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Blog do Juca Kfouri

Redes

Juca Kfouri

13/03/2020 20h00

POR LUIZ GUILHERME PIVA

1. Umas redes

Ele só jogava se tivesse rede nas traves. Mesmo quando moleque, no futebol de botão, de moeda, de pedrinha, arrumava umas hastes e um pedaço de pano velho e punha lá na ponta, pra chutar e ver a bolinha estufar o alvo.

Ele, artilheiro e narrador, emitia o urro da torcida ("uaaaahhh!") junto com o vinco na rede improvisada.

E assim cresceu. Nas peladas, por mais precário que fosse o campinho, ou a laje, o areal, o brejo, qualquer espaço, só jogava se dessem um jeito de esticar lá um lençol rasgado, uma tarrafa abandonada, um trapo achado no lixo, uma camisa rota e a instalassem, muitas vezes só numa pequena parte, no que era adotado como trave – podia ser bambu, janela, portão, chinelos empilhados, não importava. Só valia se ele pudesse sussurrar o "uaaaahhh!" da bola singrando o tecido, ainda que isso quase nunca ocorresse – a imaginação lhe garantia o prazer.

Senão não jogava. Sentava-se do lado de fora e assistia, mas sem interesse. Como era bom de bola, quase sempre encontravam um jeito.

Acabou treinando no juvenil do time local, foi pro time de cima, começou a fazer uns jogos e gols. Sem deixar de narrar pra si mesmo o chuá.

Mas houve um treino em que as traves estavam nuas. Alguma costura ou lavanderia. Ele entrou em campo e as viu esquálidas, ossos sem pele, escápulas sem carne, carne sem roupa, um vazio que fazia das traves uma infinitude impudica.

O treinador distribuía os coletes. Ele perguntou das redes. Sem resposta.

Disse então que não treinaria. Frente ao espanto de todos, encabulou-se a princípio, fingiu uma dor, mas depois foi claro, quase duro: sem rede, não há sentido em fazer gol.

Ninguém entendeu. Propôs unir camisas e coletes com nós e ao menos cobrir um pedaço de um dos gols – contra o qual ele atacaria.

Ninguém aceitou. Irritou-se, irritaram-se, o treinador o pôs pra fora, ele saiu xingando e xingado.

Não joga mais.

Só raramente para pra ver uma peladinha de beira de estrada – claro, se houver rede.

Nem liga pro jogo.

Só gosta de, no momento do gol, soprar "uaaaahhh!" bem devagar e de olhos semicerrados.

2. Outras redes

Anti-Warhol

Eis o mais-que-futuro:

todo mundo é anônimo

só por quinze minutos.

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Luiz Guilherme Piva publicou "Eram todos camisa dez" e "A vida pela bola" – ambos pela Editora Iluminuras

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

Juca Kfouri é formado em Ciências Sociais pela USP. Diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e da Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura, entre 1995 e 2000 e apresentou o Bola na Rede, na RedeTV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Apresentou o programa de entrevistas na rede CNT, Juca Kfouri ao vivo, entre 1996 e 1999 e foi colaborador da ESPN-Brasil entre 2005 e 2019. Colunista de futebol de “O Globo” entre 1989 e 1991 e apresentador, de 2000 até 2010, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio. Foi colunista da Folha de S.Paulo entre 1995 e 1999, quando foi para o diário Lance!, onde ficou até voltar, em 2005, para a Folha, onde permanece com sua coluna três vezes por semana. Apresenta, também, o programa Entre Vistas, na TVT, desde janeiro de 2018.

Colunas na Folha: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/jucakfouri/