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A estreia do Brasil em 1982: final feliz

Juca Kfouri

07/04/2020 21h48

POR FELIPE DOS SANTOS SOUZA*

O signatário deste blog tinha outra tarefa a fazer (para ele, bem mais importante).

Então, coube a mim rever o Brasil x União Soviética da Copa de 1982, na simpática revisão que o SporTV proporcionará da equipe brasileira daquela Copa – um time marcante, mesmo com suas falhas cada vez mais reconhecidas.

De fato, é bacana ver o carinho que os personagens daquele time ainda inspiram, e a reverência dos mais novos – como Júlio Oliveira e Paulo Vinícius Coelho, a dupla do SporTV para a transmissão.

Bem, começou! Notável ver que Paulo Isidoro, após roer o osso nas Eliminatórias, foi preterido naquela estreia, com Dirceu começando.

Três minutos, e o primeiro grande lance: Zico puxa a bola desde o meio-campo, sozinho, passa por Chivadze e arrisca para a defesa de Dasayev – você lerá muito este nome aqui…

Só que aos seis minutos, um cruzamento do craque Oleg Blokhin já encontra a cabeça de Andrei Bal, bom ponta-de-lança daquele time (já falecido). Era um sinal de como a União Soviética era time bom e traiçoeiro.

Sem problemas: segundos depois, Zico passa na entrada da área, e Júnior bate da meia-lua para Dasayev pegar.

Chute de Serginho aos 9', outro arremate de Zico para fora aos 12', escanteios e mais escanteios para Éder cobrar (eta, falta de espaço que os fotógrafos davam em Sevilha!)… o Brasil dominou o começo do jogo.

Mas aos 18 minutos, Luizinho puxou Shengelia enquanto o georgiano-soviético tentava carregar a bola na área. Puxou, não há dúvidas – houvesse VAR, haveria pênalti. Mas o juiz Alberto Lamo Castillo deixou passar… era um sinal de que a União Soviética não estava morta.

Só que, no minuto seguinte, lá estava Serginho arriscando chute para fora, na área. E o Brasil seguiu dominando.

Até os 34 minutos, em que Bal arriscou o chute de fora da área, e Valdir Peres cometeu a falha que rendeu o 1 a 0 soviético. Falha, sim. Mas que o marcou injustamente – qual outra falha que Valdir cometeu naquela Copa?

O gol pesou, a União Soviética cresceu – e tinha jogadores para isso: Demianenko, Bal, Daraselia, Gavrilov, Blokhin… olha eles aí, quase fazendo 2 a 0 com Bessonov aos 43!

Intervalo em boa hora, Telê colocou Paulo Isidoro para a etapa final, e veio o segundo tempo.

(Ah, sim: na transmissão original, sabiam que a TV Globo exibiu um plantão informando a rendição da Argentina na Guerra das Malvinas?)

Após alguns torcedores atirarem abanadores contra a meta de Dasayev – todos de papelão -, começaram os 45 minutos finais.

Em que pese um outro chute que Valdir Peres pegou em dois tempos, o Brasil já começou em cima: cruzamento de Júnior que Dasayev pegou aos seis minutos, Éder chutando para fora aos oito, Júnior se apressando e indo até o túnel dos vestiários para pegar uma bola e cobrar lateral, um chute de Éder com desvio em Chivadze aos 14…

Aliás, Éder arriscava chutes sem parar, desde o começo da etapa final. Como se só assim pudesse vencer Dasayev, já despontando como um dos bons goleiros daquela Copa, saindo bem do gol para pegar qualquer cruzamento.

Mas parecia que não daria certo. Até porque a União Soviética seguia perigosa em alguns contra-ataques.

Até que Sócrates fez dar certo! Aos 30, driblou Sulakvelidze, Daraselia e mandou no ângulo direito! Demais até para Dasayev!

Sem ser vivo em 1982, imagino o alívio de quem estava assistindo ao jogo, no Brasil ou no estádio Ramon Sánchez Pizjuan, lá em Sevilha (não é, Juca?)…

Já seria melhor o empate. Mas era pouco para um time ofensivo acima de tudo, como disse… Zico, que quase faz aos 33, escorando para fora, por pouco.

