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Juca Kfouri

22/03/2020 16h34

POR LUIZ GUILHERME PIVA

1.

No filme "O rato que ruge" (estrelado por Peter Sellers), de 1959, baseado em livro de mesmo nome, o minúsculo país Grão-Ducado de Fenwick, em total colapso econômico, decide declarar guerra aos Estados Unidos.

A estratégia é, com a óbvia derrota, obter um plano de auxílio dos norte-americanos e assim reerguer o país.

Os 22 guerreiros desembarcam em Nova Iorque para a batalha, mas a cidade está totalmente vazia.

Deserta.

Todos estão nos abrigos subterrâneos para se protegerem de um teste nuclear.

Eis que os guerreiros, andando nas ruas abandonadas, se deparam com o cientista que criara a poderosa bomba. Eles o sequestram e levam-no, junto com o explosivo, para Fenwick.

Os Estados Unidos, diante de tal poderio, acabam se rendendo.

E o Grão-Ducado vence a guerra.

Pois bem.

Eu, meus irmãos e uns amigos, com filhos e sobrinhos, montamos um time e enviamos mensagens para o Liverpool, o Barcelona, o Real Madrid, a Juventus e o Bayern de Munique propondo um torneio (ida e volta, pontos corridos).

O vencedor receberá a Taça de Maior Campeão da História – para sempre, porque só haverá uma edição do Torneio.

E deixamos que eles definam a cidade-sede da disputa.

Eles não responderam ainda. Já reiteramos o desafio, e nada.

Ou seja, seremos campeões por W.O.

Os legítimos detentores do título de Maior Campeão da História.

Estamos agora decidindo o nome do nosso time, para gravá-lo na Taça.

Um sobrinho sugeriu Fenwick.

A ideia é boa.

Pode ser.

2.

O jornalista Jaime Spitzcovsky conta que, ao chegar para ser correspondente da Folha de S. Paulo na antiga União Soviética, em 1990, em meio às grandes mudanças que começaram com a queda do Muro de Berlim, em 1989, e levaram à derrocada do país, em 1991, ligou a TV e viu (no único canal existente) um senhor fardado lendo solenemente um texto enorme.

Meia hora, uma hora, duas horas. Não acabava.

Desesperou-se. Não sabia ainda o idioma e imaginou que houvera um golpe, uma ação importante do governo, algo histórico que ele estava perdendo – o que seria trágico para um correspondente.

Ligou, com dificuldades (o sistema telefônico não era exatamente bom), para uns amigos correspondentes de outros países para pegar o conteúdo e enviar a matéria para o Brasil.

Qual o quê!

Não era nada do que ele imaginara.

Tratava-se apenas de um programa de literatura. Nele, um professor lia, por horas infindáveis, um romance.

Eu, por mim, tenho percorrido os canais de esporte. Procuro futebol para assistir, qualquer um – antes da paralisação briguei com minha esposa porque ela se virou de costas para dormir quando eu sintonizei no Bragantino x Água Santa.

Uma mesa-redonda que seja.

Lances da rodada.

Os gols mais bonitos.

Nada.

Ligo para os amigos para saber se na casa deles os canais não estão passando algo que eu esteja perdendo.

Não.

Não paro de zapear.

Uma hora acabo achando algo.

Nem que seja um professor lendo algum livro de futebol.

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Luiz Guilherme Piva publicou "Eram todos camisa dez" e "A vida pela bola" – ambos pela Editora Iluminuras

Sobre o Autor

Juca Kfouri é formado em Ciências Sociais pela USP. Diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e da Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura, entre 1995 e 2000 e apresentou o Bola na Rede, na RedeTV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Apresentou o programa de entrevistas na rede CNT, Juca Kfouri ao vivo, entre 1996 e 1999 e foi colaborador da ESPN-Brasil entre 2005 e 2019. Colunista de futebol de “O Globo” entre 1989 e 1991 e apresentador, de 2000 até 2010, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio. Foi colunista da Folha de S.Paulo entre 1995 e 1999, quando foi para o diário Lance!, onde ficou até voltar, em 2005, para a Folha, onde permanece com sua coluna três vezes por semana. Apresenta, também, o programa Entre Vistas, na TVT, desde janeiro de 2018.

Colunas na Folha: https://blogdojuca.uol.com.br/lista-colunas-na-folha/

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