Redes
POR LUIZ GUILHERME PIVA
1. Umas redes
Ele só jogava se tivesse rede nas traves. Mesmo quando moleque, no futebol de botão, de moeda, de pedrinha, arrumava umas hastes e um pedaço de pano velho e punha lá na ponta, pra chutar e ver a bolinha estufar o alvo.
Ele, artilheiro e narrador, emitia o urro da torcida ("uaaaahhh!") junto com o vinco na rede improvisada.
E assim cresceu. Nas peladas, por mais precário que fosse o campinho, ou a laje, o areal, o brejo, qualquer espaço, só jogava se dessem um jeito de esticar lá um lençol rasgado, uma tarrafa abandonada, um trapo achado no lixo, uma camisa rota e a instalassem, muitas vezes só numa pequena parte, no que era adotado como trave – podia ser bambu, janela, portão, chinelos empilhados, não importava. Só valia se ele pudesse sussurrar o "uaaaahhh!" da bola singrando o tecido, ainda que isso quase nunca ocorresse – a imaginação lhe garantia o prazer.
Senão não jogava. Sentava-se do lado de fora e assistia, mas sem interesse. Como era bom de bola, quase sempre encontravam um jeito.
Acabou treinando no juvenil do time local, foi pro time de cima, começou a fazer uns jogos e gols. Sem deixar de narrar pra si mesmo o chuá.
Mas houve um treino em que as traves estavam nuas. Alguma costura ou lavanderia. Ele entrou em campo e as viu esquálidas, ossos sem pele, escápulas sem carne, carne sem roupa, um vazio que fazia das traves uma infinitude impudica.
O treinador distribuía os coletes. Ele perguntou das redes. Sem resposta.
Disse então que não treinaria. Frente ao espanto de todos, encabulou-se a princípio, fingiu uma dor, mas depois foi claro, quase duro: sem rede, não há sentido em fazer gol.
Ninguém entendeu. Propôs unir camisas e coletes com nós e ao menos cobrir um pedaço de um dos gols – contra o qual ele atacaria.
Ninguém aceitou. Irritou-se, irritaram-se, o treinador o pôs pra fora, ele saiu xingando e xingado.
Não joga mais.
Só raramente para pra ver uma peladinha de beira de estrada – claro, se houver rede.
Nem liga pro jogo.
Só gosta de, no momento do gol, soprar "uaaaahhh!" bem devagar e de olhos semicerrados.
2. Outras redes
Anti-Warhol
Eis o mais-que-futuro:
todo mundo é anônimo
só por quinze minutos.
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Luiz Guilherme Piva publicou "Eram todos camisa dez" e "A vida pela bola" – ambos pela Editora Iluminuras
Sobre o Autor
Colunas na Folha: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/jucakfouri/










