pagava caro por isso.

O dono da Globo passou a carta para Armando Nogueira responder e o diretor de jornalismo determinou que eu o fizesse — e que começasse por dizer que o jornalismo e a área comercial eram departamentos distintos e sem comunicação entre eles.

Assim foi feito e Roberto Marinho assinou a resposta sem mudar uma vírgula.

Eram outros tempos.

Como era diferente cobrir a Seleção em Copas do Mundo.

Em 1982, por exemplo, antes da estreia contra a União Soviética, o treino em Sevilha seguia quase sem luz num coletivo enlouquecido.

A Seleção já havia perdido Careca machucado e Edinho, que disputava posição com Luizinho, batia em Zico até mais não poder.

Nós, jornalistas, ficávamos à beira do gramado, e numa entrada em que Edinho jogou Zico para fora do campo eu não aguentei e gritei: "Pára o treino, Telê!".

"Parar por quê?", Telê perguntou, bravo.

"Porque o Edinho vai quebrar o Zico", respondi, desaforado.

"E você acha que os russos vão bater menos?", retrucou o treinador que, no entanto, logo encerrou o treino.

Aqui, em 1986

Como você vê, que jornalista chinfrim sou eu para esquecer histórias tão saborosas.

Como esqueci de contar que a primeira reunião que deu origem ao magnífico Museu do Futebol foi em minha casa, a pedido do prefeito paulistano José Serra, com um grupo seleto de jornalistas.

Ou que quando tinha seis anos, em 1956, depois de uma derrota para o Santos por 4 a 2, minha família estranhou que eu, que costumava chorar quando o time perdia, estava todo serelepe.

Minha mãe então quis saber por que eu não estava ligando para o resultado e minha resposta entrou para o folclore da família: "Alunei (assim mesmo!) os quatro gols do Santos. O Corinthians ganhou de 2 a 0".

Finalmente, entre os casos que gostaria de ter contado e esqueci, tem outro já no fim da ditadura, anistia implantada, mas o Partido Comunista Brasileiro, do qual eu fazia parte, ainda na clandestinidade.

Estavámos há quase três dias num fim de semana prolongado em congresso da célula dos jornalistas quando anunciou-se que no domingo pela manhã teríamos uma surpresa, o encontro com dirigente do Comitê Central que acabava de retornar ao Brasil.

Eis que numa sala razoavelmente escura, entra um cidadão, dispensa a cadeira e senta-se sobre a mesa reservada para ele.

Coça os olhos para enxergar melhor e pergunta, alto e bom som: "O que este bando de jovens está fazendo aqui, perdendo seu tempo num domingo de sol?".

Era tudo que nunca imaginamos ouvir de um "capa preta" do CC.

Seu nome? Armênio Guedes, das figuras mais doces que conheci.

E vamos aos erros, graças à colaboração inestimável de meu amigo Felipe Santos Souza.

O episódio da faixa da torcida corintiana contra mim aconteceu em 1989 e não em 1984, por causa de uma capa da Placar, que eu dirigia, cuja manchete era "A fiel verde está feliz".

Era Renatinho e não Bentinho o nome do jogador da Portuguesa que o São Paulo tomou do Corinthians e causou a revolta de Vicente Matheus.

Erro também sobre a marcha dos acontecimentos no jogo em que a Argentina elimina a Itália na Copa de 1990, como ao me referir ao relançamento da Placar após o pentacampeonato do Brasil, quando foi após o tetracampeonato.

E erro outra vez ao mencionar coluna minha no Globo em 1986, embora só tenha começado a fazê-la em 1989.

Há outros errinhos, menos graves que não vale a pena mencionar porque já vai longe este textão, típico de quem está sem o que fazer.

Sobre o Autor

Juca Kfouri é formado em Ciências Sociais pela USP. Diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e da Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura, entre 1995 e 2000 e apresentou o Bola na Rede, na RedeTV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Apresentou o programa de entrevistas na rede CNT, Juca Kfouri ao vivo, entre 1996 e 1999 e foi colaborador da ESPN-Brasil entre 2005 e 2019. Colunista de futebol de “O Globo” entre 1989 e 1991 e apresentador, de 2000 até 2010, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio. Foi colunista da Folha de S.Paulo entre 1995 e 1999, quando foi para o diário Lance!, onde ficou até voltar, em 2005, para a Folha, onde permanece com sua coluna três vezes por semana. Apresenta, também, o programa Entre Vistas, na TVT, desde janeiro de 2018.

Colunas na Folha: https://blogdojuca.uol.com.br/lista-colunas-na-folha/

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