A União Soviética ainda lembrou o quanto era perigosa – teve Luisinho desviando a bola com a mão aos 35 (Blokhin pediu pênalti), teve gol anulado de Shengelia aos 41…

Mas o final feliz brasileiro veio aos 43, num chute de fora ainda mais bonito: Paulo Isidoro tocou para o meio, Falcão fez o corta-luz, Éder chutou, e Dasayev só ficou parado porque não havia o que fazer. 2 a 1.

Um jogo equilibrado, com o Brasil ótimo no ataque – e nem tanto na defesa. Mas houve final feliz.

Foi assim em 14 de junho de 1982. Não foi assim em 5 de julho de 1982. Faz parte.

E eu só espero que nos próximos jogos, Juca Kfouri apareça com suas memórias por aqui. É o que interessa, né?

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Lembranças de um susto, quase por Juca Kfouri

Tinha algo a fazer na mesma hora – a presença no ato virtual das entidades dos jornalistas brasileiros, homenageando esta valorosa Patrícia Campos Mello e tendo a presença de Dr. Drauzio Varella, sensata e luminosa nestes tempos.

Mas consegui pegar um pouco do Brasil x União Soviética, nesta simpática revisão da Copa de 1982 que o SporTV oferece em sua Faixa Especial de reprises nesta semana.

1982 foi um dos anos mais marcantes de minha vida profissional, e a Copa foi fundamental nisso.

Sempre agradável ver aquela geração de grandes jogadores – e grandes pessoas.

Sempre bom evocar aqueles dias na Espanha, em Sevilha e Barcelona, comandando a cobertura da revista "Placar", trabalhando nos jogos, ao lado de tanta gente boa que também acompanhava aquela Seleção e com ela se deliciava.

Um pouco agridoce lembrar de quem já não está aqui: João Saldanha, o afável Valdir Peres, o genial fotógrafo JB Scalco que fazia fotos para "Placar", este Doutor Sócrates que tanta falta faz.

Lembrando aquela estreia em 14 de junho de 1982, dá para pensar algumas coisas, quase 38 anos depois:

Por quê Dirceu começando aquele jogo, e não Paulo Isidoro, que jogara todas as partidas das Eliminatórias?

Sim, Luisinho cometeu dois pênaltis. Agarrou Shengelia no primeiro tempo, desviou a bola com a mão no segundo. O juiz espanhol Lamo Castillo não deu nenhum…

Valdir Peres falhou no gol soviético. Mas segue injusto se esquecer, por exemplo, de duas defesas fundamentais dele contra a Argentina, quando ainda estava 0 a 0.

O Brasil estava melhor até sofrer o gol – e a União Soviética também tinha um belo time: Shengelia, Gavrilov, Blokhin, Bal, todos eles jogavam muito.

E mesmo com os sustos na defesa (gol anulado dos soviéticos), de tanta pressão do ataque, de tantas chances que consagraram o estupendo goleiro Dasayev, como não virar para 2 a 1, com aqueles golaços do Doutor Sócrates e de Éder, já no fim do jogo?!

Escrevi para "Placar" depois do jogo: "Gente, que susto!"

Amanhã reprisam o jogo contra a Escócia.

Não sei, não, mas é capaz do Éder fazer outro golaço…

*Felipe dos Santos Souza é um jovem velho amigo do blogueiro, que sabe mais do dito cujo que o próprio. Tanto que fez dois textos sobre o mesmo jogo. Um com a visão dele, o outro com a minha. E não é que acertou? Ele é historiador, largou o a faculdade de jornalismo, mas o jornalismo não largou dele e ninguém sabe mais de futebol holandês, no Brasil, do que ele. Mente brilhante.

Sobre o Autor

Juca Kfouri é formado em Ciências Sociais pela USP. Diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e da Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura, entre 1995 e 2000 e apresentou o Bola na Rede, na RedeTV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Apresentou o programa de entrevistas na rede CNT, Juca Kfouri ao vivo, entre 1996 e 1999 e foi colaborador da ESPN-Brasil entre 2005 e 2019. Colunista de futebol de “O Globo” entre 1989 e 1991 e apresentador, de 2000 até 2010, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio. Foi colunista da Folha de S.Paulo entre 1995 e 1999, quando foi para o diário Lance!, onde ficou até voltar, em 2005, para a Folha, onde permanece com sua coluna três vezes por semana. Apresenta, também, o programa Entre Vistas, na TVT, desde janeiro de 2018.

Colunas na Folha: https://blogdojuca.uol.com.br/lista-colunas-na-folha/

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